Não tem estresse na cozinha de Willians dos Anjos, de 27 anos. Que o diga a equipe do chef, já habituada a dar boas risadas quando, no meio do expediente, ele pega um lenço branco e enrola de um jeito engraçado na cabeça, “pro povo trabalhar animado”. Responsável pelo cardápio do Dom Hélio, onde chegou há quatro meses, o baiano de Vitória da Conquista já selecionou iguarias de sua terra para o menu da Semana Santa: vatapá, abará e moqueca. Amante do dendê, ele é especialista em carnes, paixão compartilhada pelo colega de trabalho Gleiciano de Castro, cearense de 25 anos, que assume o turno da noite.
— Comida precisa ter sorriso, ser feita com amor, e eu tenho meus segredinhos no jeito de pegar e selar a carne. Quando é um ribeye, cuido como se fosse uma criança. E tenho uma conversa carinhosa com aquela picanha na chapa, que me chama na hora certa: “Me vire aqui, Willians”.
Aos 6 anos, Anjos já mexia no fogão, ajudando a mãe no preparo das refeições dos sete filhos. Quando veio para o Rio, aos 17, o morador de Pedra de Guaratiba não tinha sequer documento, mas se virou como pôde: lavou carros, foi ajudante em oficina mecânica, vendeu DVDs, trabalhou em lan house. O que ele desejava mesmo era entrar na gastronomia, e a primeira oportunidade foi no Romanella Grill, no Recreio, onde foi auxiliar de cozinha durante um ano e oito meses.
Já Castro, hoje morador de Rio das Pedras, focou no trabalho em restaurantes desde que desbravou o solo carioca, aos 18 anos: passou pelo Quitutes da Deusa, de culinária mineira, em Copacabana, durante quase um ano, onde foi caixa, atendente e auxiliar de cozinha; e pela Confeitaria Colombo, no mesmo bairro, onde trabalhou como atendente durante seis meses. O convite para integrar a equipe do Dom Hélio partiu do proprietário da casa, Hélio Borba, que já o contratava para eventos pontuais.
Assim como o colega, ele também iniciou o aprendizado no fogão em criança, quando ajudava a mãe a alimentar seus cinco irmãos. Do Ceará, Castro trouxe um caldinho de feijão preto com pizza branca, torresmo e salsinha que se tornou cortesia do restaurante.
— Às vezes, um prato nasce de um acidente de trabalho. Foi assim que criamos uma cesta de queijos para saladas. Mas a carne é mesmo o nosso hobby — diz o chef, que planeja aperfeiçoar seus conhecimentos em cursos.
Fonte: O GLobo
Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior