“Saudade, nós guardamos. Lembrança, nós recordamos. Amigos, nós descobrimos, mas pessoas especiais, como Miguel Ayoub, nós nunca esqueceremos”, diz a mensagem escrita sobre um grafite com o rosto de Miguel, em uma pilastra em frente ao local em que seu corpo caiu baleado a 50 metros de casa, na última quinta-feira, durante tentativa de assalto em Laranjeiras. Na foto em que o grafiteiro Acme se baseou, o jovem de 19 anos era três anos mais novo, mas seu sorriso aparecia com mais expressão do que em outras imagens enviadas por amigos. Só há uma diferença entre a foto e o painel, pintado no domingo durante cinco horas: Acme substituiu a camisa da fotografia por outra, a pedido da namorada do rapaz, Tayssa Freitas. No lugar, o artista desenhou uma verde, igual a outra que ela havia dado de presente a Miguel.
A pouco menos de 30 quilômetros de distância do ponto em que Miguel foi assassinado, outro grafite está nascendo na cidade, em um muro da Escola Municipal Jornalista Daniel Piza, em Acari. Antes bege, a parede ganha tons de azul. No centro da imagem, uma menina dança com os braços erguidos, com uniforme de escola pública e asas abertas nas costas. Aos poucos, ganha forma a homenagem à estudante Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, morta há duas semanas com tiros durante uma aula de educação física.
Os muros e viadutos da cidade estão repletos de homenagens a pessoas que morreram de forma violenta. Além de Miguel e Maria Eduarda, já foram retratados por grafiteiros o estudante de biologia Alex Schomaker Bastos, morto a tiros em Botafogo, em janeiro de 2015, quando dois bandidos o assaltaram no ponto de ônibus em que o rapaz esperava a linha 434, na porta da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os cinco amigos assassinados por quatro policiais militares em Costa Barros, em novembro do mesmo ano, também ganharam um painel de grafite em uma rua entre os complexos da Pedreira e do Chapadão. Filho da atriz Cissa Guimarães, Rafael Mascarenhas, atropelado e morto enquanto andava de skate no Túnel Acústico da Gávea — hoje Túnel Acústico Rafael Mascarenhas —, foi homenageado com um desenho no interior da galeria.
— O grafite é uma forma de arte, mas também uma ferramenta de comunicação. Em cidades caóticas como o Rio, ele acaba aflorando como um grito de protesto — afirma a grafiteira Panmela Castro, de 35 anos, autora do trabalho na Rua do Lavradio, no Centro, que defende o fim da violência contra as mulheres. — Esse painel que eu fiz virou um ponto turístico no Rio, assim como em Nova York, na 1st Street, em Manhattan, onde tenho um trabalho com o mesmo tema. O grafite é uma língua universal, e a violência também.
Para o arquiteto e urbanista Washington Fajardo, “o grafite é uma forma de arte que assume um papel de contestação da realidade. Quando ele se torna uma voz da sociedade clamando por vidas que se foram, é a expressão de uma dor coletiva”.
Além do grafite, a direção da escola de Maria Eduarda é enfeitar o muro com plantas. O trabalho está sendo feito pelo coletivo Amo Crew Afro Mulheres de Opinião. O painel é a reprodução de um desenho feito pelo professor Guilherme Júnior, que dá aula de arte em outra escola pública, em Vila Kennedy.
— É uma forma de protesto e homenagem. Com esse trabalho, queremos eternizar o que aconteceu para que não seja esquecido — comentou Carla Felizardo, uma das integrantes do coletivo.
Ela, Mariana Maia, Lu Brasil e Tainã Xavier já grafitaram outros muros e paredes de escolas municipais e estaduais. O tema da violência sempre volta.
— Há trabalhos em muros por toda a cidade, principalmente em favelas — disse Carla.
Enquanto as quatro pintavam o tributo a Maria Eduarda em Acari, o grafite de cinco metros de altura por dois de largura para Miguel chamava a atenção de quem passava por Laranjeiras. A publicitária Mara Fernanda Freitas contava que passou com o filho pelo local apenas meia hora antes do assassinato. Tio de Miguel, Jorge Luiz Ferreira perguntava:
— Moto, a gente compra, mas e a vida dele?
Bernardo Modenes era um dos melhores amigos de Miguel. Ele passa todos os dias em frente ao local onde o jovem perdeu a vida e diz que, de certa forma, o grafite vai eternizar seu amigo.
— Quando começar a perder a tinta, vamos repintar.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Guilherme pinto / Agência O Globo