Dicionário Carioca viraliza nas redes sociais; faça o quizz e saiba quais são as novas gírias

Uma das características mais fortes em um carioca é o seu jeitinho peculiar de se comunicar. Além do chiado marcante, as gírias chamam atenção e tem gente que até se perde na hora de conversar. Por isso, você tem que prestar atenção no que “tá rolando” para aprender o carioquês. Ficar ‘mec” e só usar as gírias “aulas”. Não entendeu nada? “Morde as costas”.

Essas e outras expressões estão na página no Instagram, Dicionário Carioca, criada pela estudante de 21 anos, Viktória Savedra, e que viralizou especialmente nas últimas 24 horas: passou de 20 mil na noite da última segunda-feira para os mais de 133 mil até o início da noite desta terça-feira.

Moradora de Nova Iguaçu, Viktória explorou publicações que brincam em traduzir frases do dia a dia para a forma com que um carioca diria. “Mec” é tranquilo; “Aulas” tipo “isso ficou bom” ou o antigo “maneiro”; e ‘Morde as costas”, fique “tranquilo”.

Viktória conta que a inspiração veio da página Bainês Oficial, que desde julho já acumula 229 mil seguidores na rede social.

— Eu sempre achei essa página muito legal, aí eu comecei a procurar uma do Rio e não achei. Acho que o que torna nossa cidade tão interessante é que além das diferenças regionais, você tem as diferenças de grupos e dos lugares em que cresceu. Precisei criar esse espaço, temos gírias muito diferentes — diz a criadora.

Teste seu conhecimento das gírias cariocas:
https://oglobo.globo.com/rio/dicionario-carioca-viraliza-nas-redes-sociais-faca-quizz-saiba-quais-sao-as-novas-girias-24035932

A primeira publicação foi no início de setembro, mas só na semana passada que a jovem passou a se dedicar e a partir daí veio um sucesso inesperado e totalmente orgânico. Na noite da última segunda-feira os seguidores ficavam em torno de 20 mil e, 24 horas depois, o número já passava dos 100 mil.

O Dicionário Carioca explica também expressões antigas para quem não mora no Rio Foto: Reprodução rede social
O Dicionário Carioca explica também expressões antigas para quem não mora no Rio Foto: Reprodução rede social
— Eu ainda não acredito na proporção que tomou, para mim está sendo um pouco surreal. Eu não tenho capital para investir nisso, não era minha intenção, eu só fui postando. A única ajuda que estou recebendo é do meu primo, que tem respondido as mensagens para mim — comenta.

Viktória diz não saber o porquê do sucesso, especula que seja uma vontade de ver algo que nos identifica registrado. Segundo o linguista integrante da Academia Brasileira de Letras, Evanildo Bechara, a gíria é um produto social. Ela é fluida e rapidamente se modifica. Por isso, os dicionários tradicionais dificilmente registram esses léxicos.

— A gíria é o que há de mais perto de uma linguagem popular cotidiana e, nesse sentido, naturalmente há muitos adeptos. Elas vão se fixando ao serem repetidas, criando um maior número de usuários — explica.

A publicação com maior repercussão define “isso é muito bom” como “aulas”. Para alguns, a expressão ainda causa estranhamento, para outros já faz parte do vocabulário diário, daqueles que não dá para parar de falar. Bechara diz que esse fenômeno é causado, principalmente, pela diferença de gerações entre as pessoas e porque esse vocabulário é extremamente volúvel e próprio de uma época.

Com pouco mais de um mês no ar, a página já acumula mais de 90 mil seguidores e não para de crescer. Para o especialista, a criação de páginas como essa é muito importante para que seja feito o registro de uma linguagem dentro de um contexto social e temporal.

— Ter um arquivo como esse é importante para os tradutores também, a mudança semântica dentro desse léxico é comum. Por exemplo, uma palavra podia significar uma coisa para o meu pai e, para mim, passou a ter outro significado — diz.

Um exemplo prático disso é a expressão “bacana”, que nos anos 80 significava “algo muito legal”, hoje muitos jovens estão utilizando a expressão com sentido irônico ou debochado.

A estudante Nathália Azevedo, de 20 anos, é seguidora fiel das postagens e diz se identificar com o conteúdo:

— Eu achei engraçado e quis compartilhar porque são realmente coisas que eu e meus amigos falamos o tempo todo. A gente se comunica assim e, como eu, tenho certeza de que eles se veem ali também. Eu me identifiquei muito com a postagem sobre o canal 4!

Muitas vezes, essas peculiaridades já estão tão normais no nosso cotidiano que é difícil percebermos a presença delas ou pensarmos no seu sentido. O professor Evanildo Bechara explica que, para os cariocas, a presença dessas gírias podem ser muito fortes pelo caráter turístico e mundano da cidade.

— O carioca tem uma variedade de gírias mais numerosas do que por exemplo o paulista, muito pela presença de etnias mais resistentes à mudanças na linguagem, como a japonesa e a italiana. O carioca tem uma vida livre e a gíria representa essa vida mundana.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior