Destino das charretes puxadas a cavalo em Petrópolis ganha as redes sociais.

A três dias do plebiscito que decidirá o futuro das charretes que circulam pelo Centro Histórico de Petrópolis, artistas estão se mobilizando nas redes sociais contra esse tipo de transporte por tração animal. Em vídeo, atrizes como Nathalia Dill, Heloísa Perissé, Betty Gofman, Paula Burlamaqui e Letícia Spiller e os atores Otávio Muller e Rômulo Arantes Neto mandam mensagens contra o uso das carroças, puxadas por cavalos. Eles pedem a substituição do equipamento por carros elétricos, a exemplo do que foi feito na Ilha de Paquetá. Quem é a favor da atividade também tem usado a internet para fazer campanha. Em vídeo, uma mulher aparece puxando uma charrete, para mostrar que uma pessoa é capaz de fazer o trabalho e, por isso, os animais são preparados para a função.

No domingo, dia do primeiro turno das eleições gerais, quem vota em Petrópolis também participará do plebiscito sobre o uso da tração animal nos passeios turísticos no município. Primeiro, a urna eletrônica mostrará os cargos de deputado federal, deputado estadual, senador (neste caso, duas vezes), governador e presidente. Na sequência, o eleitor irá responder na urna eletrônica à seguinte pergunta: “Você é a favor ou contra o uso de tração animal nos passeios turísticos realizados pelas charretes no município de Petrópolis?”, sendo o número 1 “a favor” e o número 2 “contra”. O resultado do plebiscito será divulgado junto com o das eleições gerais.

Em Petrópolis, 243.659 eleitores estão distribuídos em 125 locais. A cidade mantém 13 charretes cadastradas atualmente, que usam, em sistema de rodízio, 39 cavalos para o serviço. Em seu vídeo, Paula Burlamaqui afirma que o turismo vai continuar existindo no município, com o uso de carros elétricos.

— A diferença é que os cavalos vão poder finalmente descansar — diz ela.

Há anos, os charreteiros de Petrópolis são alvos dessa polêmica. Eles prestam um serviço turístico bastante requisitado na cidade. Mas, para os defensores dos animais, é errado usar cavalo para a tração de veículo. Em fevereiro de 2017, diante da controvérsia, o vereador Reinaldo Meirelles (PP) decidiu protocolar um projeto de resolução na Câmara Municipal de Petrópolis, pedindo a realização de um plebiscito. Após tramitar e ser aprovado na Casa, foi sancionado pela prefeitura. O projeto estabelecia que a consulta derveria ser feita no período eleitoral deste ano.

Proprietária de cavalos e casada com um dos charreteiros, Vanuza Ferrari diz que a atividade é regulamentada por decreto municipal, e que cada equipamento deve ter no mínimo três animais cadastrados, que são usados em sistema de revezamento 2 por 1. Segundo ela, os charreteiros estão na cidade para ajudar o visitante a vivenciar o Centro Histórico, num veículo do século XIX, e, se houver a mudança, o passeio perderá sua essência.

“Se uma mulher consegue tirar uma charrete de inércia, com cinco pessoas dentro dela, dois cavalos conseguem fazer isso sem muito esforço, já que é um animal condicionado”

VANUZA FERRARI
Proprietária de cavalos e casada com um dos charreteiros
– Com o fim do serviço, 30 famílias seriam afetadas pelo desemprego. Os animais recebem acompanhamento veterinário, precisam de laudo médico ativo junto à Secretaria de Trânsito, que regulamenta a atividade. Além disso, pagamos taxa de R$ 195 por charrete para renovação anual da concessão.

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As charretes circulam de terça-feira a domingo, das 9h às 18h, e podem carregar, no máximo, 480 quilos, contando com o peso do condutor. Algumas pessoas questionam sobre a água e a alimentação fornecidas aos animais. Mas os condutores afirmam que tudo é controlado. Os cavalos não podem comer ao longo do trajeto, por exemplo, para evitar cólica. Além disso, os charreteiros dizem que refrescam as patas e hidratam os animais ao longo dos 13 quilômetros diários de trabalho.

– Para o animal é bem tranquilo porque ele é condicionado – disse Vanuza, que gravou um vídeo puxando uma carroça para demonstrar que não é complicado fazer o serviço. – Fiz o vídeo por causa dessa questão de achar que é muito pesado para o cavalo. As pessoas falam que é exploração. Quis mostrar que o veículo é leve, para ele ser tracionado, sair de inércia. Se uma mulher consegue tirar uma charrete de inércia, com cinco pessoas dentro dela, dois cavalos conseguem fazer isso sem muito esforço, já que é um animal condicionado.
Vanuza diz que está otimista quanto à votação, pois a população é fiscalizadora do trabalho:

– Os cavalos são bonitos, estão preparados para isso, as crianças da cidade ficam encantadas e, aqui no Centro, é o único momento em que elas têm uma vivência com o animal.

Diretora da ONG Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Elizabeth MacGregor diz que o movimento contra o sofrimento dos cavalos está grande. A entidade já se propôs a receber os animais que forem liberados:

– A tração, principalmente em local com paralelepípedos, é mais lenta e provoca um trânsito imenso na região. Sem contar que os animais ficam expostos à chuva e ao sol constantemente. Há ainda questões do peso sobre as charretes.

Ainda segundo Elizabeth, as charretes são consideradas patrimônio da cidade, mas apenas o veículo. Os cavalos, não:

– Estamos no século XXI, não pode mais haver transporte urbano com uso de tração animal. Aqueles cavalos nunca são aposentados. Se quebram uma perna, são abatidos.

“Estamos no século XXI, não pode mais haver transporte urbano com uso de tração animal. Aqueles cavalos nunca são aposentados. Se quebram uma perna, são abatidos”

ELIZABETH MACGREGOR
Diretora da ONG Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal
Presidente da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais da OAB-RJ, Reynaldo Velloso assinou um Termo de Parceria com a Fórum Animal, no qual estão estabelecidas as responsabilidades nos resgates dos cavalos oriundos da tração animal. Pelo documento assinado, a ONG se propõe a receber todos os animais em seu santuário e a cuidar deles, com acompanhamento veterinário e boa alimentação.

Em nota, a Coordenadoria de Comunicação Social da Prefeitura de Petrópolis informou que aguarda o resultado do plebiscito que será realizado junto ao primeiro turno das eleições, e, ainda explicou que se a maioria simples votar contra o serviço de tração animal, as substituições das charretes não poderão ser feitas de imediato. Isso porque será preciso um projeto de lei da Câmara dos Vereadores após o resultado.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior