“É uma roupa da nobreza, uma fantasia dourada, cor que vai se repetindo em todo o desfile da Beija-flor”, descreve a voz masculina nos ouvidos do psicólogo Helio Orrico. A narração passeia por enredo, alegorias e alguns detalhes do desfile, como o fato de a escola de Nilópolis ter mais alas, porém com menos componentes. Por isso, as alas “passam mais rapidamente, mas mantêm a harmonia, todos cantando alto”, continua a mesma voz. Com fones de ouvido a tiracolo, 15 pessoas com deficiência visual absorvem atentamente as palavras. Um sentido vai estimulando o outro, e, como se uma janela se abrisse, a luz da imaginação acendesse, Orrico sente o que não sentia, vê o que não via.
— É fascinante — afirma, com emoção, o morador de Caxias, de 55 anos. — No mestrado, minha dissertação foi sobre cognição e linguagens. O carnaval tem linguagens que, sem a visão, eu não conseguia compreender. As coisas que ouvi me fizeram ver — diz o hoje doutor.
Nos quatro dias de desfiles no Sambódromo, cerca de 50 pessoas com deficiência visual ouviram as chamadas audiodescrições de quatro atores, atentos a cada passo de todas as escolas, alternando-se sempre de dois em dois em uma cabine diminuta quase dentro da avenida. Os foliões não pagaram ingresso, pois ficaram no Setor 13, em uma enorme frisa para 300 pessoas destinada pela Secretaria municipal da Pessoa com Deficiência a quem possui necessidades especiais.
Quase em frente à linha de chegada, a torcida mais especial da Sapucaí era saudada com alegria pelos foliões que passavam do lado esquerdo da passarela. O carinho vem de todos os lados. Vestindo uma camisa com a pergunta “Posso ajudar?”, a doce Rosi Monteiro, de 20 e poucos anos, corria de um lado para o outro após cada desfile trazendo foliões fantasiados. Após o desfile da Beija-flor, trouxe Osmar, ritmista da escola que chegou com o tamborim e uma latinha de cerveja na mão, ensopado de suor. Ele ficou sorrindo, sem reação, um pouco sem jeito, enquanto três pessoas tocavam sua fantasia.
— Quero trazer um casal de mestre-sala e porta-bandeira, mas está difícil — lamenta Rosi.
Sem enxergar há 13 anos por causa de um glaucoma, Francisco das Chagas Silva Santos, de 65 anos, era um dos presentes na roda, tocando o tamborim e a fantasia.
— Ver é relativo. Estou vendo tudo agora, por isso minha felicidade — diz Francisco.
Há também os momentos de tensão, como em problemas de evolução das escolas. Com a audiodescrição, todos se afligem.
— O carro ainda não conseguiu fazer a curva e deixar a Praça da Apoteose. Agora, a ala está passando ao lado da alegoria — avisa o ator Rodrigo De Bonis, que fez sucesso nos blocos de rua com a fantasia do “John Travolta confuso”.
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Em poucos minutos, o carro alegórico saiu da avenida, e todos comemoram aliviados.
Durante as narrações, os ouvintes fazem grandes descobertas, embora possam parecer pequenas para quem sempre enxergou. Alguns simplesmente não sabiam que havia uma escultura feita por Oscar Niemeyer no fim da passarela do samba, porque ninguém contou. O psicólogo Orrico ouviu, uma vez, que a escultura era a forma da bunda de uma passista.
— É uma versão erótica, mas hoje ouvi uma melhor: que a escultura se assemelha com um pássaro de asas abertas, formando três pontos de apoio no chão — afirma.
Fonte: Globo
Foto:Caio Barretto Briso / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior