Crise e violência desanimam carioca a enfeitar as ruas para a Copa

Época de Copa do Mundo costuma ser sinônimo de bandeirinhas, flâmulas e pinturas coloridas por todo canto da cidade. Ou, pelo menos, era. A um mês do início da competição na Rússia, ainda são poucas as ruas do Rio enfeitadas para a torcida pelo hexacampeonato da seleção brasileira. Nem a tradicional festa da Rua Alzira Brandão, o Alzirão, na Tijuca, está garantida. E quando algum lugar é coberto de verde e amarelo para o Mundial, destaca-se na paisagem.

Na Rua Pereira Nunes, em Vila Isabel, as lembranças da última Copa ainda estão nas paredes. Mas só agora começam a surgir no chão esboços da decoração deste ano. Já na Rua Miranda Vale, em Del Castilho, os preparativos da festa começaram recentemente. O massagista aposentado João Daniel Sarmento, de 77 anos, mora no bairro desde os 8 e já viu climas melhores. Mas não desanima.

— Acho que tem que arrumar, sim. Muita gente, no entanto, está com medo da violência e sem dinheiro. Essa crise geral afetou os ânimos, mas não podemos deixar de festejar — disse ele, resiliente.

Exceções até agora, a Rua do Lavradio, point da boemia e chamariz de turistas, na Lapa, está enfeitada com bandeiras de vários países. A Honório de Barros, no Flamengo, ostenta uma bandeira brasileira toda feita de tirinhas e uma faixa que saúda a seleção. Mas a rua que saiu na frente e conseguiu atrair as atenções foi a Benjamin Constant, na Glória. Ao lado do bar onde acontece o chorinho das quartas-feiras no bairro, uma escadaria foi inteiramente pintada de verde e amarelo. Durante o torneio, é tradição: o lugar reúne cerca de mil pessoas para assistir aos jogos num telão. Agora, faltam só as bandeirinhas e os grafites novos no chão e nas paredes.

— Tudo acabou atrasando por causa da crise mesmo. Tinta é caro, e a mão de obra é difícil, pois a pessoa tem que sacrificar um fim de semana dela para isso — disse Cleiton Barbosa, dono do boteco Pé de Samba.

Para a ornamentação da rua, por enquanto já foram gastos R$ 800, arrecadados por moradores e comerciantes.

— Gente, estamos em crise, mas só por isso a gente não vai fazer nada? Vamos nos mexer! Venham cá ajudar a gente com a festa — conclama a moradora Vilma Peixoto.

EXPECTATIVA NO COMÉRCIO POPULAR

Nas ruas da Alfândega e Buenos Aires, no Centro, as cores da seleção canarinho alertam os consumidores da Saara sobre a data que se aproxima. Até agora, os principais itens vendidos têm sido bandeirinhas, apitos e camisas infantis com referências aos craques brasileiros.

— Quando junho chegar, bem em cima da hora mesmo, é que as vendas vão bombar de vez. Tem sido assim desde a Copa passada — disse o comerciante Josenildo Lima, que trabalha na Saara há 10 anos.

Já no caso do Alzirão, conforme antecipou a coluna de Ancelmo Gois, a festa perdeu o patrocínio de uma cervejaria. Assim, caso não haja outro apoio que banque os cerca de R$ 2 milhões necessários, a celebração que reúne 40 mil pessoas corre o risco de não acontecer.

— Estamos desesperados. Desde 2010 que a cervejaria nos patrocinava. Eles tinham nos garantido o repasse em outubro, depois de seis meses de conversas. Agora, durante a nossa pré-produção, quando procuramos a empresa, ela recuou. Esse valor seria o mesmo de quatro anos atrás, e não houve contraproposta alguma. Disseram que não seria viável. O que mais me chateou é que haverá uma festa no Boulevard Olímpico, patrocinada por eles, e nos deixaram de fora — disse o presidente do evento, Ricardo Ferreira.

Para o presidente do grupo, a saída poder ser a ajuda de outra cervejaria:

— O nosso objetivo é fazer a festa acontecer. Isso marca muito as crianças e a comunidade tijucana.

Porteiro de um dos condomínios da rua, Everson Bento, o Bill, acompanha e participa do agito do Alzirão há 15 anos. Desta vez, ele sente que os ânimos dos moradores, dos comerciantes e dos porteiros não estão dos melhores. Mas afirma que a vizinhança só fala de uma coisa quando se encontra: futebol.

— Sinto que a festa vai acontecer, sim — diz.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior