Criado por tijucano, Clube do Passinho ensina o público a dançar em três praças da região

O tijucano e dançarino Júlio Bottoni, quando adolescente, vivia tentando entrar de penetra nas festinhas fechadas dos vizinhos. Era louco para pôr em prática os passos de charme que aprendera nos famosos bailes do Disco Voador, em Marechal Hermes, e do Vera Cruz, na Abolição. Na época, o gênero tocava nas rádios. O tempo passou, Bottoni continua fã de charme, mas agora é ele quem convida as pessoas a saírem às ruas para dançar. Ano passado, com Marcos da Silva, morador do Catumbi que conhece há mais de 20 anos “dos bailes da vida”, ele criou o Clube do Passinho. O objetivo dos parceiros é levar o gênero a praças, casas de shows e eventos da cidade.

Para manter o movimento, ele dá aulas abertas ao público. Na agenda, já tem três dias reservados: quartas, às 20h, na calçada da Rua Conde de Bonfim em frente ao número 255; no primeiro sábado do mês, a partir das 15h, no evento Black Music Dançante, na Praça Condessa Paulo de Frontin, no Rio Comprido; e, desde o início do mês, às quintas, às 20h, na Praça Edmundo Rêgo, no Grajaú, atendendo ao convite de uma moradora que dançava com eles na Rua Conde de Bonfim.

— Temos como objetivo principal divulgar o charme como cultura popular, buscando ao mesmo tempo renovar a cena. Os passinhos que o pessoal conhece têm mais de 25 anos. Mas eles são, junto com o DJ e o regente, a alma do baile. Ao mesmo tempo, trabalhamos com saúde, socialização, cidadania e ocupação de espaço público, unindo o útil ao agradável — diz Bottoni.

Moradora do Grajaú, a aposentada Cláudia Lucindo foi quem convidou o dançarino para levar o evento até o Grajaú, onde ela mora.

— Eu curti toda essa época, ao vivo e em cores, nos anos 1970/1980. Sempre me identifiquei muito. Quando descobri o evento na Tijuca, pelo Facebook, eu decidi ir. Fui, fiquei apaixonada, e nunca mais deixei. Como moradora do Grajaú, dei a ideia, e eles toparam vir para cá também. Não tem coisa melhor. Se depender de mim, tem Clube do Passinho no mundo inteiro — conta ela.

Segundo Bottoni, o número de participantes não tem ficado abaixo de 20. Na última quinta-feira, noite fria no Grajaú, havia 30 pessoas na aula ao ar livre.

O clube surgiu em maio do ano passado, a partir de uma brincadeira na altura do número 255 da Rua Conde de Bonfim, perto da casa da mãe de Bottoni.

— Eu e Marquinhos improvisamos a iluminação, colocamos um som e começamos a dançar no meio da rua. As pessoas se interessaram e se aproximaram. Quando postamos o evento no Facebook, foi o estopim para ficar famoso. Apesar do tom de improviso, no fundo queríamos criar um movimento legal, mas não imaginávamos que estaria como está hoje — diz ele.

Atualmente, o Clube do Passinho vai além. Virou companhia de dança, com 15 integrantes, tendo sido premiada no primeiro semestre com uma residência artística no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, na Rua José Higino.

— Foi muito proveitoso, pois podíamos ensaiar sem nos preocuparmos com a chuva. Ao mesmo tempo, estar presente num local que é referência em dança carioca nos fez sentir muito especiais — diz Bottoni.

Desde março, a sede da ONG Grupo de Formação de Educadores Populares (Gefep), no Morro do Turano, no Rio Comprido, abriga os ensaios do grupo. Às sextas, às 20h, é realizada uma aula aberta para a comunidade.

O Clube do Passinho, além das apresentações, promove bailes e eventos pela cidade, não apenas na Tijuca e nos bairros vizinhos.

— Queremos expandir nossas atividades para todo o Rio de Janeiro. Estamos engatinhando ainda, mas frequentamos e produzimos alguns bailes em Madureira e no Centro, onde a cena é muito forte. Já nos apresentamos também no Imperator (Méier), no Teatro Miguel Falabella (Cachambi), e dia 29 estaremos nos Sesc Madureira — afirma Bottoni. — Estamos angariando fundos para comprar uma caixa de som movida a bateria, o que nos facilitará ir a todas as praças cariocas, se possível. Na Tijuca e no Grajaú, conseguimos pontos de luz, então ficou mais fácil.

Marquinhos diz que mesmo pessoas que nunca dançaram também são muito bem-vindas.

— O que menos importa é se o iniciante já dançou. Até porque é fácil aprender. A forma mais democrática de as pessoas se conhecerem é por meio da dança. Criam-se laços afetivos que ficam para sempre. Eu e o Júlio somos amigos há mais de 20 anos e tudo começou com a dança — diz Marquinhos, que conheceu sua mulher, Simone Amatuzo, justamente num dos eventos da Rua Conde de Bonfim.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
foto: Pedro Teixeira