Antes mesmo de a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretar uma pandemia de Covid-19 no planeta, as escolas do Rio, estado onde quase duas dezenas de casos já foram confirmados, começaram a tomar providências para evitar se tornarem focos de disseminação da doença — nesta quarta-feira, uma escola da Barra emitiu um comunicado informando que o responsável por um dos alunos havia contraído o novo coronavírus. Além de medidas simples, como distribuição de álcool em gel, intensificação dos protocolos de limpeza de objetos e ambientes e orientações aos alunos sobre como lavar adequadamente as mãos e se proteger do vírus, as instituições têm investido em ações mais sofisticadas. Entre elas, palestras com especialistas para alunos e funcionários, ações já programadas em colégios como Mopi e Marista São José. A rede municipal de ensino decidiu suspender as aulas por uma semana, a partir de amanhã. A Recreio Cristian School, por sua vez, terá apenas aulas on-line até sexta-feira que vem.
A rede Notre Dame, com unidades no Recreio e em Ipanema, criou um comitê de gestão de prevenção à Covid-19, com a participação de médicos especialistas em doenças infectocontagiosas, para criar uma campanha de prevenção veiculada por meio de distribuição de material impresso. Assim como em outras escolas, as ações destinadas aos alunos variam de acordo com a faixa etária. No Marista São José, com unidades na Tijuca e na Barra, os pequenos receberam uma cartilha divertida, em que a Liga Marista dos Cuidados Diários, formada por personagens criados para a ocasião, são usados para ensinar as normas básicas de prevenção. Também foi encenada uma peça com os super-heróis combatendo e vencendo o antagonista Coronavírus. Para os estudantes do ensino fundamental II e do ensino médio, o assunto foi inserido nos conteúdos pedagógicos de diferentes disciplinas.
— O assunto está na mídia, mas precisamos ter o tom adequado. Há o super-herói que diz para lavar as mãos, o que fala do álcool em gel, o que aborda a importância de tossir com a mão na boca… tudo de forma bem lúdica — detalha Maria Fernanda Girardi, coordenadora pedagógica do Marista.
No Mopi, com unidades na Tijuca e no Itanhangá, todos os bebedouros seguem desativados desde o início da crise da água no estado, quando a escola passou a disponibilizar galões de água mineral para os alunos. E a direção adianta que, mesmo quando a questão hídrica for totalmente solucionada, apenas os bebedouros com acesso para enchimento de garrafinhas serão religados. Aqueles com disparo para boca, que podem servir como fonte de contaminação, continuarão fora de uso até que a Covid-19 deixe de ser uma ameaça. No Notre Dame, onde o número de bebedouros em funcionamento foi reduzido, um funcionário fica a postos para evitar que as crianças bebam água, em vez de apenas encherem suas garrafas.
As mudanças de hábito chegaram até os cumprimentos entre colegas. Com humor, o corpo docente do Mopi vem estimulando que os estudantes troquem demonstrações de afeto como beijinhos, abraços e apertos de mão por batidinhas de pé com pé e até bumbum com bumbum.
— Precisamos tomar iniciativas para conter esse contágio sem acabar com essa afetividade. Propusemos a ideia de turma em turma, para que eles criassem formas de cumprimento sem necessidade de contato com o rosto — diz a coordenadora de comunicação do colégio, Bruna Gonçalves.
Mãe de três alunos matriculados no Mopi — duas meninas, de 9 e 14 anos, e um menino de 11 —, a empresária Mari Carmen Cuquejo se diz satisfeita com as providências.
— Acho importante o que estão colocando em prática quanto à higiene da escola e as palestras, além dos esclarecimentos necessários para as crianças, que passam um tempo grande lá dentro.
A Escola Americana, com sedes na Barra e na Gávea, distribuiu uma circular aos pais em que dá esclarecimentos sobre o vírus e fala das providências tomadas em relação a orientação da equipe e dos estudantes e higienização. Na unidade da Barra, o International Day, uma celebração à diversidade cultural aberta ao público que seria realizada ontem, foi adiada por tempo indeterminado. No Miraflores, com unidades na Barra e em Laranjeiras, o tradicional projeto Boas Maneiras, que inclui palestras com pediatras e ações de conscientização sobre higiene corporal e do ambiente e costuma ser realizado em abril, foi antecipado em dois meses, com o Carnaval de Alegria e Mãos Limpas. Nas salas de aula, o uso de ventiladores vêm sendo priorizado, em detrimento dos equipamentos de ar-condicionado. Nos dias mais quentes, quando os refrigeradores se tornam indispensáveis, a porta ou as janelas ficam abertas para garantir a circulação de ar.
De produção de álcool em gel a suspensão das aulas
As escolas públicas vêm seguindo protocolos criados pelos governos municipal e estadual. Na sexta-feira, a Secretaria municipal de Educação decidiu suspender as aulas por uma semana, a partir de amanhã. Até o início da tarde de sexta-feira, a Secretaria estadual de Educação avaliava a hipótese de fazer o mesmo.
A escola bilíngue Recreio Christian School também optou por interromper o funcionamento: esta semana, os alunos estarão dispensados das aulas presenciais e deverão acessar o conteúdo das disciplinas remotamente.
— As aulas serão gravadas; e os exercícios, enviados e corrigidos pela Google Classroom, plataforma pela qual também será possível assistir às aulas, tirar dúvidas e aplicar provas — explica Gabriel Frozi, diretor do colégio. — Esta medida está sendo tomada para não haver prejuízo aos alunos em termos de conteúdo didático e prevenir a transmissão do vírus.
Na rede pública municipal, o abastecimento de álcool em gel fornecido para alunos e funcionários foi reforçado e estão sendo divulgadas as práticas e orientações preventivas contra a propagação de doenças causadas por vírus respiratórios, incluindo a Covid-19, preconizadas no Programa Saúde na Escola Carioca. Na estadual, todos os colégios foram orientados a comprar e instalar dispensers de álcool em gel. A pasta acrescenta que estabeleceu um protocolo de prevenção em conjunto com a Secretaria de Saúde e distribuirá material informativo nas escolas. Suas redes sociais vêm sendo usadas para divulgar as informações.
Se o álcool em gel ganhou protagonismo em escolas públicas e particulares de modo geral, no Colégio Faria Brito, com unidades no Recreio e na Tijuca, a criatividade do corpo docente levou o produto para as aulas de ciências e química realizadas em laboratório. Alunos do 1º ano do fundamental I até o ensino médio estão sendo desafiados a fabricar o álcool 70%, que tem ação antimicrobiana significativa.
O desafio foi proposto pelo professor de química André Barbosa, docente da escola há cerca de dez anos. A ideia veio depois de ele constatar que o produto já estava em falta em diversas farmácias.
— O objetivo é que os alunos consigam se virar. Não é difícil de fazer: basta ter apenas água destilada e álcool 92,8%. E é uma coisa que contribui muito no combate ao vírus. Além disso, os alunos podem ensinar o passo a passo a outras pessoas e distribuir o produto pela escola — diz Barbosa, que, nos próximos dias, planeja ensinar os estudantes a produzirem a versão em gel do álcool 70%.
No Faria Brito e na Escola Parque, que tem filiais na Gávea e na Barra, as ações de prevenção ao coronavírus e demais doenças respiratórias são norteadas pelas diretrizes do Ministério da Saúde. A direção do primeiro frisa que as enfermeiras de plantão nas duas unidades da rede foram orientadas a redobrar a atenção e reportar casos suspeitos de coronavírus.
No Rio, a previsão da Secretaria estadual de Saúde é que os casos de coronavírus cheguem ao ápice dentro de um mês. Dependendo do que acontecer no país, segundo os ministérios da Saúde e da Educação, é possível que as férias escolares sejam antecipadas e prolongadas. Escolas e universidades que apresentarem um grande número de casos a qualquer tempo poderão ter de interromper o ano letivo.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta junior