A morte de um casal que tirava selfies num dos recantos mais bonitos da cidade, a Praia do Secreto, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio, e foi arrastado por uma onda para o mar, acendeu o alerta de prevenção para quem busca lazer em locais paradisíacos, mas arriscados. Outros pontos de grande visitação que oferecem perigo são a Pedra do Arpoador, onde uma pequena piscina natural atrai muita gente e já provocou ferimentos graves em banhistas; e a Cachoeira do Horto, na Floresta da Tijuca.
A Pedra do Arpoador, famosa por acolher multidões para assistir ao pôr do sol, também é um grande risco para visitantes. Uma piscina natural que fica atrás da pedra é motivo de preocupação para o Corpo de Bombeiros. No fim do ano passado, por exemplo, duas pessoas sofreram fraturas por causa das ondas.
– O problema é que as pessoas entram na piscina e, de repente, o mar vira e as ondas crescem. Uma onda jogou duas pessoas contra as pedras. Uma sofreu fratura numa das pernas. A outra, no pescoço. É preciso muita atenção. Também no ano passado, um garoto foi mergulhar de cabeça no mar, bateu com a cabeça numa pedra e sofreu traumatismo de medula. Ficou paraplégico. É preciso conter os ânimos, principalmente dos adolescentes – comentou nesta terça-feira um bombeiro que não quis se identificar.
Os fotógrafos João Ricardo Januzzi e Rodrigo Otávio de Almeida, ambos de 24 anos, aproveitaram o dia para tomar banho na piscininha da Pedra do Arpoador. O acesso é complicado, mas os dois disseram que estão acostumados.
– É preciso ter cuidado. A gente vem de vez em quando, mas não costumamos entrar quando o mar está alto. Já soube de acidentes. O melhor é não arriscar – alertou João Ricardo.
Em junho de 2017, bombeiros resgataram o corpo do jovem Ramon dos Santos Lisboa , de 19 anos. Ramon desapareceu após cair no mar quando estava na Pedra do Arpoador. Na época, o Corpo de Bombeiros informou que o corpo foi localizado às 7h40 na Ilha de Cotunduba, no Leme. Ramon participava de um luau na Praia do Arpoador e caiu da pedra por volta das 4h de um domingo. No dia, o mar estava bastante agitado e, apesar das buscas, os bombeiros não conseguiram localizar o rapaz. Um dia antes, no sábado, ondas de até três metros atingiram o litoral do Rio.
Cachoeira do Horto
A Cachoeira do Horto, na Estrada da Vista Chinesa, costuma atrair uma multidão de pessoas, especialmente no verão, mas demanda cuidado. Na quarta-feira da semana passada, por exemplo, havia o risco de uma das cordas usadas para subir até uma das cachoeiras se soltar da raiz de uma árvore onde foi amarrada. A raiz estava amolecendo.
Lá, é preciso disposição e ajuda dos mais experientes para subir. No entanto, o número de visitantes era tão grande nesta terça-feira que havia até um congestionamento na trilha. O motorista de ônibus Wagner Duarte, de 33 anos, levou namorada, a técnica de enfermagem na Nayara Crisper, de 22 anos, para conhecer o lugar.
– Levei três escorregões, mas nada que me desse medo. Senti a necessidade de mais placas alertando sobre riscos – disse Wagner.
Ele já conhecia a trilha e ajudou Nayara pra subir.
– Acho o grau de dificuldade baixo. Mesmo assim é preciso todo o cuidado. Uma pessoa com autoconfiança elevada que se acha muito capaz um dia pode sofrer um revés. É melhor agir sempre como da primeira vez, com cautela – ensinou o motorista sobre a trilha administrador pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), que mantém monitores no local.
Acidentes no local
Em janeiro de 2016, um homem morreu depois de uma queda ao visitar a segunda cachoeira do Horto, exatamente onde foram Wagner e Nayara. Na ocasião, o Corpo de Bombeiros informou que a vítima morreu no local e chegou a ficar presa nas pedras. A cachoeira foi fechada para visitantes. Aparentemente, o homem estava sozinho. Ele não teve o nome divulgado. O carro da vítima permaneceu estacionado próximo da entrada da cachoeira.
Já em abril de 2010, Thais Garcia Lima, de 20 anos, morreu depois de cair de uma altura de 12 metros quando escalava a Cachoeira dos Primatas, no Horto. De acordo com os bombeiros, a jovem sofreu traumatismo crânio encefálico e parada cardiorrespiratória e morreu na hora.
Na época, os bombeiros disseram que os acidentes são constantes na região. E informaram que Thais havia subido até a última das três cachoeiras que existem por ali. Quando ela caminhava pela trilha em direção à queda d’água, perdeu o equilíbrio. Há cartazes na entrada da cachoeira alertando para o risco de quedas e picada de animais peçonhentos, por exemplo.
O Secreto nesta terça
Nesta terça-feira, menos de dois dias depois do afogamento do casal Jaqueline Amorim de Souza, de 38 anos, e Marcelo Francisco Maciel, de 37, o movimento foi intenso na Praia do Secreto, onde há uma placa do Corpo de Bombeiros com o alerta “Risco de Morte”, por tratar-se de “um local pequeno, que não pode ser avistado da estrada e ter acesso feito por trilha”.
A vendedora Carina Alves, de 26 anos, por exemplo, lembrava do escorregão que levou na pedra voltada para o oceano, onde estava o casal que morreu afogado no domingo.
– Jamais vou esquecer daquele dia. Fiquei com muito receio. É preciso ter cuidado. Mas sempre viemos com segurança – disse Carina, que mora em Nova Iguaçu.
O médico Rodolfo Garcia, de 40 anos, aproveitou o seu primeiro dia de férias com um passeio até a praia. Mas fez recomendações.
– Moro no Recreio e gosto muito daqui. Mas é sempre recomendável vir quando tem gente. Qualquer coisa que aconteça de errado as pessoas se ajudam. Fiquei preocupado quando soube do afogamento do casal. Hoje, eu vi aquela família descer e acompanhei – contou Garcia.
Ele se referia ao instrutor de voo livre Rogério de Souza, de 39 anos, que foi à praia com o filho de 6 anos e o afilhado, de 15.
– Estava vindo para cá quando minha mulher ligou avisando da morte do casal que virou notícia na televisão. Mas o casal estava nas pedras (voltadas para o oceano). Eu não deixo ninguém que está comigo ir até lá. Se eles ficassem apenas na água da piscina natural que se forma não teriam sido tragados pela onda – ponderou.
O Corpo de Bombeiros não divulgou estatísticas de acidentes na Praia do Secreto. Mas, na manhã de 12 de março de 2015, bombeiros removeram o corpo de uma mulher que estava em um monte de areia no local. Nesta terça-feira, a corporação divulgou orientações para quem se aventura em áreas de risco como a Praia do Secreto, cujo acesso é um costão rochoso de aproximadamente 70 metros de altura de difícil acesso: “procurar sempre os locais onde exista um posto de guarda-vidas; respeitar as placas e/ou bandeiras de sinalização; e evitar andar sobre pedras e em costões.
Confira as demais recomendações do Corpo de Bombeiros:
Praias:
– Perguntar sempre ao guarda-vidas qual o local mais apropriado para tomar o banho de mar;
– Não ingerir bebidas alcoólicas;
– Evitar entrar no mar logo após se alimentar;
– Não entrar no mar após longa exposição ao sol, sem antes adaptar seu organismo à temperatura da água.
– Não desviar a atenção um só instante das crianças. Vale identificá-las com nome e telefone para contato;
– Caso saiba e pretenda nadar, a orientação é praticar a atividade paralelamente à areia;
– Evitar locais que são conhecidos como points de surfistas. Desta forma, é possível prevenir acidentes com pranchas;
– Evitar andar sobre pedras e em costões. Não salte de pontos elevados na água. Esses são locais de correnteza e arrebentação de ondas, que oferecem grande risco de afogamento.
Cachoeiras e rios:
– Procurar locais pertencentes a parques ou reservas que oferecem sinalização e serviço de prevenção;
– Frequentar apenas rios balneáveis;
– Não tomar banho em cachoeiras isoladas e desconhecidas sem a supervisão de um grupo especializado de pessoas que possam conduzir aos locais de banho e dar socorro em caso de afogamentos;
– Jamais pular de pedras altas confiando na profundidade da água. Mesmo em cachoeiras conhecidas, o relevo do solo pode mudar por deslocamento de pedras e troncos. Com isso, existe grande risco de lesões e traumas resultantes de saltos;
– Nunca se colocar em local de correnteza forte;
– Não entrar na água ou fique próximo à mesma em dias de chuva intensa. Existe risco de elevação súbita do nível da água, o que pode acabar arrastando quem está se banhando ou próximo à correnteza;
– Ter muito cuidado ao andar pelas pedras, já que pode haver limo em suas superfícies, o que a deixa extremamente escorregadia.
Trilhas/montanhas
As atividades práticas de escalada em rocha, rapel, caminhada em trilhas em matas, florestas e montanhas possuem alto potencial de risco. Praticá-las, em qualquer uma de suas modalidades, implica assumir o risco de ocorrência de lesões permanentes, acidentes graves ou mesmo fatais. Os riscos envolvidos nas atividades, especialmente na escalada em rocha, no montanhismo e nos deslocamentos em ambiente de matas, florestas e montanhas, incluem, mas não se limitam a:
– ataques de animais, incluindo os peçonhentos, tais como: cobras, aranhas, escorpiões, insetos, abelhas e marimbondos, podendo causar alergias e outras reações;
– exposição a condições meteorológicas desfavoráveis e adversas, tais como: frio, calor extremo, tempestades, chuva, vento forte, deslizamentos, trombas d’água, raios, e às consequências diretas dessas condições, por exemplo: insolação, hipertermia, hipotermia, exaustão, desidratação, hipoglicemia, rabdomiólise, dentre outras;
– realização de atividades em terrenos escorregadios, instáveis, expostos e de grande altura;
– quedas de objetos: pedras, galhos, equipamentos, entre outros;
– falha dos equipamentos e das proteções fixas ou móveis por mau uso, má colocação, desgaste, degradação das condições do material, ou quaisquer outras razões;
– comportamentos inadequados, inapropriados, negligentes ou imprudentes, de outras pessoas ou seu próprio, que colocam em risco a segurança e a vida de todos os participantes das atividades;
– perigos subjetivos, tais como: medo, erro de julgamento, falha na avaliação dos riscos, cansaço, entre outros;
– torções, luxações, arranhões, fraturas de ossos e lesões em geral;
– estresse físico e psicológico;
– quedas e impactos;
– morte.
Sendo assim, as atividades dependem de preparo físico, psicológico e também do conhecimento adequado das diversas técnicas; do uso de equipamentos de segurança específicos, da adequada manutenção dos mesmos, e da avaliação dos riscos acima.
Dicas para evitar acidentes em trilhas:
– Antes de iniciar uma trilha, é muito importante você saber aonde ir, como ir e com quem ir, ou seja, planejar a atividade e, de preferência, procure um profissional para guiar o seu passeio;
– Procure conhecer o local através de mapas e informações de amigos e moradores da região;
– Lembre-se que, para fazer caminhada em matas e florestas não é necessário ser um atleta, mas você precisa estar bem de saúde e respeitar suas limitações;
– Faça um desenho do seu roteiro para não se perder no meio da mata.
Obtenha, com antecedência, todas as informações meteorológicas, dentre as quais: a temperatura do dia e previsão de chuva, para não ser surpreendido;
– Deixe avisado na sua casa ou na casa de amigos o local da caminhada, com quem você vai, qual o dia e hora previstos para o retorno, e o número do seu telefone celular;
– Se você for principiante, deve fazer caminhada em trilhas com terrenos menos abruptos, sem muitas subidas e descidas íngremes;
– Não pense que por já ter feito uma determinada trilha você a conhece bem. Pode haver surpresas;
– Durante as trilhas é importante tomar cuidado para não se perder, tenha muita atenção nas bifurcações, principalmente se a mata for fechada;
– Deve-se conhecer como é o percurso, o grau de dificuldade e o tempo de duração. Dessa forma, evite iniciar uma caminhada com percurso prolongado à tarde, pois no interior da floresta escurece mais cedo do que nos cumes das montanhas e você poderá ficar no meio do trajeto na escuridão;
– É recomendável utilizar tênis confortável e caminhar em grupos de no mínimo três a cinco pessoas. Os mais lentos devem ir à frente e os outros tendem a seguir o ritmo, sem ultrapassá-los;
– Nas descidas muito íngremes é melhor descer de frente para o morro, apoiando-se em árvores ou em raízes, olhando cuidadosamente para ver onde pisa. Para evitar quedas nas subidas, preste atenção no pé que serve de apoio;
– Alguns itens a seguir, são importantes que sejam conduzidos por uma pessoa durante uma caminhada em uma trilha. São eles: um recipiente para água (no mínimo 2 litros); uma mochila pequena para levar lanches, frutas e barras de cereal; estojo de primeiros socorros; uma lanterna (com pilha extra); sacos plásticos para depositar o lixo e telefone celular.
Dicas para evitar acidentes em montanhas:
– Respeitar a sinalização. Não entrar em locais onde há avisos de risco de acidente e ou perigo de morte sem utilizar EPI específico de escalada;
– Planejar a rota de escalada antecipadamente;
– Manter a ética do montanhismo, evitando alterar e ou introduzir novos grampos nas vias de escalada, sem autorização, procurando cumprir as normas de manejo da UC;
– Utilizar equipamento específico para montanhismo e devidamente certificado;
– Mantenha uma manutenção constante dos equipamentos específicos de escalada;
– Respeitar o limite da sua particularidade biológica, evitando excessos sem preparo técnico específico e aumentando a margem para acidentes.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior