Quando as temperaturas despencam — e a madrugada desta quinta-feira registrou frio recorde deste ano no Rio, com mínima de 14,9 graus, segundo o Centro de Operações Rio —, elas são um refúgio na cidade. A alta procura pelas barraquinhas de sopas, caldos e comidas quentes variadas, como estrogonofe, serve de termômetro para mostrar como os cariocas estão fazendo para saciar a fome e se aquecer gastando pouco. De quebra, a febre de sopa complementa a renda de quem vende as iguarias nas ruas.
E o mercado está aquecido! Além dos trailers “das antigas” nas ruas da Tijuca e da Lapa, surgem novos chefs com suas panelas gigantes. Desempregado desde 2003, o morador de Santa Teresa Isaías Rodrigues Dutra, de 53 anos, já tinha trabalhado em restaurante. Começou, então, vendendo quentinhas e, em seguida, caiu no caldo de mocotó. Logo, vieram o caldo verde, a sopa de ervilha e o angu à baiana. Hoje, ele comanda o seu trailer Sopas e Caldos da Praia, na esquina das ruas Professor Alfredo Gomes e Muniz Barreto, em Botafogo. Sempre a partir das 15h30.
— A gente tem que atrair pela qualidade — disse Isaías.
São dez opções. Além de sabores tradicionais, tem de frutos do mar, feijão mexicano… São vendidas até 300 porções por dia, que variam de 250 ml (R$ 6), 400 ml (R$ 10) e 500 ml (R$ 12). No inverno, a frequência e a concorrência dobram.
— E é bom ter concorrência, porque tem mais qualidade, e meus clientes são fiéis — diz.
E Botafogo dá mesmo um caldo. Também ex-funcionário de restaurantes, o morador do Catumbi Sandro Lopes, de 39 anos, há dez começou a vender sopas e caldos, com apenas três panelas, levando-as bem cheias, de ônibus, até a Praça Nelson Mandela. Lá, oferecia mocotó, caldo verde e ervilha.
— No primeiro dia, tive lucro de R$ 20 — ri Sandro. — Bateu desânimo, mas não desisti.
Hoje, num estande grande na saída do metrô da Estação Botafogo, o Dois Irmãos Caldos e Sopas tem 15 funcionários. Todo dia, mais de 40 variedades de sopas são preparadas numa cozinha industrial de três andares no Catumbi e chegam ao ponto de venda numa Kombi adaptada. Cliente não falta. Por dia, 19 panelas de 30 litros são vendidas em potinhos de quatro tamanhos: P (R$ 8), M (R$ 11), G (R$ 13) e G (R$ 26).
— Teve um cliente que pediu uma canja GG, de 1 litro e 250 ml, sentou aqui e comeu tudo. Depois, tomou outro GG de canja e ainda comeu torradinha! — orgulha-se Sandro, com espanto.
Horário estendido contra a crise
No Rio Comprido, o que garante o sucesso do Caldo da Nega, na Praça Condessa Paulo de Frontin, é o tempero da cozinheira Bárbara dos Santos. Em junho, ela completará 15 anos no mesmo ponto com opções de R$ 7 a R$ 21, de frango com quiabo e angu, dobradinha, frango com quiabo, mocotó, angu à baiana e outros caldos e sopas. Embora o negócio funcione das 17h30 à meia-noite e meia e só nas sextas e sábados, por conta da crise, ela planeja antecipar a abertura para meio-dia.
— As pessoas estão saindo bem menos à noite. Nos bons tempos, eu vendia 300 porções, mas tem noite em que vendo 50, 80… Hoje o desemprego transformou as calçadas num verdadeiro mercadão, é a forma de as pessoas se defenderem. Acredito que tem mercado pra todo mundo desde que se consiga equilibrar preço e qualidade.
Outra que sentiu o baque da crise foi Valéria Menegon, de 56 anos, que toca o Caldinho da Valéria há 16 anos na Lapa. Hoje no meio dos Arcos, ela foi a primeira a vender caldos no bairro boêmio, quando ainda era o Caldinho da Lapa. O de mocotó é o que mais sai. Mas a frequência vem caindo há três anos.
— O movimento na Lapa diminuiu. Os cariocas estão gastando menos e há menos turistas — diz Valéria, que fica lá sexta e domingo, das 18h até as 5h.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo