Brechós apostam em serviços diferenciados para conquistar clientes

Templos dos apaixonados por um bom garimpo de roupas, bolsas e sapatos, os brechós estão vivendo novos tempos. E que nada têm a ver com aquele antigo estereótipo que remete a ambientes pouco convidativos, poeira e itens de qualidade duvidosa. Agora, as lojas continuam com um pé no passado, uma vez que não deixaram de vender produtos de segunda mão. Só que estão totalmente conectadas com o futuro. Hoje, os brechós oferecem serviços diferenciados como personal stylist, reserva e entrega de produtos. Também batem ponto nas redes sociais, uma vitrine que garante não apenas milhares de seguidores, mas novos clientes.

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É o caso do Belchior, que há quatro anos funciona na Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema. Segundo a sócia e fundadora Helô Magalhães, o nome foi inspirado no primeiro comerciante de produtos de segunda mão do Rio, no século XIX. A partir da corruptela de Belchior, nasceu a palavra brechó, que atravessaria os anos fazendo brilhar os olhos dos amantes da moda. Para Helô, o segredo do sucesso que tirou a sua loja de uma garagem na Gávea e permitiu que a empresária abrisse três espaços — além de Ipanema, tem um no Centro e outro recém-inaugurado em Niterói — é a curadoria das peças.

— Cada uma é bem selecionada. Tudo é muito limpo, passado e cheiroso — diz Helô, que fundou o Belchior junto com os sócios Kim Courbet e Lee Landell.

A premissa é a tradicional de todo brechó: fazer circular aquela roupa em bom estado que está parada no armário. Mas no Belchior não existe venda consignada. Ou a loja paga 25% do valor da peça ou são oferecidos 50% em crédito no próprio estabelecimento.

— O que o nosso público mais procura são roupas contemporâneas. Marcas como Animale, Osklen e Farme, por exemplo, vendem muito. Às vezes chegam peças da coleção que ainda estão na loja. Só o vintage que não emplacou no Rio, o que é uma pena — diz Helô.

No Belchior, de Helô Magalhães, o forte são as peças contemporâneas – Brenno Carvalho / Agência O Globo
A empresária conta que entrou nas redes sociais assim que abriu o Belchior. Com mais de 11 mil seguidores no Instagram e mais de cinco mil no Facebook, ela diz que não tem um projeto de marketing estabelecido e faz as postagens seguindo a intuição.

— Vem dando certo. De um ano e meio para cá, o Instagram surpreendeu. Na verdade, para nós, as redes sociais são ferramentas para levar o cliente até a loja. Vender online não é tão bom, pois como nossos preços são muito em conta, a peça pode ser vendida enquanto ainda estamos fotografando e botando no ar — brinca.

Já no Anexo Vintage, no Shopping da Gávea, o forte são os produtos de grife. Segundo as sócias Lila Studart e Carla Pádua, a própria clientela foi encaminhando os pedidos para o segmento de luxo, com especial predileção pelas bolsas Prada, Fendi, Marc Jacobs, Louis Vuitton… Atualmente, é possível encontrar na loja exemplares que vão de R$ 600 a R$ 23 mil.

— No início até tentamos fazer um mix com peças contemporâneas, mas não funcionou — lembra Carla.

No local, os produtos são deixados em consignação e vendidos por um terço do preço que valem na loja de origem. O ingresso no mundo digital demorou. Foi graças ao “puxão de orelha” de uma cliente figurinista.

— Ela falou que não podíamos ficar de fora. Fomos “retardadas digitais” mesmo — brinca Lila, dizendo que os resultados foram surpreendentes.

Três anos se passaram e o brechó já tem mais de 12 mil seguidores curtindo, comentando e compartilhando os posts. Habitué tanto da loja física quanto da página do Anexo Vintage no Instagram, a advogada Isabela Celano é adepta do consumo consciente.

— Sou a favor de fazer boas escolhas. Na hora de comprar, levo peças atemporais, originais e de boa qualidade para terem vida longa no guarda-roupa. E por um preço mais acessível do que se comprássemos na loja original. Uma vez achei um tailleur Versace que nunca foi usado. Imagina quanto pagaria por um novo — afirma ela, contando que, depois que compra, usa, cuida e bota para vender novamente.

Assim como muitos clientes, Isabela também faz das redes sociais uma aliada para ficar por dentro das novidades mesmo durante a correria do dia a dia.

— Às vezes estou almoçando rapidinho e vejo uma bolsa ou outro produto que gosto. Na mesma hora ligo, peço para reservar e no fim do dia venho buscar. Ou faço um print e mando para as amigas — conta ela.

Inaugurado em novembro passado em Ipanema, o Brechó Chic de Grifes ainda não entrou nas redes sociais. Segundo Anna Moura, sócia da loja junto com Márcia Marinho, é só uma questão de tempo. Está nos planos da dupla fazer um site e começar a vender on-line. Enquanto isso, elas apostam todas as fichas na loja física, criando um “brechó sem cara de brechó”, como diz Anna, oferecendo mix de produtos variados.

— Parece, na verdade, uma butique chique. O cheirinho da loja é maravilhoso, não é aquele odor de mofo que se sentia nos brechós antigos, com tudo entulhado. Daquele jeito, as pessoas não conseguiam ver as peças direito. Já tenho muita coisa, mas não coloco na loja, exatamente para não ficar poluído visualmente — explica Anna.

Um dos diferenciais do local, segundo a proprietária, é buscar as roupas dos clientes em casa para uma avaliação.

— Recebemos muita coisa ainda com etiqueta. Mas olhamos peça por peça para ver se não está manchada, furada ou mofada, e se está lavada e cheirosa. Catalogamos tudo em contrato onde é colocado o valor da venda. A cliente sai da loja com um documento escrito com tudo o que deixou e sabendo qual será o valor referente aos 30% que vai receber após a venda da mercadoria — explica Anna, contando que há planos de abertura de novas lojas, em esquema de franquia, na Zona Sul.

Roupas com história e horário VIP são diferenciais

Uma colecionadora de roupa boa. Assim Juliana Weksler, do brechó Era Dela, se define. A publicitária fez do cantinho escondido numa vila do Jardim Botânico uma espécie de santuário de peças que são verdadeiras joias da moda. Sonhos de consumo com preços acessíveis, como ela costuma dizer. Ali é possível encontrar marcas como Gilda Midani, Chanel, Issey Miyake e até a extinta Maria Bonita.

— O perfil de mulher que vem ao brechó é o da consumidora de moda, poderosa, independente, antenada e estilosa — explica Juliana, que optou por oferecer serviços com horário fechado para suas clientes. — O trabalho personalizado é o meu forte. Apresento minhas sugestões e, juntas, vamos escolhendo as peças que mais têm a ver com elas.

Juliana Weksler (à direita) aposta no atendimento personalizado aos clientes – Brenno Carvalho / Agência O Globo
Juliana diz que o brechó investe na alfaiataria, na customização e na valorização dos tecidos e das costureiras.

— As pessoas têm o hábito errado de consumir roupa barata, que se perde muito fácil. Por que não experimentar uma peça que é um pouco mais cara, mas feita com cuidado e dedicação para durar 30 anos, por exemplo? — questiona a publicitária.

Sobre a página no Instagram, com cerca de 2.600 seguidores, ela diz que foi uma surpresa a repercussão.

— Resisti um pouco no início, pois o meu forte é o atendimento personalizado. Comecei bem desacreditada, mas me rendi. Hoje já faço vendas para outros estados — conta Juliana.

Unidas pela moda, as amigas Tina Vieira e Mônica Bernardes resolveram investir em um brechó, aproveitando o momento de repaginada pelo qual estão passando. Mas encontraram uma maneira diferente de apresentar as roupas escolhidas para a loja, batizada de Deixe-me Ir. Cada roupa traz um pouquinho da história de sua antiga dona.

— Fazemos entrevistas curtas com a cliente e publicamos na rede social colagens de alguns momentos dela. Nessa trajetória percebemos que, muitas vezes, o que faz com que nos apeguemos a uma roupa é justamente o fator emocional que ela carrega — diz Tina Vieira.

Para a sócia Mônica Bernardes, a ideia é estimular a prática do desapego e permitir que as peças e seus novos donos vivam novas e únicas histórias. Tem o vestido de paetês que foi presente da amiga e fez a sua antiga dona brilhar numa noite especial. Ou a saia usada naquele encontro especial com um amigo de adolescência. São muitas as histórias vividas e penduradas em forma de roupa na colorida arara que está temporariamente na sala do apartamento de Mônica.

— Ter uma loja física está no nosso horizonte sim. Queremos fazer as pessoas entenderem o valor de uma roupa de segunda mão. Sendo de qualidade, elas merecem ter vida útil mais longa. Faz bem para o bolso e para o planeta — diz Tina.

Ofertas para os pequenos clientes

Quem acha que brechó é só coisa de gente grande se engana. Os pequenos também têm vez nesses espaços que se especializaram em roupas, acessórios, brinquedos e outros produtos para a garotada. No Brechó Dona Joaninha, que funciona há 11 anos em Copacabana e tem quase três mil seguidores no Instagram, há itens que vão de aquecedor de mamadeiras a aspirador nasal, passando por carrinhos de criança. Assim como no Maria Chiquinha Brechó Infantil, em Botafogo, que oferece até uma lista de chá de bebê para orientar as futuras mães.

Ainda sem uma loja física, o Mamãe Cresci é a mascote neste segmento. Lançado em agosto do ano passado, investiu no site e nas redes sociais, oferecendo até a possibilidade de o cliente criar a sua lojinha virtual e colocar à venda seus produtos.

— Resolvemos entrar no mercado infantil e logo percebemos que as peças se perdem rápido. Primeiro, porque as crianças ganham muitas coisas que sequer usam, principalmente os recém-nascidos. Depois, porque crescem rápido. Com isso, não dá tempo de os produtos ficarem velhos — conta o gerente de marketing João Volpi, que criou a página com mais três amigos de infância que viraram sócios.

No Mamãe Cresci, o foco total é na internet. O principal diferencial do projeto criado pelos empresários é a loja virtual que permite aos usuários terem o seu próprio brechó on-line, vendendo roupas em bom estado e diversos produtos infantis.

— A ideia é todo mundo que participa economizar. Quem está vendendo recupera. E quem está comprando economiza. Tem gente que compra e volta a vender a mesma peça. A premissa é essa — afirma Volpi.

Segundo ele, basta entrar no site e se cadastrar.

— A página fica com apenas 10% de comissão em cima da venda — conta.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior