Bens históricos tombados na Grande Tijuca estão esquecidos

No Alto da Boa Vista, em Vila Isabel, no Maracanã e no Rio Comprido, bens tombados de relevância histórica estão esquecidos. Abandonados pelo poder público, aparelhos que remetem a caixas d’água, bebedouros, aquedutos e calçamentos típicos de meados do século XIX estão escondidos da população.

Boa parte destes bens pertence a complexos erguidos a partir de meados do século XIX, quando a Grande Tijuca começou a ser habitada por uma população com maior poder aquisitivo, que fugia da agitada, calorenta e insalubre área central da cidade. O bucólico e verdejante Maciço da Tijuca atraiu proprietários de fazendas de café, devido ao clima ameno e ao terreno íngreme propícios para o plantio. E sobre ele foram construídos aparelhos de distribuição de água para o restante da cidade, graças aos diversos cursos hídricos da região.

Primeiro caminho aberto no Alto da Boa Vista, no começo do século XIX, para dar acesso aos cafezais na parte alta da montanha, a Estrada Velha da Tijuca tem pelo menos três bens visivelmente abandonados: um bebedouro para animais, de 1858; o complexo da Caixa D’Água Velha da Tijuca, de 1850; e um pedaço da Estrada Velha em desuso, com calçamento em pé de moleque e uma ponte de cantaria.

No local, no 466 da estrada, animais que traziam pelas ladeiras as pesadas cargas matavam a sede no bebedouro, hoje desativado, pichado e sem qualquer placa de identificação. Tombada pelo Iphan em 1938, a construção exibe apenas a descrição “O.P. (Obra Pública) — 1858”. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) disse que faria nova pintura esta semana, por meio da Seconserva. Quanto à placa informativa, disse que encaminharia a demanda ao gabinete.

Morador da Usina, o estudante Leonardo Albuquerque costuma correr no local e desconhecia a história.

— Se houvesse uma placa seria mais fácil. Nunca tinha ouvido nada a respeito — diz.

Mais à frente, no 1.170, um terreno de cerca de 17 mil metros quadrados abriga o complexo da Caixa Velha da Tijuca, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 1998. Em meio a dezenas de casas de antigos funcionários da Cedae e da época da construção da caixa, em 1850, um caminho pavimentado com calçamento de pé de moleque e palmeiras imperais aberto na época da inauguração está coberto pelo mato. A caixa d’água, ainda em funcionamento, integra a rede de distribuição de água para parte do Alto da Boa Vista, mas está malconservada, suja e sem identificação. O açude, de 1869, está em desuso e também cercado pelo mato. A Cedae informou que vai instalar no local, em janeiro, um novo viveiro para a produção de mudas de espécies da Mata Atlântica para replantio de áreas degradadas. Quanto à conservação, assegurou que enviará técnicos ao local para averiguar.

Em um trecho de cerca de cem metros da Estrada Velha que entrou em desuso com a construção da Avenida Edson Passos, em 1940, e que conta com uma ponte de cantaria tombada pelo município em 1986, o mato alto, a invasão e o lixo são visíveis. Morador do Alto da Boa Vista, o aposentado Cláudio Pereira afirma que desde 2010 a Comlurb não realiza podas por ali. No entanto, a companhia informou que na semana passada foi iniciada a roçagem do local.

— É uma pena. O calçamento de pé de moleque, que remete àquela época, e uma ponte de cantaria linda marcam a estrutura. É como uma cápsula do tempo, que mostra com perfeição como era uma estrada rural do período colonial e do Império. Falo isso com conhecimento de causa. Moro na região desde a minha infância e nas décadas de 1950 e 1960 inúmeras vezes percorri esses trechos da Estrada Velha da Tijuca. O fato é que a rua foi tomada pelo mato, impedindo a passagem de pedestres — conta ele, que critica os órgãos públicos. — Essa região da Estrada Velha, junto com a caixa d’água e o bebedouro, daria um corredor histórico interessante. Mas infelizmente nossos governantes parecem não ligar para a história da cidade. Em um país sério, eles seriam conservados.

O Aqueduto do Rio Comprido é outro aparelho da primeira metade do século XIX que está abandonado. Construído para a ampliação do sistema de distribuição de água nas áreas de expansão da cidade, tem oito arcos de três metros cada um. Só foi descoberto pela prefeitura em 2008, através de trabalhos de mapeamento histórico da infraestrutura da cidade, realizados pela Secretaria Extraordinária do Patrimônio Artístico, Histórico e Cultural. Foi tombado em dezembro de 2009 e se situa nos fundos de um terreno da Light na Rua Santa Alexandrina. Visivelmente abandonado, não é alvo, como reconheceu a empresa, de qualquer projeto de restauração. João Baptista, professor do Instituto de Geografia da Uerj e responsável pelo projeto Roteiros Geográficos do Rio, que faz passeios guiados por pontos históricos da cidade, criticou a falta de interesse pela conservação desses bens.

— Dos pontos de distribuição de água de antigamente, os únicos que se salvam, na cidade, são os Arcos da Lapa e o Chafariz do Mestre Valentim, na Praça Quinze. O restante está abandonado. Além dos já citados, outros grandes exemplos são o Chafariz do Lagarto e o Chafariz Paulo Fernandes, no Centro. Não basta tombar, é necessário conservar. Só há zelo com os mais conhecidos do público — critica Baptista.

Palacete Leopoldina e Antigo Zoológico: mais exemplos de descaso

Construídos na segunda metade do século XIX, a mando da corte imperial, o Palacete Leopoldina (mais conhecido como antigo Museu do Índio), de 1865, no Maracanã, e o antigo Jardim Zoológico (atualmente Parque Recanto do Trovador), de 1888, em Vila Isabel, também estão abandonados.

Erguido no terreno anexo ao local que mais tarde abrigaria o estádio do Maracanã, o palacete foi construído a mando de Dom Pedro II para presentear a sua filha, a princesa Leopoldina de Bragança, e seu genro, o Duque de Saxe, após o casamento deles. Em 1953, a construção passou a abrigar o Museu do Índio, criado pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Em 1977, o museu foi transferido para Botafogo. Por muito tempo abandonado, foi invadido em 2004 por índios que formaram a Aldeia Maracanã. Em 2013, os índios foram expulsos, mas, diante de pressão popular, o prédio foi protegido pelo estado, que prometeu construir ali o Centro de Referência da Cultura Viva dos Povos Indígenas. No entanto, três anos após a promessa, a governo do estado informou que, em função do cenário econômico no Rio, não há ações previstas para o local. Informou também que está estudando a possibilidade de captar recursos para projetos através da iniciativa privada.

Criado em 1888 pelo empresário e fundador do bairro de Vila Isabel, João Batista de Vianna Drummond, o Barão de Drummond, o antigo Jardim Zoológico deixou de ser zoo e passou a se chamar Recanto do Trovador em 1949. O espaço, onde começaram os primeiros sorteios do Jogo do Bicho foi tombado pelo patrimônio público em 1970. Em 2011, a prefeitura anunciou um pacote de obras para revitalizar o local, incluindo a reconstituição de lanças e gradis, originais do Campo de Santana, quebrados, e a recuperação do Bebedouro do Elefante, malconservado. Recuperados na época, hoje em dia eles contam novamente com problemas. Como o cenário é tombado, uma obra da Nave do Conhecimento dentro do parque, prometida em 2011, foi embargada pelo Inepac após ter sido iniciada.

— Será que os políticos não sabiam que esse parque era tombado e não poderiam construir algo assim? Por que eles não consultaram os órgãos reguladores antes? Agora estamos sem o campo que eles destruíram para colocar o empreendimento e sem a Nave no nosso bairro — critica Carlos Eduardo Santos, morador do Morro dos Macacos. — Quero falar também sobre a falta de conservação do parque, não somente com relação ao paisagismo. O lago está sujo; as grades, quebradas; e os brinquedos dos parquinhos e os aparelhos esportivos estão deteriorados. Sem contar com a falta de segurança. Não vejo guardas municipais e qualquer um pode entrar a qualquer hora aqui, já que os gradis estão quebrados. É muito descaso com um patrimônio histórico construído pelo Barão de Drummond.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Fernando Lemos / fotos de fernando lemos