Artistas independentes encontram na Tijuca um palco para seus trabalhos autorais

Compor as próprias músicas. Batalhar para gravar um disco e por um espaço para lançá-lo. Fazer o trabalho de divulgação para tentar encher a plateia. É dura a vida da bailarina. Aliás, do artista independente. Na Tijuca, quem está em busca de reconhecimento encontra um aliado de peso, o Centro da Música Carioca Artur da Távola. No equipamento cultural da prefeitura, que funciona num antigo palacete na Rua Conde de Bonfim, um auditório com capacidade para 161 pessoas é palco para jovens talentos da cena do Rio.

— É muito importante dar oportunidade para artistas que estão começando, não só para quem já tem uma carreira consolidada. É em prol da música, mesmo, de oferecer diversidade para o público. Tem muita gente boa que não está na mídia. Uma galera jovem, com oxigênio novo, com uma proposta autoral e contemporânea, que me contagia muito — afirma Rubens Kurin, diretor artístico da casa.

Foi lá que a banda Calvano e os Tatuís lançou, no último fim de semana, o seu EP mais recente, intitulado “Tijuca”. O disco tem quatro músicas autorais, que vão do samba ao baião, produzidas por Clower Curtis. Todas já estão disponíveis nas plataformas digitais.

— Foi emocionante ver na plateia pessoas que nos acompanham desde o início, que sabem os perrengues que bandas independentes enfrentam, o quão difícil é levantar um trabalho, que é uma conquista. Fiquei bem emocionado com o show — conta Gabriel Calvano, de 25 anos, vocalista e violonista do grupo.

Tijucano, ele é o autor da faixa-título do disco, que compôs em 2017, logo que chegou de um intercâmbio em Toronto, no Canadá, onde se apresentou em bares e percebeu que queria viver de música. Na época, ele estava lendo o livro “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez, e conta que ficou “com aquela coisa pura de realismo fantástico na cabeça”.

— Fui comprar pão na padaria, vi um cara com a camisa do Vasco e um papagaio no ombro e lembrei de Macondo (cidade fictícia onde se passa a obra). Fui percebendo pequenos detalhes do cotidiano da Tijuca, onde nasci e fui criado e fiz a maioria dos meus amigos. Cada ponto do bairro me lembra uma história que vivi — relata Calvano, que tem mais de 60 composições.

A banda, formada ainda por Matheus Schmidt (baixo), Tiago Nascimento (trompete) e Estevão Siffert (percussão), está na estrada desde 2017. Começou fazendo shows em bares como Urbanito, na Praça da Bandeira, e Carioca da Gema, na Lapa. O grupo lançou seu primeiro EP autoral em 2019 e agora se prepara para fazer mais uma apresentação do novo trabalho. Vai ser no dia 9 de abril, às 20h, no Teatro Ziembinsky, também na Tijuca.

— A música é uma eterna subida que tem várias etapas. Essa é uma vista que alcançamos. Contemplamos, botamos a mochila nas costas e vamos continuar desbravando o caminho — resume Gabriel.

Jornalista de formação e cantora e compositora por essência, Guidi Vieira, de 36 anos, começou a carreira aos 16, no underground carioca, com um grupo de rock feminino chamado Yuppie Ratt. Na sequência, virou vocalista, guitarrista e compositora da banda Pic-Nic, extinta em 2007. Resolveu, então, se apresentar em bares cantando MPB, inspirada pelo repertório do coral da faculdade que frequentava na época de estudante. Até voltar a compor, em 2015.

— O que me deu força para mostrar as minhas músicas foi o coletivo Mulheres Criando. Através dele, tive oportunidade de me apresentar no Sonora — Festival Internacional de Compositoras em 2017 e 2018 — conta ela.

Guidi também lança seu trabalho autoral, “Outra língua”, no Centro da Música Carioca Artur da Távola. O disco, produzido por Pedro Costa, tem dez faixas que materializam um encontro entre o rock e a MPB, voltando às raízes da carreira da artista. O show será na próxima quinta-feira, às 20h, com entrada a R$ 30 (valor da inteira).

— Estou muito feliz por lançar meu trabalho lá, é o lugar onde eu mais gosto de tocar no Rio. Além de ter uma excelente infraestrutura, é um dos poucos espaços democráticos da cidade, aberto de fato a novos artistas — destaca Guidi.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Pedro_Teixeira / Agência O Globo