Há pelo menos três anos, desde que as obras para ampliação do Instituto Nacional do Câncer (Inca) foram paralisadas, uma imensa área de 14.585m² no Centro, onde o novo complexo seria erguido, está abandonada. O terreno que ocupa quase um quarteirão inteiro ao lado do prédio-sede, na Praça da Cruz Vermelha, se transformou num grande matagal, com vegetações que já superam em altura os tapumes que cercam o lugar. A situação preocupa os vizinhos, que temem a invasão do local.
O espaço abrigou durante anos o Hospital Central do Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro (Iaserj), que foi demolido no fim de 2012, após muitos protestos e polêmicas, para ceder espaço ao novo complexo. Os trabalhos chegaram a ser iniciados, com o começo da execução das fundações, mas depois de a empresa responsável, a Schahin Engenharia, ter sido envolvida no escândalo da Operação Lava-Jato as obras foram interrompidas e nada mais foi feito. No começo deste ano, a construtora teve a falência decretada.
— Foi a pior coisa do mundo (parar a obra). Tiraram o hospital e não fizeram nada. Podiam ter reformado o Iaserj. Seria melhor para a população. À noite moradores de rua invadem o terreno. Eles fazem fogueira para derreter os fios que pegam na rua, para retirar o cobre. Já teve um princípio de incêndio aí dentro e foi preciso até chamar o Corpo de Bombeiros. Quando chove, os problemas são as poças de água que se formam. Todo mundo aqui já pegou dengue, inclusive eu. Daqui a pouco vão invadir e construir barracos — teme Maria Sameira Pimenta, de 70 anos, sócia de uma tinturaria vizinha ao terreno, na Rua Washington Luiz.
Em 2016, o EXTRA já mostrava a preocupação dos vizinhos do terreno com os criadouros de mosquito. Na época o Ministério da Saúde havia declarado guerra ao Aedes aegypti, o transmissor de dengue, zika e chicungunha, por meio de uma grande campanha de alerta à população. Mas, pelo jeito, não fazia o dever de casa.
Zelador de um prédio na Avenida Henrique Valadares, Jorge Luiz de Araújo, de 40 anos, testemunhou o incêndio citado por Maria Sameira, que segundo ele ocorreu no final de junho. O funcionário contou que as chamas que começaram por volta das 10h só foram controladas às 14h. Moradora de um apartamento no terceiro andar do mesmo edifício, cujas janelas do quarto e da sala dão para o terreno, a aposentada Ana de Albuquerque Cardoso, de 81 anos, diz sofrer também com a poeira, sempre que venta forte.
— Não está bom para ninguém esse espaço abandonado. Tiraram o hospital dos funcionários públicos e não fizeram nada. Não sou servidora, mas já fui muito bem atendida lá, quando precisei. Agora não tem mais o hospital e é só poeira, lixo e mato — reclama.
O projeto original de ampliação do Inca previa no local a construção de um centro de desenvolvimento científico para o controle do câncer, além de áreas destinadas ao atendimento de pacientes. As obras estavam orçadas em cerca de R$ 500 milhões, numa área cedida à União pelo governo do estado.
Em 2015, o instituto havia informado a O GLOBO, que um edital de licitação para a contratação da empresa que daria continuidade às obras estava em fase de elaboração e que no mesmo ano havia assinado um contrato emergencial, com prazo de 90 dias, para um trabalho de escoramento do solo, para evitar desmoronamento. Sá o escoramento saiu do terreno das intenções.
— A gente vê isso como reflexo do descaso dos governantes com o erário público. Não é só esse terreno. Tem prédios inteiros abandonados, como o que serviu ao IML (Instituto Médico Legal, que ficava na Rua Mem de Sá). Isso mostra como os nossos governantes estão despreocupados com o patrimônio público. A empresa que realizava as obras de ampliação do Inca passou a ser investigada pela Lava-Jato e parou a obra. Depois mudou de governo e nada mais foi feito — critica Nelson Virla, diretor da Associação dos Funcionários do Instituto Nacional do Câncer (Afinca).
Desde a demolição do Hospital Central do Iaserj, que tinha cerca de 400 leitos, os atendimentos ambulatoriais foram transferidos para a unidade do Maracanã.
Veja o que disse o Inca
“A obra estava a cargo da Schahin Engenharia até abril de 2015, quando esta informou ao Inca sobre a impossibilidade de continuar a prestar serviços para o Instituto, fato informado aos órgãos de controle e autoridades competentes. Todas as providências foram tomadas para aplicação das penalidades previstas. Quanto à multa (empresa Schahin), a Consultoria Jurídica da União (CJU) já acenou positivamente para que o Inca possa seguir em frente com a aplicação da penalidade.
Diante da interrupção da obra, o Instituto buscou soluções para evitar danos maiores à Instituição e a terceiros. Foram contratados serviços para a finalização da execução da viga de coroamento e a regularização do terreno, buscando preservar o investimento já realizado, a segurança do patrimônio institucional e do entorno. É importante destacar que há segurança contratada pelo Inca no local.
A continuidade da obra depende da atualização do projeto, pois houve a necessidade de se efetuarem os levantamentos de atualizações tecnológicas e de normas necessárias, em função do tempo decorrido entre a finalização dos projetos (2010) e a sua efetiva utilização para a futura contratação da construção através de nova licitação da obra. O orçamento está sendo redimensionado.
Estamos com uma solicitação de serviços a ser contratada por meio de licitação para realizar uma obra de construção de muro de concreto no entorno do terreno, bem como a manutenção do mesmo. Esta solicitação de serviços visa garantir a segurança da comunidade que mora, trabalha e transita pelo local, além de assegurar o patrimônio publico até que seja autorizada a construção do novo Campus pelo Governo Federal.O novo campus será o mais moderno centro de desenvolvimento científico e de inovação para o controle do câncer do país. Completamente integrado ao atual prédio-sede do INCA, localizado na Praça da Cruz Vermelha, ele vai concentrar as áreas de pesquisa, assistência, educação, prevenção, vigilância e detecção precoce e integrar as unidades do Instituto, facilitando aspectos de logística e investimentos tecnológicos.”
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior