Análise: incerteza é pior do que corte de verba no carnaval

Faz parte da “magia do carnaval” a crença de que 5 mil pessoas se juntam a fantasias e alegorias na Avenida Presidente Vargas, sem nunca terem se visto, e, ao dobrarem na Rua Marquês de Sapucaí, como que por feitiço, produzem o maior espetáculo da Terra. Acredite: não tem nada de mágica nisso. O segredo do desfile das escolas de samba reside justamente no fato de elas trabalharem o ano inteiro para colocar o desfile da rua, quase à margem da sociedade, que ainda insiste em acreditar que “carnaval é só em janeiro e fevereiro”.

A preparação dos desfiles da Sapucaí começa em abril do ano anterior, e essa é a maior razão para que a decisão do Mininstério da Cultura e da Caixa Econômica de não liberarem os R$ 8 milhões prometidos às agremiações seja recebida com desespero na Cidade do Samba. Um projeto de carnaval é concebido meses antes, quando são acertados os salários da equipe e o carnavalesco desenha carros e fantasias, estimando o quanto vai gastar para confeccionar aquele mundo de sonhos. Se a escola tiver R$ 6 milhões, o projeto será um; se tiver R$ 3 milhões, será outro. Dá pra fazer carnaval com menos dinheiro, desde que se saiba desde o início qual será o orçamento. A incerteza é que desmonta qualquer planejamento.

‘O que está acontecendo agora com as escolas de samba é uma equação perversa: compras de emergência com menos verba’

– LEONARDO BRUNO
Jornalista
As compras com os fornecedores de materiais são outro ponto sensível nessa questão. Quando se compra com antecedência, pode-se negociar um preço melhor ou mesmo explorar novos mercados, que ofereçam mais descontos. Uma compra de R$ 100 mil feita em julho pode pular para R$ 200 mil em dezembro, num exemplo rasteiro da lei da oferta e da procura. O poder público sabe muito bem o que é fazer “compras de emergência” – não à toa, usa o mecanismo da dispensa de licitação, o que invariavelmente significa custo maior para os cofres do Estado. O que está acontecendo agora com as escolas de samba é uma equação perversa: compras de emergência com menos verba. A conta não fecha.

Insensível aos problemas do maior evento da cidade, a Prefeitura ao menos acertou o timing do anúncio do corte de metade da subvenção do Grupo Especial: em junho, em tempo hábil para que as escolas se preparassem para o novo cenário. Mas meteu os pés pelas mãos quando prometeu um possível incremento da verba vindo da iniciativa privada, gerando novas incertezas (os R$ 6 milhões que viriam do Uber ainda não estão confirmados). Pior é a situação da Série A, que a 59 dias do desfile (pasmem!) ainda não tem o contrato assinado pela Riotur. E as agremiações naufragam no pântano da imprevisibilidade.

A esta altura do campeonato, com o carnaval 2018 já totalmente comprometido, vale um alerta: que as escolas e a Liesa comecem a preparar seus projetos de Lei Rouanet e afins para os desfiles do ano seguinte. Sim, amigos, o carnaval 2019 já começou.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior