Alas de danças ganham destaque no carnaval de rua carioca

Domingo de sol a pino no Aterro. Minutos depois das 16h, 80 meninas e meninos desenham uma roda de mãos dadas. Vestem blusas brancas ou azuis e saias coloridas de chita. É dia de saudar Iemanjá. Em sentido anti-horário, cada um diz uma palavra em voz alta: “amor”, “energia”, “respeito”, “sororidade”. Quando todos se pronunciam, chacoalham as duas mãos ao alto e pedem axé. Os pelinhos dos braços dão sinal de arrepio. À frente do círculo está o baque de maracatu — grupo de percussão formado por outros 80 integrantes. O mestre Alexandre Garnizé assopra um apito indicando o começo do ensaio do bloco Tambores de Olokun. Puxa um canto em iorubá, chamado de loa, que é reproduzido, em coro, por todos que ali estão. No compasso em que alfaias e atabaques rufam, a roda gira. E se transforma numa hipnotizante dança marcada por movimentos de braços que se entrecruzam no ar e de passos firmes no chão.

— No primeiro ano, havia nove meninas dançando. No segundo, foram 20. No terceiro, 40. Foi muito rápido, cresceu absurdamente — percebe a professora da oficina de dança do Tambores de Olokun, Juliana Sotero, de 24 anos, referindo-se a 2013, primeira vez em que o bloco saiu às ruas com um “corpo de baile”.

ALAS DE DANÇA GANHAM DESTAQUE NO CARNAVAL DE RUA CARIOCA

A roda se desmancha e as catitas (“Apelido carinhoso para as meninas que dançam no bloco”, ela explica) formam oito filas de dez integrantes. Com o corpo virado para frente, esticam os dois braços na altura dos ombros. Viram para a esquerda com os braços na mesma posição e encostam as pontas dos dedos nas mãos da pessoa que está ao lado. O movimento é um macete para calcularem o espaço que precisam para rodopiar sem esbarrar na vizinha.

— Uma cena simples que para mim demonstra uma conexão muito grande é quando as meninas juntam as mãos para medir o espaço entre si — observa Ana Carolina Muratori, de 25, que tira fotos dos ensaios do bloco e publica na página “Retratista”, no Facebook.

Foi na cara e na coragem que Juliana se apresentou para o mestre dizendo que queria montar uma ala de dança. Sucinta, a resposta foi: “Faz aí”. Em 2014, então, criou a oficina que hoje tem três horários de ensaios por semana. Fora os encontros abertos ao público aos domingos.

— Imagina se não tivesse oficina? A gente precisa criar uma linguagem em comum. Existem o ensaio da percussão e o ensaio da dança — separa a professora.

Rodopiar no carnaval requer um bocado de empenho. As aulas começam em abril numa sala na Lapa e a condição para desfilar é marcar presença. O maracatu é a alma do bloco, mas referências de outros ritmos são pinceladas para incrementar.

— A inspiração principal é o maracatu de baque virado do Recife. Mas dentro da linguagem corporal do Olokun, a gente trabalha jongo, coco e boi. Convidamos professores que têm história dentro da cultura popular da dança para comandar alguns ensaios — conta Juliana.

Fato é que a dança está na rua e o carnaval também. E, hoje, é um movimento natural dos blocos fazer com que essa relação seja mais que uma amizade colorida.

— Em termos de dança, ainda não vejo um ganho estético ou de linguagem, mas acho maravilhoso porque o carnaval solta as pessoas na rua com alegria — opina a coreógrafa Deborah Colker.

Comissão de frente do Amigos da Onça, as veneradas oncetes deitam e rolam nos cortejos. Literalmente. As nove dançarinas oficiais do bloco imitam movimentos de animais selvagens como cobras, jacarés e, claro, onças, fazem caras e bocas superexpressivas, esbravejam “raw”, se lambem e misturam referências musicais baianas com marchinhas, funk e hip-hop.

— O repertório do bloco não tem uma definição, é muito diverso. Nosso exercício é entender o que cada música está pedindo de movimento para criar uma coreografia. Eu diria que absorvemos influências do passinho, do baile de charme, da dança de salão, da dança contemporânea, da música baiana do É o tchan e do Thackabum — resume Bruna Gouvea, de 24, uma das professoras de dança do bloco.

A primeira oncete a ir para a rua foi Iara Cassano, de 28. Em 2012, por sugestão de uma amiga que plantou a ideia de que o bloco tinha que ter uma onça, ela vestiu um macacão animal print, desenhou um focinho com lápis de olho no nariz, tomou um banho de purpurina e foi sozinha para o desfile.

— Incorporei uma onça. Mas ninguém me reconheceu — lembra Iara. — No ano seguinte, o bloco ficou um tempão parado na Praça Tiradentes e eu comecei a dançar com amigas coreógrafas. Quando olhamos para trás, eram mais de 50 meninas imitando.

Ano passado foi criada a oficina de dança do Amigos da Onça no mesmo sobrado na Lapa onde acontecem os ensaios da bateria do bloco. Detalhe: a aula é apenas uma porta de entrada para quem quer aprender a sensualizar como as meninas (“É do felino essa coisa da sensualidade do movimento”, defende Iara). O abre-alas do cortejo é fechado e fica dentro de uma corda. E ensaia noutro esquema, nas casas das próprias meninas. No calendário de atividades da oficina, está uma aula de maquiagem. Produção é ponto forte delas.

— Teve um ano que contratamos uma maquiadora para arrumar as meninas. Levamos mais de seis horas. Por isso é importante que cada uma faça a sua. Neste verão, investimos no make néon — conta a líder da oficina Jessica Queiroz, de 25, que acorda à meia-noite, no dia do cortejo do bloco (em geral, às 4h) para se aprontar.

O Rio de Janeiro tem uma pirâmide. O monumento triangular em homenagem a Estácio de Sá, no Aterro é, vez ou outra, ponto de encontro dos integrantes do Agytoê. Toda trabalhada em peças de roupas com penduricalhos e pinturas corporais em dourado, azul e branco, a turma do bloco absorve referências de ritmos africanos e do samba-reggae para criar repertório e dança próprios.

— As manifestações populares não dividem dança e percussão. Na música africana, você dança para o tambor e o tambor toca para a dança — defende Tyaro Maia, de 26, cantor e criador do bloco.

Este ano, o bloco comemora quatro carnavais. No primeiro desfile, Tyaro convocou três bailarinas para improvisar uma coreografia. A proposta evoluiu e, em 2015, foi instituída a Oficina do Movimento Transante do Agytoê. Começa no meio do ano, também com aulas semanais. O sintonizado corpo de baile configurado por homens e mulheres, que vai às ruas em fevereiro e faz apresentações ao longo do ano no Circo Voador, tem como identidade visual a reprodução de movimentos egípcios e faraônicos.

— No cortejo, cada hora, um dos integrantes da oficina assume a liderança para puxar a dança. É um improviso em cima de uma base de passos que ensaiamos nas aulas — resume Helena Heyzer, de 26, professora de dança da oficina. — É um exercício que exige uma preparação física forte.

É impossível ignorar a disposição de quem curte o carnaval de camarote, do alto de pernas-de-pau de 60, 70 ou 90 centímetros. Dançando. E é evidente que frequentar oficinas, nesta situação, é obrigatório. Eterna musa dos blocos, Raquel Potí, de 28, atingiu o auge no ano passado: levou a ala dos pernaltas para 17 blocos de rua. Entre eles, Monobloco, Carmelitas, Terreirada Cearense, Pérola da Guanabara e Cordão do Boitatá.

— Você passa a ver o mundo de outro ângulo — propõe Raquel. — Acho que o meu papel é o da democratização do acesso à perna-de-pau. O que aconteceu foi que a gente criou uma liga. Você não sai de casa sozinha no carnaval “na perna”. A dança vem muito do fato de estarmos sempre em grupo.

Atualmente mãe de um bebê de um mês, ela planeja um carnaval mais suave. Já a oficina, aos sábados nos jardins do MAM e durante a semana na Praça São Salvador, segue o fluxo normal. Professora de português, Fátima Cajueiro, de 47, lembra sua estreia na perna-de-pau.

— A primeira coisa que a gente aprende na aula é a cair. Depois que você ganha confiança, não tem volta. Hoje, sei dançar forró e tocar triângulo — conta Fafá, como é conhecida.

Trabalho intenso de pernas praticam os integrantes do Bunytos de Corpo, sempre papagaiados com polainas, leggings e maiôs coloridos, no estilo flashdance. Por mais que o bloco não tenha uma oficina de dança anual organizada, ele não dá a largada no carnaval sem que o idealizador Luis César, de 39, o Gigante, puxe uma coreografia inspirada em exercícios de alongamento e em movimentos aeróbicos. Séries de agachamento, flexão, polichinelo e uma corridinha sem-vergonha parada no lugar dão o tom dos cortejos.

— O Bunytos de Corpo surgiu em 2010 em Recife e chegou ao Rio em 2012 com uma caixa de som amarrada num carrinho (o bloco não tem percussão) e umas 60 pessoas acompanhando a coreografia. No ano seguinte, havia mais de mil — recapitula Gigante. — Na concentração, antes de o bloco sair, promovo uma aula de aquecimento.

Consagrada por provocar surpresas na Avenida, Priscilla Mota, coreógrafa da comissão de frente da Grande Rio que faz dupla com o marido, Rodrigo Negri, enxerga com leveza e admiração a profissionalização das alas de danças no carnaval carioca de rua.

— O que é bacana dos blocos é que não existe uma relação de competição. Não tem problema se um adereço cair. A dança é uma maneira muito bonita de agregar. E, na rua, é mais fácil de as pessoas se divertirem. Na Marquês de Sapucaí, tudo tem que parecer muito simples, como se nós estivéssemos brincando. Mas exige um preparo muito intenso com um profissional — ressalta Priscilla.

A espontaneidade, para o antropólogo Roberto DaMatta, é marca registrada dos blocos desde que a manifestação cultural existe. Ele lembra inclusive a origem da expressão “pular carnaval” ao refletir sobre o papel que a dança ocupa na rua.

— O carnaval sempre foi dançado. Quando a gente fala em “pular carnaval”, o gesto de pular não é literal. Mas a expressão provoca ideia de movimento. Agora, a profissionalização dos blocos, esse agenciamento das manifestações carnavalescas com requinte como aconteceu na Sapucaí, é um movimento que aparece nos últimos anos — analisa DaMatta.

O historiador Luiz Antonio Simas consegue separar bem uma coisa da outra.

— Há uma série de manifestações de carnaval de rua que independem do bailado. Já na tradição dos blocos de frevo, por exemplo, a dança sempre teve um destaque especial, dividindo o protagonismo com as músicas apresentadas — contrapõe Simas.

Ao mesmo tempo, ele afirma que é “absolutamente normal e saudável” a associação dos dois movimentos.

— Sobretudo porque estamos falando de blocos que incorporam a ideia de que o cortejo deve ser acompanhado por um bailado coreográfico articulado aos sons que embalam a apresentação do grupo. A dança, neste caso, divide o protagonismo com a trilha sonora — acrescenta Simas.

Oncete oficial dos Amigos da Onça, a psicóloga Nicole Meireles, de 25, dá uma de territorialista, no bom sentido:

— Hoje em dia, a gente conseguiu construir o espaço da dança no mesmo lugar do músico.

Que assim seja.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Leo Martins / Agência O Globo