Ai, ai, ai, que gente é essa?

Na crônica “A carroça dos cachorros”, de 1919, Lima Barreto retrata como a passagem da carrocinha, com o objetivo de recolher os animais de rua, gerava entre os cariocas uma corrente imediata em defesa dos cães ameaçados pelos guardas municipais e praças de polícia. Barreto descreve um diálogo entre Dona Marocas e Dona Eugênia: Vizinha! Lá vem a carrocinha! Prenda o Jupi!

Comovia ao escritor como as pessoas saiam escondendo os cachorrinhos; especialmente as mulheres pobres, aquelas que mais amavam os cães sem dono que, ao mesmo tempo, eram de todo mundo. Alquebrado pelas mazelas da vida, o escritor revela que a cena da mobilização da população contra a carrocinha o fazia bendizer ainda a humanidade. Para finalizar, Lima Barreto afirma que se o poder público está no direito, estabelecido pela lei, de recolher os animais de rua, as pessoas estão em seu dever de defendê-los; e é assim que a vida cotidiana vai sendo tecida.

Na mesma toada da crônica de Lima Barreto, um grupo de foliões cariocas, no carnaval de 1904, protestou contra as carrocinhas da prefeitura de Pereira Passos. Segundo o jornal “O Paiz”, de 16 de fevereiro, os defensores dos cães acusavam o prefeito de impedir “a canina estirpe de viver e gozar da plena liberdade das ruas da capital”, e distribuíam um panfleto com os seguintes versos:

“Essa gaiola bonita / Que ai vai sem embaraços / É a invenção mais catita / Do genial Dr. Passos. / Agarra! Cerca! Segura! / – Grita a matilha dos guardas – / Correndo como em loucura / Com um rumor de cem bombardas. / Terra sempre em polvorosa / Bem igual no mundo inteiro / Cidade Maravilhosa! /Salve, Rio de Janeiro”.

Essa é uma das primeiras vezes em que a expressão “Cidade Maravilhosa” aparece para designar o Rio, com um sentido bem distante do viés apologético que ela adquiriria depois. Em 1913, a poetisa francesa Jane Catulle Mendès publicou em Paris o livro “La Ville Merveilleuse”, impressionada com uma viagem à cidade realizada em 1911, e fascinada pelas belezas cariocas. Em 1922, Olegário Mariano publicou o livro de poemas “Cidade Maravilhosa”, chegando a alcunhar o Rio de Janeiro como a cidade do amor e da loucura.

O sucesso da marcha carnavalesca “Cidade Maravilhosa”, composta por André Filho e lançada no carnaval de 1935, por Aurora Miranda, inspirada no programa de rádio “Crônicas da Cidade Maravilhosa”, apresentado por Cesar Ladeira, acabou consagrando a expressão com o sentido de exaltação que tem até hoje.

Confesso, porém, que minha visão da “Cidade Maravilhosa” é mais parecida com a dos foliões do carnaval de 1904: aquela do turbilhão pulsante em que o horror e o sublime caminham juntos, a natureza é um ringue em que se enfrentam a Paris Tropical e os cães sem dono, táticas de sobrevivência são forjadas cotidianamente, os ungidos caçam os endemoniados, que ainda assim resistem, carrocinhas ganham novas configurações e continuam vendo a urbanidade a partir do tripé que o carnaval denunciou: agarra, cerca e segura.

O que nos mantém, aos trancos e barrancos, é ainda a cidade que fez Lima Barreto, com pouquíssimas razões para demonstrar algum tipo de otimismo, bendizer a humanidade; aquela que só continua porque é tecida nas artes de dar guarida ao Jupi na hora em que a carrocinha passa.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior