Trago da infância um mosaico dos alumbramentos que não me largam: o risco de morrer engasgado com uma bala Soft, o mergulho na piscina Tone, o medo de encontrar o sujeito da propaganda gritando que ninguém segura o Kalil M. Gebara, o Kichute amarrado na canela, a palma da mão cortada pela linha com cerol, os sambas do Martinho da Vila e da Clara Nunes na trilha sonora das macarronadas de domingo, as excursões para ver o Cristo milagroso em Porto das Caixas, a certeza de que a São João Batista Modas vestia apenas defuntos, a aventura radical de andar no Bicho da Seda do Parque Shangai, o chinelo quente no pescoço pra curar caxumba, a matraca do vendedor de quebra-queixo, os balões que subiam antes dos jogos no Maracanã e vaticinavam sobre os destinos da partida (se bater na marquise, o time perde), as ruas enfeitadas para as copas do mundo, a corrida pelo túnel do estádio para olhar a marquise mais alta que o céu, a pelada na rua.
O futebol é uma das minhas referências para olhar o mundo. Aprendi a ler nas páginas da Placar, gosto de escrever sobre o jogo a partir da saga de times pequenos, clubes de várzea, goleiros frangueiros, perebas, falsos craques, beques da roça, campos de várzea, jogos que delirei e similares. O craque como personagem me interessa pouco. Sou um adepto da nano história, um escritor de irrelevâncias, da corriola dos pequeninos.
Eu escrevo sobre aqueles que, pela ótica gerencial dos que desencantam tudo em nome do sucesso, deram errado. Minha opção pelo encantamento do mundo, delirante, alienadora, estranha, grotesca, bonita, feia, boba (chame como achar melhor), é a maneira que escolhi para me comprometer com as invenções da vida e delirar as desimportantes belezas do que ela, a vida, pode ser na minha particular terra sem males.
No fundo eu sei que palmeira do mangue não vive na areia de Copacabana, e quem nasceu para Mauro Shampoo não pode ser Pelé. Este escriba está mais para palmeira do mangue e ponta de lança do Íbis, podem crer.
Ando desiludido com o futebol. O atacante faz o gol, vai comemorar com a torcida e é expulso pelo juiz. O time campeão só vai receber a taça dois dias depois, em cerimônia fechada transmitida pela televisão. O menino de 17 anos pertence ao empresário e já é chamado pelo nome e sobrenome, pensando no que será mais adequado ao mercado europeu. A venda de camisas do Real Madrid supera, numa loja do Centro da cidade, a de qualquer camisa de clube brasileiro.
O comentarista insiste em chamar um passe de assistência, desanda de chamar jogador reserva de “peça de reposição” e craque de “atleta diferenciado”. As resenhas esportivas, com honrosas exceções, apostam na idiotização do espectador e transformam os debates em programas de humor repletos de piadas do nível das contadas em filmes norte-americanos sobre adolescentes fazendo bobagens em festas de formatura.
Os torcedores passam a ser prioritariamente vistos como, conforme escutei dia desses, consumidores do “produto futebol”. Organizações criminosas se infiltram em algumas torcidas organizadas e o ódio pelo torcedor do outro time é digno de transformar os homens pré-históricos da Serra da Capivara em lordes britânicos de cinema. Bandeiras são proibidas, a torcida única parece ser o destino inexorável e o jogo de futebol como um evento da cultura é esmagado pelo jogo de futebol como um espetáculo da cultura do evento: elitizado, higienizado, domesticado, desencantado, ferido de morte pelos donos do negócio. O jogo morreu e que se dane.
Só que aí alguém cruza uma bola na área, o centroavante acerta uma bicicleta improvável, a partida não vale coisa alguma, mas a gente grita gol, sorri e, por instantes, imagina aquela bicicleta que sonhou acertar na mais vagabunda pelada de rua nos tempos de menino: aqueles tempos em que o mundo não era uma bola. A bola, dente de leite mais furreca, é que era o nosso amor e o mundo inteiro.
Fonte: O Globo/Luiz Antonio Simas
Postado por: Raul Motta Junior