Após ganhar o direito à herança de Jorge Guinle Filho, único herdeiro de Jorginho Guinle, 31 anos após a morte do artista plástico, conforme adiantou a colunista Marina Caruso, o fotógrafo Marco Rodrigues pretende contar em livri a história de amor com o companheiro, com quem viveu durante 18 anos. A publicação ganhou o título provisório de “O Tarzan de Messejana”, nome escolhido em alusão a uma fotografia sua ainda criança, “mostrando os músculos”.
— Aquele garoto do Ceará que achava que podia vencer o mundo resume a minha história — diz Rodrigues, que desde a morte de Jorge Guinle Filho gerencia os quadros do artista, aos quais se refere como “as pegadas do Jorge na Terra”.
Um dia após completar 73 anos, Marco Rodrigues recebeu a equipe do GLOBO-Zona Sul em sua cobertura no Leblon, da qual chegou a ser despejado.
— No meio da “piada cósmica” da tragédia que aconteceu com Jorge, eu tive de lidar com isso. Mas sempre acreditei que ia chegar lá porque nunca desejei a coisa dos outros. Sempre lutei pelo que era meu — afirma ele.
Entre uma tragada e outra de cigarro, ele ainda lembra do episódio, que o fez deixar seu apartamento, comprado na planta.
— Apareceram homens armados aqui para me tirar. Foram precisos dois caminhões para carregar minhas coisas e levá-las a um depósito, em Bonsucesso. Fui morar com meus pais, e foi lindo porque tive a chance de me despedir deles — conta o fotógrafo.
O direito ao imóvel só foi conquistado em 2009, em processo de usucapião.
— Consegui provar na Justiça o pagamento do sinal feito por mim, além de ter sido eu quem sempre pagou pela manutenção do imóvel. Foi uma forma de reaver o meu lar — argumenta.
Quanto à herança, embora o reconhecimento da união homoafetiva tenha ocorrido em 1989, numa decisão do juiz José Batalha até então inédita no país, o dinheiro acabou ficando com a mãe do artista plástico, a americana Dolores Brosshard, que foi aos tribunais e teve o pleito atendido. Ela ficou com 75% do montante. Os outros 25% foram para o pai, o playboy Jorge Guinle, que, cheio de dívida, transferiu sua parte para um credor.
O processo, no entanto, seguiu, e o imbróglio judicial para saber quem teria direito à herança se arrastou por mais de três décadas. Em 2014, Dolores faleceu. Ainda assim, o fotógrafo teve de esperar para ter seu quinhão, expresso em testamento deixado por Jorge Guinle Filho, garantido nos tribunais.
A vitória veio com a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que deu o ganho de causa à Rodrigues por 5 votos a 0.
Sobre o relacionamento com Dolores desde a morte do companheiro, ele é incisivo:
— Na missa de sétimo dia do Jorge, ela já deixou de falar comigo. Soube da morte dela por outros.
Hoje casado com Alicinha Silveira, produtora da Rádio Roquette Pinto e herdeira da antiga Fábrica de Tecidos Bangu, ele lembra com carinho do antigo companheiro.
— Nós íamos para a Granja Comary (em Teresópolis), que era a nossa casa de campo, um lugar muito agradável. Tínhamos dias memoráveis. Morávamos em Paris e vínhamos ao Rio no verão porque Jorge dizia que aqui era “o lugar para se estar no mundo” entre dezembro e o carnaval. Ele era interessante, idealista, gostava de correr nas Paineiras. Vivemos uma bela história de amor — comenta Rodrigues, lembrando os momentos antes da morte do antigo amado. — Nós fomos a vários médicos e nenhum nos disse que Jorge tinha Aids. Ele ficava muito cansado, íamos jantar fora e ele queria voltar logo, ficar deitado. A doença surgiu como uma nuvem cinza densa no nosso céu de brigadeiro.
O advogado de Marco Rodrigues, André Chateaubriand, não retornou as ligações.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior