Para não perder ainda mais clientes, Vicente Pereira de Moura, gerente de um restaurante na Avenida Marechal Floriano, no Centro, reduziu os preços do cardápio em 20%. Nos estacionamentos da rua, as diárias sofreram cortes de até 50%. Os descontos são uma estratégia para atrair a clientela, sumida desde janeiro, após a interdição parcial da via, no trecho entre as ruas Visconde da Gávea e Camerino, para a obra de implantação da Linha 3 do VLT, a última do sistema. Em fevereiro, a situação se agravou. Operários e maquinário foram retirados para o carnaval e não voltaram mais.
— Até as divisórias que serviam para proteger os operários e impedir a circulação de pessoas dentro do trecho em obra foram retiradas. Está tudo abandonado e com risco de acidentes. É uma irresponsabilidade começar uma obra dessas e parar. A sociedade tem que reclamar. Não pode ficar assim. Nosso direito de ir e vir está prejudicado — reclamou o despachante Anderson Pereira Cruz, que trabalha na esquina com a Avenida Passos.
Em dois quarteirões da via — entre a Avenida Tomé de Souza e a Rua Camerino —, apenas uma das quatro faixas está liberada aos veículos, e as linhas de ônibus que passavam pelo local foram desviadas. Entre a Rua Visconde da Gávea e a Avenida Tomé de Souza, em frente ao Palácio do Itamaraty, ambulantes aproveitaram a interdição para instalar seus tabuleiros. Devido ao esvaziamento, o trecho fica deserto à noite e perigoso. Segundo Vicente, o restaurante gerenciado por ele foi arrombado na semana passada, e os ladrões levaram bebidas:
— A situação só não está pior porque o dono do imóvel concordou em reduzir o preço do aluguel. Senão, a única saída seria fechar as portas e entregar as chaves, como estão fazendo outros comerciantes daqui.
Para chegar ao estacionamento que fica no número 207, os motoristas têm que fazer bandalha. Um manobrista fica na rua, com um sinalizador na mão, chamando a atenção dos clientes. Fiscal do estabelecimento, Maria Aparecida Ferro contou que o movimento despencou em cerca de 70%. Para não encerrar as atividades, o jeito foi cortar pela metade os preços. Ainda assim, a procura continua fraca.
— Além de as pessoas não conseguirem chegar até aqui, a interdição diminuiu bastante o número de carros no trecho — queixou-se a funcionária.
A Marechal Floriano foi parcialmente interditada para início das obras no começo de janeiro. Esse trecho do VLT ligará a Central do Brasil ao Aeroporto Santos Dumont, com três novas paradas: Itamaraty, Camerino e Santa Rita (na última quadra da Marechal Floriano, antes da Rua Visconde de Inhaúma). Os trilhos encontrarão a Linha 1, entre as paradas São Bento e Candelária. A partir desse ponto, a Linha 3 reforçará o atendimento aos passageiros que seguem para o aeroporto.
A Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), responsável pelo projeto, alegou que a paralisação é necessária, pois a obra ocorre em área histórica, que exige pesquisa arqueológica.
Segundo o órgão, é preciso licença do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas o cronograma não será prejudicado e a obra acabará em dezembro. De acordo com o Iphan, o licenciamento refere-se aos impactos sobre dois sítios arqueológicos, o cemitério de Santa Rita e a Igreja de São Joaquim, e cinco bens tombados que ficam na Marechal Floriano (Palácio do Itamaraty, Prédio da Light, Colégio Pedro II, Banco Central e Igreja de Santa Rita). Segundo o instituto, “as intervenções na via, nas etapas que impactam os bens, só poderão ser iniciadas após a aprovação dos projetos” e “a previsão de conclusão das análises é a primeira quinzena de abril”.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior