Em 1907, marchinha sobre febre amarela bombava no carnaval do Rio

O ano é 2018. Janeiro nem chegou ao fim, e o Rio já contabiliza pelo menos 20 casos de febre amarela, com oito mortes. O ano era 2017. De janeiro a dezembro, foram registrados nove vítimas fatais no estado em função da doença. A escalada dos números levou a secretaria estadual de Saúde a antecipar para essa quinta-feira o início da campanha de aplicação de doses fracionadas da vacina. O ano era 1850. Nele, o estado teve sua primeira grande epidemia, com mais de quatro mil mortos; e a febre amarela tornou-se uma das doenças mais mortíferas da capital do Império.

O ano era 1903. A partir dele, o médico sanitarista Oswaldo Cruz, diretor do Serviço de Saúde do Rio, iniciou intensa campanha para erradicar possíveis larvas e focos do mosquito transmissor, o Aedes aegypti. Montou brigadas de “mata-mosquitos”, que, com poder de polícia, vistoriavam recônditos da cidade (e das casas) em busca de focos, limpavam bueiros, descartavam qualquer água parada. As medidas de vigilância irritaram a população (“Violação da intimidade do lar!” era a grita), e Oswaldo Cruz não se tornou a autoridade mais festejada da época. No ano seguinte, menos popularidade no enredo do médico, que se tornou personagem central da Revolta da Vacina, a partir de sua determinação de imunização obrigatória contra a varíola, outra moléstia grave numa cidade afundada em falta de saneamento e com grande contingente populacional desordenadamente instalado. A promessa do sanitarista era ambiciosa: erradicar a febre amarela até 1907. Em 1906, já não havia números expressivo de casos. Foi o suficiente para que Oswaldo Cruz, aquele impopular de outrora, passasse a ser visto com outros olhos. Bons olhos.

No carnaval de 1907, o sanitarista virou enredo com a marchinha-exaltação “Febre amarela”, interpretada por Geraldo Magalhães. “Entornou-se todo o caldo/ E o mosquito já não grita/ Porque o grande mestre Oswaldo / Vai dar cabo da maldita”, diz um trecho da letra.”Foi de embrulho a passeata/ Um manata fez barulho/ Arrumou-se a grande lata/ Diz o Oswaldo da amarela/ Que lhe tira o seu topete/ Antes de 7 de março/ De 907”, segue a música.

O estado ainda viveu surtos da doença até seu marco de controle, em 1942. Muito tempo separa todos esses “Rios”, de Oswaldo Cruz até hoje, embora problemas como saneamento e ocupação desordenada persistam – número do ano passado mostra que quatro em cada dez cariocas vivem em área sem tratamento de esgoto. A própria doença guarda diferenças. O vírus é o mesmo, mas a que assolou os fluminenses até o início do século XX era a febre amarela urbana, transmitida pelo Aedes aegypti. A que vem provocando a epidemia recentes é a febre amarela silvestre, que tem como vetores os mosquitos Haemagogus e Sabethes, espécies que vivem nas copas das árvores de florestas, inclusive as urbanas, como a da Tijuca.

Confira a letra da marchinha ‘Febre amarela’:

Anda o povo acelerado com horror a palmatória

E os doutores da higiene vão deitando logo a mão

Bem no braço do Zé povo, chega um tipo e logo vai

Contam um caso sucedido que o negócio tudo logra

E quando o ferro foi entrando fez a velha uma careta

Tem um casal de namorados que eu conheço a triste sina

Houve forte rebuliço só por causa da vacina

Eu não nesse arrastão sem fazer o meu barulho

Não embarco na canoa que a vacina me persegue

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior