Passageiros temem o fim do serviço do BRT na Zona Oeste do Rio

O dia nem havia clareado, mas a estação do BRT em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, já estava lotada de passageiros, pouco antes das 6h desta sexta-feira. A maioria deles tinha como destino as linhas que seguem em direção ao Recreio dos Bandeirantes e à Barra da Tijuca. Para os outros que aguardavam o coletivo para Campo Grande, a situação era um pouco melhor. No entanto, a situação mudou a poucas estações dali. O ônibus já estava repleto de pessoas, embaladas no corre-corre da manhã. Para alguns desses passageiros, além de ter que lidar com a superlotação, com a sujeira no interior dos coletivos e ainda com a sensação de insegurança, havia outro receio: o medo da interrupção no serviço da linha – possibilidade anunciada nesta quinta-feira pelo consórcio que administra o transporte.

A equipe de reportagem do GLOBO acompanhou uma viagem da linha Santa Cruz x Campo Grande e ouviu alguns usuários. O entra e sai da maioria dos passageiros acontece nas estações intermediárias, entre as 22 que estão ameaçadas de pararem de funcionar. É nesse traçado que irregularidades acontecem: pessoas driblam os funcionários do BRT e acessam a plataforma sem pagar a tarifa em várias estações, até mesmo em Santa Cruz, antes do coletivo dar a partida. O medo, segundo as pessoas que utilizam o serviço, é maior na área entre as estações Cesarão I e Cesarinho – trecho que já tem duas paradas fechadas: Cesarão III e Paciência.

— Hoje demorou bastante (o ônibus). Muito difícil pegar um vazio. Sem o BRT, vai ter que usar a van. Mas a gente só vai usar esse transporte por falta de opção, porque é perigoso. Correm demais e disputam entre eles. Às vezes, cortam caminho para fugir de fiscalização — disse a estoquista Nice Silva, de 36 anos, que, antes de desembarcar na estação Cândido Magalhães, acrescentou — O lugar que, com sinceridade, acho que é mais complicado é a área do Cesarão. Muitas pessoas são prejudicadas pelo que acontece ali. Inseguro.

Do lado de dentro do coletivo, a viagem seguia sem interrupções, mas não sem problemas: o chão do ônibus estava repleto de papéis, restos de biscoito e pacotes amassados, antes mesmo de o primeiro passageiro embarcar. Após a entrada dos usuários no coletivo do BRT, a porta traseira do coletivo também demorou para fechar.

— Em vez de parar o serviço, ele precisa continuar operando e melhorar. Está ruim. Ar-condicionado não funciona, superlotação todos os dias, muita sujeira e bagunça. Todo dia é assim. Não pode tirar um direito que é nosso, tem que arrumar o que está precisando — reclamou o carpinteiro Carlos Antônio da Silva, de 34 anos, antes de desembarcar na estação de Cosmos. Ele foi pego de surpresa com a informação de que a linha pode deixar de operar.

Outros passageiros fizeram coro:

— Poderiam colocar mais ônibus, e eles poderiam ser mais limpos — acrescentou José Marcio, de 30 anos.

Cenas curiosas, mas que já fazem parte da rotina de quem usa o transporte, chamam a atenção. Além de pessoas acessando irregularmente as plataformas, um agente de controle da estação Ana Gonzaga deu a dica para uma pessoa da reportagem, que não estava identificada como jornalista, de dar a volta e fazer o mesmo que outros passageiros. Para usar, assim, o transporte sem desembolsar qualquer centavo.

Já em outro ponto, devido à falta de segurança, a passagem sequer era cobrada na estação Cesarão II, segundo informou um funcionário do BRT, que pediu para não ser identificado.

— Lá tem muitas irregularidades. Se lá passam 300 pessoas, cerca de 50 pagaram a passagem. Uma vez, muitas pessoas já tinham passado por lá e o caixa da bilheteria tinha apenas R$ 20 — contou ele, que estava na estação Cesarão II. — Não tem como se sustentar, muita gente não paga passagem. E, além disso, não zelam pelo transporte e depredam as estações e ônibus. De repente, se a tarifa fosse paga, dariam mais valor nos ônibus que fazem um serviço para eles mesmos.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior