Ainda não será neste verão que a Praia de Ipanema terá todos os quiosques modernizados, como os de Copacabana e Leblon. Pelo menos um dos 16 espaços no calçadão deveria estar pronto desde junho: a obra começou em março, mas, sete meses depois, o entorno permanece cercado por tapumes. Nesta quarta-feira, as obras paradas há meses no Posto Oito recomeçaram. A previsão é que fiquem prontas até o fim do ano, mas nem a prefeitura nem a concessionária Rio Orla sabem dizer quando os demais quiosques de Ipanema serão, enfim, revitalizados.
Apenas 38,1% dos 309 quiosques administrados pela Orla Rio do Leme ao Pontal foram repaginados até agora. A primeira promessa da concessionária era entregar todos até 2002. Depois, mudou a data para 2007, mas também não cumpriu. O projeto ficou, então, para a Copa do Mundo de 2014, mas só uma parte ficou pronta. A modernização de todos os quiosques está prevista no contrato assinado com a prefeitura, mas não tem prazo determinado, o que é contestado por uma ação do Ministério Público.
O vice-presidente da Orla Rio, João Marcello Barreto, disse que as obras em Ipanema sofreram um atraso de 50 dias devido à burocracia da prefeitura. Segundo ele, houve “um embargo indevido imposto pela Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente”.
— Foi um problema com a Secretaria de Meio Ambiente, que já foi esclarecido e resolvido. No fim deste ano, as obras do quiosque duplo já estarão concluídas, e já temos três empresa interessadas. A previsão é que tenhamos uma delas já instalada ali já neste verão — garante João Marcello.
ATRASO PREJUDICA TURISMO, DIZ ASSOCIAÇÃO
Ontem, quem passou pela Avenida Vieira Souto já viu a movimentação de operários atrás dos tapumes. Procurada, a prefeitura não explicou o motivo do atraso de quatro meses, nem informou se a concessionária será punida. Segundo a Secretaria municipal de Fazenda, responsável por fiscalizar o cumprimento de contratos de concessão, a Superintendência de Patrimônio Imobiliário acompanha a execução do contrato e a entrega da obra na Praia de Ipanema, prevista para dezembro deste ano.
Para a presidente da Associação de Moradores de Ipanema, o atraso nas obras prejudica o turismo no bairro e na cidade, além de contribuir para a sensação de insegurança.
— Quando apresentaram o projeto à prefeitura, a obra ficou embargada por questões ambientais. Agora, ficou parada de novo, ninguém sabe por quê, não falam nada para os moradores. O verão está chegando, e vai ser horrível para os banhistas frequentar a praia com aquele tapume. Ele é uma barreira e um lugar para marginais e moradores de rua se esconderem. Dá uma tremenda sensação de descaso e abandono ver que os quiosques não foram instalados — reclama Maria Amélia, que até anteontem não via qualquer operário trabalhando há meses no canteiro.
No mês passado, a Orla Rio entregou o último quiosque no Leblon, na altura do Posto 12, concluindo assim as reformas de modernização no bairro. O primeiro, o Riba, foi inaugurado no ano passado. Entre banhistas, os atraso em Ipanema é bastante criticado:
— Muito feio ver esses tapumes. Eles tampam a beleza da praia e já estão até pichados! Esta obra está bem lenta — reclama a estudante Ana Maria Souza, de 28 anos, frequentadora da Praia de Ipanema.
Os outros 15 quiosques no bairro continuam sem qualquer sinal de mudança. De acordo com a concessionária, nada foi iniciado “porque as respectivas licenças ainda não foram emitidas pelos órgãos competentes.” Segundo João Marcello, os prazos foram renegociados com a prefeitura, mas ele não informou as novas datas previstas para o início e o fim das obras. A Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente diz, no entanto, que já foram liberadas seis licenças para execução de obras em Ipanema e no Leblon. Informou ainda que outros seis projetos de quiosques neste trecho estão sendo analisados porque ficam em área com vegetação de restinga.
A Orla Rio informou que a repaginação dos quiosques é custeada pela própria concessionária, sem custo para a prefeitura. Já foram gastos, disse, mais de R$ 100 milhões na revitalização dos espaços nas praias de Copacabana, Leme e Leblon, além de alguns na Barra e no Recreio. A empresa administra os quiosques do Leme ao Pontal, exceto os das praias da Reserva e da Macumba. O prazo de concessão com a prefeitura vai até fevereiro de 2030.
Os novos quiosques de Ipanema seguirão o modelo dos que já foram instalados no restante da orla, com previsão de um mobiliário mais confortável. Nesses lugares, que já passaram pela revitalização, o cardápio, antes com petiscos populares e cervejas em lata, passou a contar com drinques e até espumantes. O Azur, no Posto 11, por exemplo, neste verão vai apostar numa nova carta de bebidinhas. Entre elas, opções refrescantes feitas com vinho do Porto. Dos oito quiosques no Leblon, apenas o antigo no Baixo Bebê não foi reformado, porque é tombado e não faz parte da concessão.
O processo de modernização dos quiosques da orla já se arrasta há quase 20 anos. Em agosto de 1999, a empresa Orla Rio Associados assinou o contrato de exclusividade com a prefeitura. Em 2010, a própria prefeitura abriu mão de exigir um prazo para a conclusão do projeto de modernização dos quiosques, por meio de um aditivo ao contrato, o que levou o MP a instaurar uma ação.
Uma sequência de ações judiciais iniciadas logo após a assinatura do contrato, questionando a falta de licenças ambientais e a legalidade da licitação, entre outros detalhes, explica, ao menos em parte, o atraso da revitalização dos quiosques. Nos cálculos da empresa, foram pelo menos 150 processos. Os obstáculos legais que impediam as obras, no entanto, foram superados em 2006.
Com essa demora, o cenário da orla é uma miscelânea de cores e modelos. Na Barra e no Recreio, por exemplo, há modelos novos, com revestimento de madeira e com vidro, convivendo com os quiosques antigos, de telhados amarelos, e outros pintados de azul.
— Acho feio ter esta mistura. Parece que a cidade não tem cuidado com a urbanização — opina a vendedora Maria Luiza Couto, moradora da Barra.
ESPAÇOS FECHADOS NA BARRA E NO RECREIO
Às vésperas do verão, o cenário nos quiosques do Rio não é animador. Um equipe do GLOBO percorreu a orla do Leme ao Pontal para ver as condições de funcionamento e o movimento nesses espaços à beira-mar. Na Zona Sul, havia pelo menos seis quiosques fechados, dois em Copacabana, três no Leme e um em Ipanema. Na Zona Oeste, o número de estabelecimentos fechados na tarde de ontem surpreendeu: passava de 15. E dois deles estavam com placas de venda. O empresário Fernando Ribeiro, sócio de um quiosque na Barra, conta que colocou o local à venda há três meses, mas está reavaliando se vai mesmo se desfazer do negócio:
— Estou pensando em arrumar um sócio. Vou ver, porque acho que o negócio ainda é viável — disse, sem querer dar mais detalhes e sem revelar o valor. — Acho que o valor estava entre R$ 100 mil e R$ 150 mil — contou ele, que já tem um sócio.
A crise, garante João Marcello, não é o motivo do fechamento de quiosques na orla. Segundo ele, na Zona Sul todos os espaço que se encontram desativados serão reinaugurados com novidades, ainda antes do verão. Já no caso da Zona Oeste, ele acredita que a maioria pode estar fechada por motivos variados, incluindo alguma decisão pessoal do proprietário.
— O negócio tem uma rotatividade de 10% a 15% por ano, o que é até bom, porque os espaços vão sendo renovados. Não tem quiosque sem funcionar. No verão, todos vão estar abertos — garante.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior