De acidentes cinematográficos a casos de solidariedade, o Túnel Rebouças coleciona uma série de histórias inimagináveis do cotidiano carioca. Caminho diário de 170 mil veículos, completou meio século de existência na última terça-feira e ainda hoje é o túnel mais movimentado do Rio. Seu aniversário acabou passando batido, sendo lembrado por poucos, apesar da importância histórica por unir as zonas Norte e Sul da “cidade partida”.
Acervo O GLOBO: Túneis Santa Bárbara e Rebouças, criados na década de 60, unem zonas Norte e Sul
Após sua inauguração, em 3 de outubro de 1967, reduziu em meia hora o percurso, que antes sobrecarregava o já congestionado Centro do Rio. O novo “coroa” da praça — e das ruas — é um cinquentão desgastado com o tempo, mas ainda cheio de vida. Já viveu e ainda vive de tudo: de parto a travessias de animais que chegam a parar o trânsito.
Rebouças: as histórias e os bastidores do túnel mais movimentado do…
O PARTEIRO DOS TÚNEIS
Só pelas mãos do controlador de tráfego Roberto Madeira já vieram ao mundo três bebês — sendo um deles (uma menina) no Rebouças. Apesar de não se recordar das datas nem dos nomes das mamães a que ajudou, Madeira conta com orgulho a emoção de ter participado de todos os nascimentos.
— É uma felicidade muito grande de dever cumprido — lembra o funcionário, emocionado.
Leia mais: Os 50 anos do Túnel Rebouças
2
ENTRE ACHADOS E PERDIDOS
Funcionários recolhem lixo e limpam caneletas do Rebouças – Fabio Guimaraes / Agência O Globo
PUBLICIDADE
Apesar do monitoramento de 50 câmeras, ainda há intrusos que insistem em driblar a vigilância. Há dois meses, um caminhão — o que não é permitido no Rebouças — resolveu cruzar o túnel e quebrou um dos 93 ventiladores. Houve tempo em que skatistas, também proibidos, arriscavam a própria vida à noite entre os carros. Também já teve gente que tentou cruzar o Rebouças correndo.
Nas madrugadas de terça e quinta-feira, o túnel fecha para manutenção e limpeza, deixando somente um sentido aberto, com uma faixa na reversível. Das 23h50m às 5h, encontra-se de tudo nas pistas e, principalmente, nas caneletas. Por mês, são recolhidos, em média, quase quatro toneladas de lixo. Entre os achados, há documentos, chaves, celulares e material escolar. Os mais assanhadinhos já perderam brinquedos eróticos. Por sinal, muitos já foram pegos fazendo sexo dentro de um carro parado no túnel. As brigas de amor já deixaram pelas pistas dezenas de presentes, flores e buquês. Até colchão já foi retirado das pistas.
Na última quinta-feira, uma equipe do GLOBO acompanhou o trabalho das equipes da prefeitura. Na ocasião, foi testada uma nova iluminação com lâmpadas LED, que poderá reduzir em 75% o consumo de energia. Além da escuridão, as infiltrações e os buracos no asfalto estão entre os principais problemas do túnel.
TÚNEL EM NÚMEROS
93
26
50
1.253
ventiladores
operadores
câmaras de
monitoramento
luminárias
01
04
75
03
pickup
motocicletas
placas de
trânsito
reboques
(2 leves e 1 pesado)
Ranking de comprimento dos túneis do Rio
TÚNEIS
COMPRIMENTO EM METROS
1º
2º
3º
4º
5º
6º
7º
8º
9º
10º
11º
12º
13º
14º
15º
3022
2800
2600
2187
1590
1480
1357
1112
720
450
408
400
350
326
305
Túnel da Via Expressa
Antônio e André Rebouças
Túnel Senador Nelson Carneiro (Transolímpica)
Eng° Raymundo de Paula Soares (Covanca)
Zuzu Angel/Dois Irmãos
Túnel Rio 450
Santa Bárbara
Túnel José Alencar
Noel Rosa
Mergulhão na Barra da Tijuca (Ayrton Senna)
Mergulhão na Barra da Tijuca (Cid. das Artes)
Acústico Rafael Mascarenhas e Minhocão
Joá
Presidente Sá Freire Alvim
Martim Francisco de Sá
ATENDIMENTOS (2017)
Por categoria
324
56
469
219
2386
287
veículo
de passeio
ônibus
caminhão
utilitário
táxi
moto
Por tipo
Por dia
2603
742
628
601
586
570
540
436
383
352
24
8
7
5
Fonte: CET-Rio
3
ANIMAIS QUE PARAM O TRÂNSITO
PUBLICIDADE
Hoje, os enguiços mecânicos são responsáveis por 70% das ocorrências. Mas os carros parados não são os únicos responsáveis pelos congestionamentos. Os animais também não dão trégua aos controladores de trânsito. Os visitantes mais comuns são cachorros, mas porco, cabrito, cabra, bode, garça e até vaca já apareceram por lá.
— A vaca entrou pelo Cosme Velho e foi até o Rio Comprido, passou a mureta divisória e deu a volta pela outra galeria. Deu um trabalho danado — conta o assistente de operações Ruy Moreira.
4
PERFURADO POR UMA BROCA
Broca perfurou teto do Rebouças em 2015 – Reprodução
Se não fosse o flagrante das câmeras da CET-Rio, ninguém acreditaria que uma broca chegou a perfurar o teto do Rebouças em 19 de maio de 2015, provocando um grande vazamento (além, é claro, de congestionamento). O equipamento era de um morador da Rua Senador Lúcio Bittencourt, no Jardim Botânico, que resolveu furar um poço artesiano. Até hoje, o buraco permanece aberto.
— Quando você vai imaginar que vai surgir uma broca no teto do túnel? Até entender de onde vinha… — comenta Valmir Queiroz, assistente de operações da CET-Rio.
5
SALVAMENTO INESPERADO
Motorista de ônibus salva motociclista de acidente – Reprodução
O caso emblemático mais recente ocorreu no dia 30 de março deste ano e também foi filmado pelas câmeras. Num ato de coragem e solidariedade, o motorista de ônibus Rafael Neves saltou do coletivo e, com um extintor de incêndio, apagou as chamas da roupa de um motociclista que acabara de sofrer um acidente. Dois jornais da Inglaterra repercutiram a história.
— Se não fosse o motorista, ele teria se machucado feio — comenta Queiroz, que complementa: — As pessoas não têm ideia do que acontece aqui.
6
ALÍVIO NO TRÂNSITO
Rebouças à noite, com poucos carros – Marcelo Theobald / Agência O Globo
Projetado para um volume de 76 mil veículos por dia, o Rebouças leva hoje 170 mil em seus dois sentidos. Seus horários de pico são das 7h às 10h e das 16h às 20h. Mas os congestionamentos derão uma trégua aos motoristas. Houve uma redução de tráfego de 10,5% em relação aos anos anteriores, quando o túnel matinha um patamar de 190 mil veículos por dia. O ganho médio de velocidade entre 2009 e 2017 foi de 29%, segundo a CET-Rio.
Segundo especialistas, a diminuição pode ser consequência da crise econômica e das recente obras viárias na cidade. Para o engenheiro Paulo Cezar Ribeiro, professor titular do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, há uma relação clara entre o PIB e o fluxo de tráfego.
— Se o PIB aumentar, o tráfego volta. Então, há um reflexo claro da própria crise econômico. Diminui empregos, as pessoas não trabalham. Essa é a questão. A hora de preparar é agora. Na hora que voltar a ficar tudo congestionado, terá que correr atás do prejuízo — alerta.
7
À ESPERA DE REFORMAS
Lateral da segunda galeria do Túnel Rebouças (08/01/2017) – Márcia Foletto / Agência O Globo
A última grande reforma no Rebouças ocorreu há duas décadas. O ex-prefeito Eduardo Paes prometeu, em 2010, transformá-lo em um túnel high-tech, mas o projeto não foi adiante. O vice-prefeito e atual secretário de Transportes, Fernando Mac Dowell, reconhece que o túnel precisa de reformas, mas diz que não há recursos. Mesmo assim, pretende buscar parcerias com empresas de telefonia para dar uma cara nova ao cinquentenário:
— É um coroa boa pinta, mas temos que modernizá-lo porque, daqui a pouco, o prejuízo poderá ser grande para a população e para as empresas que usam o túnel como passagem de cabos e antenas.
ANATOMIA DO TÚNEL
2% de inclinação
entre o Rio Comprido e a Lagoa (a diferença é de 40 metros de altura, com inclinação equivalente à do vão central da ponte Rio-Niterói)
LAGOA
COSME VELHO
RIO COMPRIDO
2.040 m
760 m
PARA GARANTIR A VENTILAÇÃO, O TÚNEL CONTA COM MAIS DE 90 VENTILADORES DISTRIBUÍDOS PELAS 4 GALERIAS
6 SENSORES MEDEM O GÁS CARBÔNICO NO INTERIOR DO TÚNEL
SISTEMA DE ILUMINAÇÃO
A MÉDIA DIÁRIA É DE 170 MIL VEÍCULOS POR DIA
(SOMANDO OS DOIS SENTIDOS)
SINAIS LUMINOSOS ALERTAM OS CONDUTORES SOBRE INTERDIÇÕES
EMBORA A VELOCIDADE MÁXIMA PERMITIDA SEJA 90 KM/H, A MÉDIA DOS MOTORISTAS É 40 KM/H
Mudança no relógio
O tradicional relógio na entrada do túnel (Rio Comprido) foi modernizado em 2013. Antes analógico, o equipamento ganhou display dupla face, com apresentação das horas, alternando com as informações de temperatura
ANTES
DEPOIS
Fonte: CET-Rio
8
OPALA FANTASMA
A ligação entre a Zona Norte e a Zona Sul já era discutida desde a década de 20, quando o arquiteto francês Alfredo Agache desenhou o primeiro plano urbanístico da cidade. Na época, a única opção Norte-Sul existente era o túnel da Rua Alice (Rio Comprido-Laranjeiras), inaugurado ainda no Império, em 1887. O primeiro projeto do Rebouças ficou pronto em 1955, mas o túnel só começou a sair do papel em 1962, com Carlos Lacerda, então governador da Guanabara. Para sua construção, foram empregados 2.600 operários, sendo que 22 deles morreram, vítimas de explosões e desabamentos.
No dia 22 de abril de 1964, Lacerda inaugurou o Santa Bárbara. Três anos depois, coube a Negrão de Lima terminar as obras do Rebouças e abrir no dia 3 de outubro de 1967 o que era, até então, “a maior passagem subterrânea do mundo”. Só automóveis podiam circular pelo túnel.
As primeiras linhas de ônibus só puderam cruzar o Rebouças em 1976. No início, eram duas: Lins-Urca (443) e Triagem-Leme (473). A chegada dos cariocas da Zona Norte às praias da Zona Sul causou um alvoroço na década de 80. Muitos se queixavam da “invasão de suburbanos”, mas o caminho não tinha mais volta. Hoje, 17 linhas passam pelo Rebouças.
O historiador Milton Teixeira lembra que nos anos 80 também assaltos e sequestros já amedrontavam os motoristas e que, uma década depois, surgiu a história do “Opala fantasma”.
— Nos anos 90, diziam que tinha um fantasma no Rebouças. Surgiu a história do Opala fantasma. Na década de 80, tiveram os famosos sequestros do Rebouças. Muitos motoristas evitam passar pelo túnel — conta Milton, que ressalta a importância histórica do Rebouças. — Foi uma importante obra de engenharia que marcou a cidade do Rio e dividiu a história do trânsito em dois momentos, unindo a Zona Norte à Zona Sul, integrando mais a cidade e facilitando os transportes. Hoje em dia, talvez fosse mais interessante fazer um túnel metroviário ou ferroviário, pensando no transporte de massa. Mas naquela época, pensava-se pouco nisso.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Fabio Guimaraes / Agência O Globo