Aviso aos cariocas: se durante uma caminhada pela Avenida Mem de Sá, no Centro, o pedestre comprar um picolé, deve se preparar para guardar o papel e o palito no bolso e levá-los para casa. Entre os Arcos Lapa — um dos pontos mais movimentados da região — e a Praça Cruz Vermelha, não há sequer uma lixeira nas ruas. Em outro trajeto, lugar para depositar o lixo não falta, mas, em geral, está em situação precária, quase um “lixo”. Nos cerca de 3,5 quilômetros da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, por exemplo, são 71 papeleiras (37 do lado esquerdo da via), só que muitas estão quebradas, e é possível perceber que outras tantas foram arrancadas dos postes porque há quarteirões inteiros sem uma “laranjinha”.
Na Avenida Amaro Cavalcante, no Engenho de Dentro, as poucas papeleiras que restaram estão danificadas, imundas ou com resíduos transbordando. Na semana em que a Comlurb divulgou o balanço do número de pessoas multadas pelo Programa Lixo Zero — foram 233 mil infrações em quatro anos e 30.365 pessoas entre janeiro e setembro de 2017 —, a dificuldade de se encontrar uma “laranjinha” nas ruas da cidade, principalmente em bom estado, vem sendo apontada como mais um sinal de queda na qualidade dos serviços da empresa.
— A sensação que a gente tem é que o Rio está mais sujo e que a manutenção feita pela Comlurb, que sempre foi reconhecida como uma empresa boa, anda deixando muito a desejar. Outro dia, andei três quarteirões na Rua São Clemente e só achei lixeira cheia até a boca. Na semana passada, estive no Centro e foi pior. Fui à Rua Carlos Sampaio e não achei nenhuma lixeira para jogar o saco de pipoca vazio. Como tenho educação, coloquei no bolso da calça, mas quantas pessoas não acabam deixando no chão? — questionou o vendedor Luiz Augusto Barbosa, morador de Botafogo.
QUEIXA É QUE NÃO HÁ REPOSIÇÃO DE PEÇAS
A Comlurb garante que não faltam papeleiras na cidade (hoje seriam 50 mil, contra 30 mil em 2013). O problema, garante a empresa, são atos de vandalismo, que danificam, todo ano, cerca de 10% das lixeiras. A companhia não sabe informar quantas são, mas assegura que a Nossa Senhora de Copacabana, por exemplo, é o logradouro do Rio com mais papeleiras. Os moradores do bairro duvidam, apontando como indício de que pode não ser bem assim o fato de serem facilmente vistos em postes resquícios de estruturas de ferro de papeleiras que teriam sido arrancadas.
— Há vários postes com estas marcas, um deles na esquina da Rua Belford Roxo com Nossa Senhora. Desde o começo do ano, a Comlurb não está mais fazendo a reposição das lixeiras, destruídas por vandalismo. Acredito que por questões de orçamento. Quando o Lixo Zero foi lançado, nós fizemos um levantamento em algumas ruas do bairro e enviamos para a empresa, argumentando que, se iriam multar, era preciso colocar lixeiras para o cidadão. Eles nos atenderam. Mas as reposições foram sendo deixadas de lado e hoje há ruas com grandes espaços sem lixeira — diz Horácio Magalhães, da Sociedade Amigos de Copacabana.
As “marcas” também chamaram a atenção do morador da Rua Guilhermina Guinle, em Botafogo, Jorge Roberto Simões, de 75 anos, que há dois meses sente falta de uma papeleira que desapareceu do dia para a noite.
— Ela estava num local estratégico, perto de comércio. Era muito usada. Durante o dia ficava cheia e, à noite, o gari a esvaziava. Há dois meses, sumiu e ficou só o ferro que a segurava. Agora, nem isso — lamenta.
Na Rua Maria Eugênia, no Humaitá, em frente a um prédio da Vigilância Sanitária do município, a lixeira vive lotada de sujeira. Na calçada em frente, mais um exemplo da falta de fiscalização: uma papeleira arrebentada jazia em meio a caixas de papelão e isopor, na última segunda-feira.
— Outro dia me peguei dando informação e apontando para a lixeira cheia, para indicar um endereço a um taxista. Se querem que as pessoas parem de jogar lixo no chão, a prefeitura tem que fazer a parte dela — reclama Maria Lúcia Silva, que trabalha no bairro.
Morador do Méier há mais de dez anos, o aposentado Paulo Lima passeia todas as noites com seus dois cães e percebe que, desde o início do ano, muitas lixeiras quebraram, e não houve reposição:
— Tem muita gente mal educada por aqui. Mas, até o ano passado, ligávamos para o 1746 e elas eram recolocadas. Agora não adianta nada. Aqui, na Rua Medina, não tem mais. Ando três quarteirões sem encontrar uma papeleira para jogar o saquinho com fezes dos meus cachorros. Como tenho educação, levo o saco com cocô para colocar na lixeira de casa. Mas muitos deixam os saquinhos encostados nos postes para o gari recolher, mas ele não recolhe — reclama.
Segundo o presidente da Associação de Moradores do Méier, Jorge Barata, a falta de reposição de lixeiras danificadas contribui para um problema crônico do bairro: a sujeira nas calçadas.
— Só para se ter uma ideia, a Rua Dias da Cruz, que já chegou a ter 50 papeleiras, hoje tem menos de dez. As ruas do Méier estão imundas, porque as pessoas jogam lixo no chão e, para piorar, o serviço de varredura está muito ruim. E não adianta reclamar no 1746, porque a Comlurb não faz nada — critica.
A Comlurb explica que a manutenção das papeleiras é feita pela gerência local, que retira a peça para lavagem ou manutenção. “Infelizmente, muitas delas são destruídas por atos de vandalismo”, diz a companhia. Esclarece ainda que, quando isso acontece, as peças são retiradas por um breve período para serem consertadas e, depois, são reinstaladas nos locais. A empresa não esclareceu, no entanto, qual o padrão deve ser seguido pelos pedestres para localizar lixeiras nas ruas. Por meio de sua assessoria de imprensa, apenas informou que “a disposição das papeleiras pela cidade respeita um planejamento e estudos realizados por técnicos”, ficando concentradas em locais “com maior fluxo de pedestres, pontos de ônibus, táxi, centros comerciais, ruas movimentadas etc. Nos bairros residenciais, a colocação segue outro padrão, de acordo com o planejamento operacional adequado para cada área.” Cada papeleira, de acordo com a companhia, custa cerca de R$ 70.
Para o arquiteto Luiz Fernando Freitas, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-RJ), a distância ideal entre duas lixeiras públicas nas ruas é de 50 metros.
— Até os anos 1990, quando teve início o Rio Cidade, o município não tinha um padrão de lixeiras. Inicialmente, os arquitetos e urbanistas adotaram a distância de 15 metros, que depois, em conjunto com a Comlurb e com especialistas do antigo Iplan-Rio, teve o espaçamento adaptado para 50 metros. É uma distância razoável para uma pessoa caminhar com um papel no bolso — avalia ele, que integrou a equipe do Rio Cidade em Madureira.
Além do vandalismo, alega a Comlurb, muitas papeleiras são destruídas porque o cidadão tenta colocar dentro do recipiente objetos grandes. A companhia estima que gasta, anualmente, cerca de R$ 700 mil só com reposição de peças. A última compra foi feita ano passado, e não há previsão de novas aquisições este ano. Os bairros de Copacabana e Centro estão no topo do ranking de destruição de “laranjinhas”.
Quem acaba ouvindo o desabafo do cidadão nas ruas é o gari. Segundo o Sindicato das Empresas de Asseio do Município, Antonio Carlos da Silva, apesar de não ser responsável pela limpeza e troca das lixeiras, os garis escutam muita reclamação:
— O profissional é uma espécie de relações-públicas da Comlurb. Quando tem algo errado na limpeza, é com ele que a população fala primeiro.
FISCALIZAÇÃO MENOS RIGOROSA
Lançado em 2013, o Programa Lixo Zero, que multa quem é flagrado jogando resíduos nas ruas, passou a mirar também os grandes produtores de lixo, como condomínios não residenciais e empresas, e de entulho. Segundo Luiz Eduardo Abílio Bastos, diretor de fiscalização da Comlurb, desde fevereiro, os agentes do Lixo Zero, que já faziam ações nas ruas de olho em quem jogava guimbas, latas e papéis no chão, passaram a anotar também as infrações de empresas e construtoras que teimam em não contratar serviços privados de coleta de lixo. Para Luiz Eduardo, não há risco de o agente ficar sobrecarregado, pois as ações são planejadas.
— O agente já está diariamente nas ruas, realizando sua rota, e agora passou a fiscalizar também o grande produtor e os casos de entulhos. Ele anota a infração no celular ou num tablet — explica, acrescentando que a Comlurb vai continuar multando o cidadão que jogar lixo na rua.
Em quatro anos, o programa Lixo Zero flagrou 233 mil pessoas jogando lixo nas ruas da cidade, no entanto menos da metade delas pagou as multas (cerca de 45%). Os bairros com maior número de multas são Centro e Copacabana. Ano passado, foram aplicadas 27.843 multas no Centro e 9.178 em Copacabana. Este ano (até setembro), foram 11.164 no Centro e 2.266 em Copacabana.
Em 2016, a média mensal de multas aplicadas era de 5.326 infrações; em 2017, entre janeiro e setembro, esta média caiu para 3.373, uma queda de cerca de 37%. A Comlurb garante que não houve queda do números de fiscais nas ruas.
— Atualmente, há 235 (agentes) e temos 50 em treinamento, que vão começar a atuar em 30 dias. Temos fiscais em praticamente todos os bairros da cidade — assegura Luiz Eduardo Bastos.
O presidente do Sindicato das Empresas de Asseio do Município, Antonio Carlos da Silva, diz que, com a justificativa da crise, a Comlurb anda economizando em equipamentos e gastos com pessoal:
— Ultimamente, temos sofrido muito com as pessoas reclamando por causa da varrição nas ruas. Desde o começo do ano, para cortar despesas com horas extras, a empresa deixou de varrer várias ruas aos domingos e feriados. Em locais onde antes iam duas equipes, eles mandam uma só. Temos também casos de falta de uniforme e de luvas.
A Comlurb nega os problemas e explica que “aos domingos, é realizada a varrição em vias de maior fluxo, limpeza de feiras livres, eventos, coleta em comunidades, enfim, em lugares em que a geração de resíduos justifique a aplicação de recursos extras.”
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior