De braços dados com a boemia carioca e dono de um cardápio exclusivo, um dos mais tradicionais restaurantes da Lapa está no sufoco. O Nova Capela, na Avenida Mem de Sá 96, decidiu que não abrirá mais no período noturno. Desde quinta-feira, o novo horário, das 11h às 19h, passou a ser uma tentativa de respiro para “arrumar a casa”. O objetivo imediato é evitar que o estabelecimento feche as portas — medida que, como mostrou o GLOBO ontem, foi tomada pelos donos de outros estabelecimentos históricos do Rio, como a loja de casa e decoração Roberto Simões e a papelaria Casa Cruz.
Uma mensagem da direção do Nova Capela publicada nas redes sociais pegou a clientela de surpresa: “Como todos sabem, nosso país vive uma crise já faz algum tempo, e mais precisamente o Rio de Janeiro sofre de forma muito peculiar, por motivos conhecidos por todos nós. Fomos igualmente atingidos por esse sofrimento em que o estado se encontra e necessitamos cortar despesas pois a noite já não cobria o custo de manter nossa casa aberta neste horário”.
O texto recebeu protestos on-line. “É uma grande perda para os notívagos”, comentou um cliente do restaurante.
Outras mudanças podem ser anunciadas esta semana. Os sócios, que tiveram de dar férias a dez funcionários, procuram novos investidores. Enquanto não encontram, uma reunião, hoje, definirá se o horário de segunda a quarta-feira será ainda mais encurtado: das 11h às 17h.
Um ano atrás, o Nova Capela já havia antecipado o fim do expediente para 1h (era às 5h). Em junho, numa entrevista ao GLOBO, um dos donos, Aires Filho, disse que não sabia se conseguiria manter as portas abertas caso as contas não melhorassem.
Os assaltos na região e os ambulantes nas calçadas também afastaram, segundo os administradores da casa, o público considerado mais selecionado. Ontem, um dos sócios disse estar entristecido, mas não desanimado.
— Meu coração está triste. Afinal, tenho 63 anos de Capela. Minha vida foi aqui. Mas vamos arrumar a casa para retornar o atendimento no horário noturno — afirmou Francisco Almussara, de 83 anos, conhecido como Seu Chico do Capela.
O espaço, que há 114 anos serve cabrito com arroz de brócolis, entre outros pratos de sucesso, fez algumas alterações no cardápio e incluiu porções individuais, mais baratas, para tentar atrair clientela. Segundo a gerente do estabelecimento, Danielle Ximenes, muitos frequentadores são funcionários públicos que, com a crise no estado, deixaram de frequentar o restaurante.
— Estamos fazendo uma economia de guerra, cortando todas as despesas possíveis, mas trabalhando para que continuemos de pé — disse ela, garantindo que o cabrito não sairá do cardápio.
VINTE E TRÊS LOJAS FECHAM POR DIA
Que mãe, próximo a um novo ano letivo, nunca enfrentou o burburinho de uma das sete lojas da Casa Cruz, atrás de livros escolares para seus filhos? E que noiva não sonhou colocar sua lista de presentes de casamento na Roberto Simões? Lojas tradicionais como essas estão fechando definitivamente as portas, deixando um sentimento de saudade e até de indignação em antigos frequentadores e admiradores. A crise econômica, que provoca desemprego e retração nas compras, não é a única causa de tantas despedidas.
O diretor-secretário da Federação do Comércio do Estado do Rio (Fecomércio RJ), Natan Schiper, aponta a falta de segurança, a ocupação das ruas por camelôs, a alta carga tributária e os aluguéis caros como outros fatores que provocaram o fechamento de pelo menos 22.411 estabelecimentos comerciais de bens, serviços e turismo na cidade, entre janeiro de 2015 e agosto de 2017, uma média de 23 por dia.
Estudo recente da Fecomércio, feito a partir de dados fornecidos pela Junta Comercial, revela que, apesar de o saldo entre estabelecimentos cariocas que abrem e que fecham ser positivo — entre 2015 e agosto de 2017, o resultado foi de 18.027 empresas a mais na cidade —, ano a ano o número de novas lojas vem diminuindo, enquanto cresce o total das que encerram as atividades.
— Além disso, os dados de fechamento disponíveis são subestimados. A Junta Comercial só dá baixa no cadastro quando a empresa não deve mais nada de impostos, a funcionários e a fornecedores. Tem empresa que fecha devendo muito. Ou seja, ela deixa de funcionar, mas oficialmente continua como ativa — explica Schiper.
A gravidade da situação se reflete numa pesquisa feita pelo Centro de Estudos do Clube dos Diretores Lojistas (CDL-Rio), que mostra uma redução de 7,3% nas vendas do comércio varejista no acumulado de janeiro a julho deste ano, em comparação com os mesmos sete meses de 2016. Foi a maior queda para o período desde 2003.
— Trabalho há 17 anos na Galeria Menescal (Copacabana) e nunca vi um quadro tão ruim — conta o segurança Mauro Ferreira de Araújo. — A Amicci Joias, por exemplo, fechou há um mês e meio. O dono chegou por volta das 8h30m, chamou os funcionários, conversou com eles, baixou as portas e foi embora. A galeria virou somente uma passagem.
HERÓIS DA RESISTÊNCIA
Para Miriam Chaachaa, dona do restaurante árabe Baalbeck, a galeria é testemunha de outra passagem: a da história de sua família, que mantém a casa no endereço desde 1959.
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— Vejo com muita tristeza os fechamentos. As lojas tradicionais representam as histórias de muitas famílias. E, de certa maneira, elas são de todo mundo. O país já passou por várias crises, mas não como essa. A prefeitura nem ninguém faz algo para ajudar. A sensação é de abandono — desabafa Miriam, que luta (e consegue) manter seu comércio saudável. — Temos que manter a qualidade, e, mais que tudo, precisamos resistir.
O estudo do CDL mostra ainda que, no mercado varejista carioca, à exceção do ramo de calçados, todos os setores sofreram queda nas vendas em julho.
— Nem mesmo liquidações e crediário facilitado estão animando o consumidor — constata o presidente do CDL e do SindilojasRio, Aldo Gonçalves.
Ainda em Copacabana, mais precisamente na Avenida Nossa Senhora de Copacabana 1.212, a antiga Farmácia Apolo entregou os pontos e as chaves, deixando clientes órfãos.
— Eu tinha o hábito de ir à Apolo de madrugada comprar remédios para a minha filha quando ela ficava doente. É com tristeza que vejo o fechamento de farmácias antigas, que não resistem à concorrência das grandes redes — lamenta Suely Machado, de 69 anos, 35 deles vividos em Copacabana e 12 no comando da banca de jornal na esquina da Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Djalma Urich.
O clima de consternação com o fim de lojas tradicionais no bairro pregou uma peça em clientes da Calçados Santa Fé. O fechamento há cerca de dois meses levou antigos fregueses a acreditarem que era para sempre. Porém, para surpresa dos desavisados, a loja foi reaberta na última segunda-feira. O antigo proprietário faleceu, e os parentes estavam resolvendo pendências do espólio para retomar o negócio.
— As lojas antigas fazem parte da cultura de Copacabana. É uma pena que fechem — lamenta Cláudia Cabral, especialista em medicina chinesa.
‘As lojas tradicionais representam as histórias de muitas famílias. E, de certa maneira, elas são de todo mundo’
– MIRIAM CHAACHAA
Dona do restaurante árabe Baalbeck
A decisão de fechar as portas, muitas vezes, provoca emoção dos dois lados do balcão. No site da Roberto Simões, um texto sobre o fechamento comunica a “clientes, noivos e amigos” que “foram 55 anos de lindas histórias e momentos felizes que escrevemos juntos”. E acrescenta: “a marca estará sempre presente em sua casa e em sua memória”.
Candidata a um lugar na memória dos moradores do Leblon, a Sapataria do Futuro, que funcionava há 20 anos na Rua Dias Ferreira, também não resistiu à crise e fechou as portas em junho.
— O que aconteceu com essa sapataria ocorreu com várias outras lojas do Leblon, que fecharam por causa do alto custo do aluguel — diz o aposentado Geraldo Cleiton, de 74 anos, que mora no bairro desde 1961.
Presidente das associações de moradores e comercial do Leblon, Evelyn Rosenzweig diz que a violência está tirando as pessoas das ruas, o que afeta o movimento nas lojas:
— Tem muita gente pedindo entrega de comida em casa porque fica com medo de andar nas ruas.
GEOGRAFIA DO ABRE E FECHA
Os bairros com maior número de estabelecimentos que deram baixa na Junta Comercial, de janeiro de 2015 a agosto de 2017, foram Centro (3.316), Barra (2.217), Jacarepaguá (1.700), Campo Grande (901) e Copacabana (990). Em todos esses bairros, no entanto, o número de abertura de lojas foi maior que o de fechamento. Na contramão dessa média, Pavuna, Costa Barros, Deodoro, Mallet, Vila Kennedy, Largo do Machado e Bairro de Fátima aparecem como lugares onde aconteceram mais fechamentos que aberturas, segundo dados da Fecomércio. A situação mais grave está na Pavuna, provavelmente por causa da violência, um problema que aterroriza comerciantes e moradores. Lá, 135 lojas encerraram as atividades desde janeiro de 2015, e apenas 22 abriram as portas no mesmo período.
A crise financeira e a falta de segurança provocam o fechamento de estabelecimentos comerciais, mas também incentivam a busca de alternativas para manter o negócio de pé. Presidente do CDL e do SindilojasRio, Aldo Gonçalves conta que algumas lojas cariocas estão sendo fisicamente divididas entre proprietários para reduzir gastos com aluguéis e tributos, seguindo um conceito de reestruturação administrativa já usado em outros países e denominado downsizing (redução de tamanho).
O restaurante-padaria 686 Gourmet, em Copacabana, fechou as portas no último dia 28, com planos de transformação. Passa por uma reforma para a construção de uma farmácia contígua e vai reabrir assim, meio a meio. É que para enfrentar a crise, o dono alugou parte do lugar para outro negócio.
A dobradinha já foi adotada pela sapataria Di Santinni, em Bonsucesso. Há três meses, junto a ela passou a funcionar a Ponto Mix, uma loja de roupas populares.
— Por causa dos gastos, os donos dividiram o espaço — confirma a gerente Thais de Lima.
Os fregueses aprovam.
— A loja era um latifúndio. Agora está menor, mas ainda espaçosa — avalia a dona de casa Marluce Reis.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior