Orquestra da Maré vai misturar clássico e popular no Municipal

Aos 11 anos, Wênio Amorim Alves está aprendendo a tocar violino e anda apaixonado pela 9ª Sinfonia de Ludwig van Beethoven. Debora dos Santos, de 19 anos, há sete descobriu que tinha jeito para tocar violoncelo. Cristiano dos Santos Souza, de 20 anos, trocou o sonho de ser jogador de futebol e hoje se sente realizado como flautista. Os três são moradores do Complexo da Maré e viram seus destinos mudarem — e se cruzarem — na Orquestra Maré do Amanhã, projeto social que, desde 2010, já ajudou a formar cerca de 3 mil músicos nas favelas da região.

No próximo domingo, às 11h30m, o trio vai dividir o palco com outros 77 jovens da Maré, na primeira apresentação do grupo no Theatro Municipal, com ingresso a R$ 1. Na estreia, vão executar um repertório eclético, com peças clássicas de Heitor Villa-Lobos, Mozart e Beethoven, um pot-pourri de hits de Anitta e canções de Tom Jobim e Roberto Carlos.

Wênio nunca entrou no edifício histórico. Ao olhar para a fachada, o estudante não esconde a ansiedade:

— Deve ser muito bonito. Vai ser uma emoção tocar lá dentro — diz ele, que é aluno do 6º ano do Ciep Samora Machel e que, no dia do espetáculo, vai ser prestigiado por vizinhos, colegas da escola e parentes.

MORADORES TERÃO ÔNIBUS FRETADOS PARA IR AO ESPETÁCULO

Será o primeiro concerto dos jovens músicos da Orquestra da Maré no Theatro Municipal, mas eles vão se sentir em casa: 1.200 dos 2.700 lugares estarão ocupados por familiares e alunos dos Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) do complexo, onde eles estudam, dão aulas em oficinas ou costumam tocar em eventos comemorativos. A orquestra fretou 22 ônibus para levar esses convidados especiais. Segundo o diretor, o maestro Carlos Eduardo Prazeres, será a realização de um sonho. As bilheterias vão abrir às 10h.

— É a primeira vez, porque antes só tocamos uma música na abertura do espetáculo do percursionista chinês Li Biao. Meu sonho era a orquestra fazer um concerto no Theatro Municipal, só a gente no palco. Vamos mostrar um repertório que juntará as duas orquestras, a mirim, com crianças menores, e a de jovens — conta Prazeres.

GRANDE EXPECTATIVA

O clima entre os jovens concertistas é de expectativa. Muitos deles já se apresentaram em outros eventos importantes, como o concerto para o Papa Francisco no Vaticano, em junho. Mas saber que os pais estarão na plateia emociona.

— Estou me preparando mentalmente para nossa apresentação no Municipal. Tenho o pensamento de que vamos estar tocando no teatro mais maravilhoso do Rio de Janeiro — diz Debora Santos, que entrou para a orquestra aos 12 anos.

A maioria dos alunos mora na Maré, mas também há estudantes de comunidades da Penha e de Xerém. As turmas ensaiam e têm aulas em quatro salas e no auditório da Escola Municipal Bartolomeu Campos de Queiroz, na Baixa do Sapateiro. São meninos e meninas entre 4 a 18 anos, que ganham o instrumento, devolvido só no fim do curso. No projeto desde 2010, Cristiano dos Santos já virou mestre.

— Entrei para tocar violoncelo, mas não tinha vaga. Comecei com a flauta com a ideia de trocar de instrumento, mas me apaixonei. Hoje, dou aulas nos EDIs, para crianças de 4 a 6 anos, e sou professor da orquestra mirim — comenta ele, que sonhar ser sargento músico.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior