‘Estou revoltado, indignado’, diz autor de escultura do Michael Jackson

Autor da escultura do cantor Michael Jackson no morro Dona Marta, em Botafogo, o cartonista e escultor Ique Woitschah criticou a ação dos criminosos que colocaram um fuzil na estátua. Em um desabafo em seu perfil no Facebook, o artista lamentou a decadência da política de pacificação. O Morro Dona Marta foi o primeiro a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em dezembro de 2008. Já a escultura, confeccionada em bronze, foi instalada no dia 26 de junho de 2010, um ano após a morte do ídolo pop.

“Estou indignado, revoltado, e, desculpem, de saco cheio. Estou exausto! Exausto como artista, exausto como profissional honesto que paga seus impostos e não recebe a contrapartida devida, exausto como pai que tem filhos correndo riscos no dia a dia desta cidade e que não terão nenhuma oportunidade real de viverem dignamente no futuro, e exausto como cidadão brasileiro. Exausto!”, escreveu.

Ique lembrou que a comunidade vivenciou, logo após a instalação da UPP, um crescimento em sua economia, atendendo turistas do mundo inteiro. Agora, com a foto que viralizou na internet, a esperança de novas conquistas para as novas gerações está ameaçada.

“(Foi) Uma agressão muito violenta contra a memória do Michael Jackson, contra a arte que minha obra representa, contra a comunidade do Dona Marta, e contra o turismo da cidade, que é base de nossa economia”, disse.

Para ele, a imagem da estátua com fuzil pendurado no pescoço representa o abandono da cidade do Rio.

“Infelizmente essa imagem é a realidade que vivemos atualmente, e representa o abandono da cidade maravilhosa. Ela foi produzida pelo tráfico demonstrando o seu poder na reocupação do espaço abandonado pelo poder público. Poder público esse, também repleto de bandidos que transformaram o Rio e o Brasil em terra de ninguém”.

A assessoria de imprensa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) informou, na segunda-feira, que já identificou os responsáveis por fazer a foto e fez uma operação para prendê-los. Os suspeitos, segundo a polícia, são do bando de Marco Pollo Lima dos Santos, conhecido como Mãozinha, preso no último dia 27.

“A assessoria de imprensa informa que o Setor de Inteligência da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Santa Marta já identificou os suspeitos – alguns com mandado de prisão em aberto – e está realizando uma ação para prendê-los. Os criminosos fazem parte da quadrilha de Marco Pollo Lima dos Santos, conhecido como Mãozinha, que estava foragido da justiça e foi preso pela UPP no último dia 27. Cabe ressaltar que a foto possivelmente foi tirada no início da manhã — horário onde há maior movimento nas vielas — para evitar confronto com policiais da UPP”, informou a nota.

A escultura de Michael Jackson reproduz a foto clássica do cantor na laje, publicada em jornais no mundo inteiro, quando visitou a comunidade em fevereiro de 1996 para a gravação do clipe “They don’t care about us”. Com 1,82m de altura e 180 quilos, a estátua virou ponto turístico na comunidade. Mas assim como outras peças da cidade também foi alvo de vandalismo. No ano passado, às vésperas do 20º aniversário da vista do cantor, a peça foi seriamente danificada e não havia dinheiro para reinstalá-la, mas Ique conseguiu recursos junto ao governo do estado e fez os reparos.

“Com a sua pacificação e com a instalação de minha escultura do Michael Jackson na laje que ele gravou seu clipe, a comunidade Dona Marta passou então a ser visitada por turistas de toda a parte do Brasil e do mundo. A presença do ídolo Pop em bronze foi simbólica e transformadora. Empregos foram criados e a economia da comunidade cresceu. A auto estima da população se elevou, e com isso correu pra se qualificar pra atender a demanda de turistas do mundo inteiro. Essa transformação deu esperança as novas gerações para novas conquistas.

Essa esperança foi agora ameaçada pelo que essa foto significa. Uma agressão muito violenta contra a memória do Michael Jackson, contra a arte que minha obra representa, contra a comunidade do Dona Marta, e contra o turismo da cidade, que é base de nossa economia.

Infelizmente essa imagem é a realidade que vivemos atualmente, e representa o abandono da cidade maravilhosa. Ela foi produzida pelo tráfico demonstrando o seu poder na reocupação do espaço abandonado pelo poder público. Poder público esse, também repleto de bandidos que transformaram o Rio e o Brasil em terra de ninguém.

Como os bandidos do colarinho branco, assassinos, corruptos e covardes, continuam garantindo seus territórios no governo, no Congresso Nacional, e no Palácio do Planalto, com manobras espúrias conhecidas há décadas e patrocinados pelos bandidos de toga da nossa justiça também corrompida, os bandidos do tráfico se sentem completamente à vontade e livres de qualquer ameaça para agir. Estamos cercados de bandidos por todos os lados. E os bandidos do poder são infinitamente mais covardes e mais perigosos.

Até quando a sociedade civil vai continuar tendo paciência? Até quando a sociedade civil, assaltada pelo estado, vilipendiada, humilhada, avacalhada, abandonada, vai ser condescendente com essa barbárie que a política suja promove desde sempre?

O povo também tem que ocupar seu espaço. E esse espaço que o povo deixa vago por não se envolver na política, por não exigir com vigor seus direitos fundamentais não se envolvendo profundamente nas questões mais cruciais da sociedade, é disputado e ocupado por bandidos assassinos de toda laia. Vamos continuar sofrendo calados????

Estou indignado, revoltado, e, desculpem, de saco cheio. Estou exausto! Exausto como artista, exausto como profissional honesto que paga seus impostos e não recebe a contrapartida devida, exausto como pai que tem filhos correndo riscos no dia-a-dia desta cidade e que não terão nenhuma oportunidade real de viverem dignamente no futuro, e exausto como cidadão brasileiro. Exausto!

Quando as instituições que deveriam nos representar e nos defender perdem totalmente a credibilidade como estamos vivenciando hoje no país, ficamos sem saída. Tenho medo porque está chegando o momento que nada mais teremos a perder. E ai fica realmente perigoso”.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior