A cenógrafa e arquiteta Mina Quental costuma andar com um olhar atento pelas ruas da Glória, bairro onde mora e mantém um ateliê o sócio Bernard Heimberger. A qualquer momento, seja dentro de uma caçamba ou até em uma calçada — onde trabalham os ambulantes no popular “Shopping Chão” — ela pode deparar-se com um elemento perfeito para algum de seus trabalhos. Atualmente, seu trabalho pode ser visto nos espetáculos “O abacaxi”, “ELA”, “O marido ideal” e “Mata teu pai”. Além disso, ela acaba de estrear em nova função, a de produtora, com a peça “A história dos ursos panda”, em cartaz no Teatro do Sesc Copacabana.
A montagem, dirigida por Marcio Meirelles, é uma montagem do texto do dramaturgo romeno Matéi Visniec. A trama narra o romance entre um DJ e uma mulher misteriosa. A história de amor é contada com boas pitadas de surrealismo.
— O cenário é composto por objetos estranhos, como se fosse um sonho. Temos, por exemplo, uma estrutura de mola de colchão como destaque. A peça foi encontrada num antiquário na Lapa — comenta Mina.
Outro espetáculo que tem cenário feito pela profissional é “O abacaxi”, dirigido por Debora Lamm, que reestreia neste sábado no Tablado (a temporada vai até o dia 27, com sessões aos sábados, às 21h, e domingos, às 20h. Avenida Lineu de Paula Machado 795, Lagoa. Tel.: 2294-7847. R$ 40. 14 anos).
A peça fala sobre relações amorosas caóticas. Para compor a ambientação dos diferentes casais inusitados apresentados no espetáculo, Mina optou por colocar os móveis e objetos típicos de todo o lar fora de sua função habitual. A geladeira, virou guarda-roupa. A bateria está no meio da cozinha e a cama, suspensa no teto.
— O cenário cria uma ironia com o dia a dia, que tem tudo a ver com a peça. Tem uma namoradeira, inclusive, que comprei usada na internet. Pertencia a uma senhora que morreu e a família estava se desfazendo dos seus pertences. O objeto já tinha uma história, não precisei fazer intervenção alguma — conta.
Já o espetáculo “Mata teu pai”, que reestreou no dia 31 no Teatro Poeira (Rua São João Batista 104, Botafogo. Telefone: 2537-8053), rendeu à Mina uma indicação ao Prêmio Shell 2018 na categoria cenário. Estrelada por Debora Lamm, a peça é uma versão atual do mito da Medeia.
— Para esta peça, tive como inspiração a sociedade de consumo. O cenário é uma montanha de sucata eletrônica. Trabalhamos em parceria com uma cooperativa de catadoras, que nos doou material. Outra parte, consegui a partir de um garimpo nas minhas coisas velhas — diz Mina.
No espetáculo “ELA”, em cartaz no Teatro Sesi, a profissional precisou abusar da criatividade, já que não havia patrocínio.
— A verba estava muito curta. Como a peça fala sobre esclerose lateral amiotrófica (o ELA do título), pensei num cenário com conexões e tubos, fazendo referência ao cérebro humano. É um material barato. Deu um efeito bem legal — conta Mina, que recebeu uma indicação ao Prêmio Botequim Cultural pelo trabalho. A peça pode ser vista às segundas e terças, às 19h30m. R$ 20.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo