Por todo o país, diversas leis municipais e estaduais instituem um dia em comemoração à arte da capoeira. Mas, a primeira dessas homenagens se deu em 1985, pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, instituindo na data de hoje, 3 de agosto, o Dia do Capoeirista, sendo esta a ocasião adotada por muitos capoeiristas como a oficial. O GLOBO-Tijuca enumera algumas das rodas e mestres tradicionais que ajudam a difundir pela região esse movimento artístico e histórico brasileiro, que em 2014 foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
— Os praticantes não sabem ao certo. Não há uma lógica sobre o porquê do dia 3 de agosto. Foi autoria de um deputado paulista há 30 anos e acabou pegando. Aqui no Rio existe uma lei estadual de 2002 que institui a comemoração no dia 23 de novembro. Mas o que realmente importa é transmitir a arte brasileira, seja em que dia for — explica Waldec Velasco, o Mestre Canguru.
Canguru coordena, há 20 anos, uma roda aberta ao público.todo primeiro domingo do mês, na Praça Carlos Paolera, em frente à Igreja São Francisco Xavier. O mestre é integrante do grupo Associação Brasileira de Apoio e Desenvolvimento da Arte Capoeira (Abadá-Capoeira), que surgiu em 1989 e se espalhou pelo Brasil e por 56 países.
— A capoeira é de todos, nasceu da rua, fruto de um grito de liberdade que os escravos tinham sufocado em suas almas. Essa é a essência dessa mistura de dança e luta: democrática, aberta a todos, sem preconceito. Essa roda é uma maneira de divulgar nossa arte — diz Canguru, de 53 anos, que é um dos pupilos do Mestre Camisa, o fundador da Abadá.
Com os seus cantos, tambores e gingas, as rodas do gênero ajudam a promover um trabalho de conscientização a respeito da prática, reforçado em palestras e conversas. O tema da roda do Mestre Canguru este domingo é “A importância dos primeiros socorros”.
— Vamos além da roda. Conversamos sobre temas variados em pauta na sociedade. Todos os tijucanos estão convidados — diz ele.
Mestre Canguru comanda ainda duas rodas em academias particulares da região e realiza, há 15 anos, um trabalho social no Ciep Samuel Wainer, na Heitor Beltrão.
Da Abadá-Capoeira saem seguidores que ajudam a divulgar a arte pela cidade. Um deles é o aluno-graduado Catatau (Thiago Côrtes). Há cinco anos na associação, ele mantém, desde 2015, uma roda social às segundas e quartas, às 18h, na Praça da Bandeira.
— Moro ao lado da praça. Como não havia roda na área, decidi arregaçar as mangas. Com o tempo, a ideia cresceu. Hoje são 15 alunos de 10 a 13 anos. A prática faz bem, ajuda a disciplinar, melhora a saúde deles — afirma.
Outra roda a céu aberto tradicional na região é a Capoeira da Praça, que acontece na Xavier de Brito há 25 anos, todas as terças, quintas e sábados, às 19h30m. Foi fundada pelo mestre Serra Pelada, que atualmente mora na França, onde dá aulas da luta. Com a sua saída, há 14 anos, quem passou a comandar a roda foi o professor Buiú (Paulo Roberto Santos), de 33 anos, morador do Morro da Formiga, que começou na roda aos 8 anos de idade. A mensalidade é de R$ 70.
Desde julho Buiú desenvolve um projeto na Formiga.
— Nasci e fui criado aqui. A capoeira me salvou, me deu uma perspectiva de vida. Por causa dela, conheci quase toda a Europa. Os gringos dão muito valor à arte. Vou me realizar se eu vir um desses jovens seguir os meus passos.
A prática vai além do jogo atlético
Não se pode falar em capoeira na região sem citar uma de suas rodas mais famosas, comandada há 25 anos pelo Mestre Fanho (Éverton Batista), no Sesc Tijuca. A mensalidade é de R$ 35 para associados, R$ 60 para o público em geral e gratuita para famílias com renda de até 3 salários.
Capoeirista desde os 16, e filho de um tocador de berimbau, Fanho, de 57 anos, também dá aulas em uma academia e coordena um projeto há seis anos na Igreja de São Cosme e Damião no Andaraí. O mestre, que dá aulas desde 1979, também é autor de músicas como “Dia de festa”, “Capoeira de verdade” e “Saudade de Ezequiel”. Exemplo de superação, em 2005 levou dois tiros em decorrência da violência urbana e ficou com o lado direito do corpo paralisado, carregando até hoje uma pequena sequela.
— A capoeira é mais que um jogo atlético. É filosofia de vida, equilíbrio entre corpo e mente, elevação do espírito, formação de caráter. Não busco formar guerreiros e sim cidadãos — finaliza.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Luciola Villela