Artistas se inspiram na bossa nova para revitalizar escadaria em Copacabana

O bairro que viu o nascimento da bossa nova, e que depois foi preterido por Ipanema e sua garota, retoma sua vocação musical. Primeiro, veio a revitalização do próprio Beco das Garrafas, no Lido, que voltou a figurar como ponto de encontro da música brasileira. E, em fevereiro deste ano, o pianista João Donato assumiu a residência artística da Sala Baden Powell, onde outrora funcionou o cinema Ricamar

Agora, pelas mãos dos artistas e restauradores Júlio Pedroso e Pablo Aníbal Romero Cardozo, a escadaria que liga a Avenida Nossa Senhora de Copacabana à Rua General Barbosa Lima começa a se transformar em mais um símbolo dessa mudança. Pelos degraus que sobem o único morrete a sobreviver à ocupação humana, os passantes vão escalar um mosaico com as teclas do instrumento de João Donato, enquanto acompanham, nas paredes, desenhos dos músicos que marcaram a história da bossa nova. Incluindo, claro, o parceiro de Vinícius de Moraes e compositor dos afro-sambas, cujo nome foi eternizado no teatro vizinho à escada.

A revitalização do espaço frequentemente considerado “maldito”, com vestígios de drogas e camisinhas usadas, está em sintonia fina com a nova administração da Sala Baden Powell. A idealização do projeto, entretanto, é dos próprios Júlio e Pablo, argentino que participou da restauração do Cristo Redentor. Parceiros na escola Arte em Ofício da Cidade, na comunidade Parque da Cidade, onde moram, eles usam o trabalho externo — também estão restaurando a ponte do Parque Guinle — como uma forma de conquistar novos alunos para o projeto social.

— Muita gente na comunidade não se interessa pela arte porque precisa de uma forma imediata de ganhar dinheiro. Mas isso muda quando eles veem que estamos fazendo um trabalho de verdade. E, sempre que um aluno aparece, mudamos a nossa dinâmica para que ele também participe — conta Júlio, um mineiro que tocou em coretos do interior e viajou muito de carona até aportar em terras cariocas, cerca de sete anos atrás — Acho que esse nosso olhar para a rua vem do fato de, tanto eu como o Pablo, termos andado muito por aí antes de chegarmos no Rio. Viajar amplia o olhar para o outro, porque você está sempre em um lugar que não é seu.

Mas o espírito nômade e o desejo de criar impacto social não são as únicas características comuns aos artistas, que ainda se apresentam como palhaços e tocam em blocos de carnaval. Eles também nutrem um forte senso de independência, tanto que realizam o projeto em Copacabana sem nenhuma forma de financiamento externo: os azulejos que já começam a compor o mosaico dos degraus foram recolhidos em caçambas no trajeto desde a Gávea; já o cimento utilizado foi comprado com o dinheiro arrecadado em um chapéu deixado ao pé da escada.

As tintas para a decoração das paredes ainda não surgiram, mas o trabalho mal começou. Em poucos dias, vários moradores da região pararam para elogiar a iniciativa, e alguns já disseram que pretendem ajudar. E, se até agora o acaso tem conduzido com precisão os acontecimentos, eles não têm por que duvidar do sucesso da empreitada, que, espontaneamente, ganhou o apoio do poder público:

— Alguns dias atrás, a Ivone Belém (gestora geral da Sala Baden Powell) ligou para a prefeitura, e eles já sabiam da restauração: “deixa os meninos fazerem a arte deles. Não tem problema nenhum”, foi o que ela ouviu — conta Júlio.

E os planos não param apenas na decoração do local. Junto com o músico Claos Mózi, que vai comemorar os dez anos da banda Giras Gerais durante as segundas-feiras de agosto no Beco das Garrafas, eles já começaram a organizar ensaios nos degraus do Lido. Mas os planos também incluem cortejos ligando as duas casas de espetáculos, em mais um ingrediente do caldo cultural de Copacabana.

— Todo mundo que passa diz: “gente, vocês não sabem o bem que estão fazendo”. Nesse pouco tempo que estamos aqui, várias pessoas já compartilharam com a gente as suas vivências aqui na escada. São histórias do primeiro beijo, de memórias do cinema Ricamar. Até a Jane Di Castro parou para tirar foto com a gente — comemora o artista.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Aline Macedo / Agência O Globo