Kizomba é uma palavra da língua kimbundu, falada em Angola, que significa “confraternização”, “encontro” ou “festa”. O termo tornou-se conhecido no Brasil através do sambista Martinho da Vila. Primeiro, com a criação do Grupo Kizomba, que promoveu intercâmbios da cultura negra no início da década de 1980, e do bloco carnavalesco de mesmo nome. Mas a expressão chegou mesmo ao grande público no carnaval de 1988, com o primeiro título da história da Unidos de Vila Isabel, no enredo desenvolvido por Martinho “Kizomba, a festa da raça”. Agora, três décadas depois, uma nova kizomba surge em Vila Isabel.
Inaugurado no dia 28 do mês passado na Rua Barão de Cotegipe 209, o Kasarão Kizomba reúne em um imóvel antigo diversas atividades culturais e promete movimentar a cena artística do bairro. O projeto é conduzido por Analimar Ventapane, filha de Martinho da Vila.
— Comprei a casa há 11 anos, pensando em morar. Mas acabei deixando a minha cunhada Cristina vivendo aqui e continuei no meu apartamento, na mesma rua, no edifício que leva, inclusive, o nome do meu pai — conta Analimar. — Em 2008, reformei a casa para a minha filha, Dandara, dar aulas de dança de salão. Mas, dois anos depois, ela começou a fazer faculdade, além de iniciar a carreira de porta-bandeira e de cantar com a minha irmã Mart’nália. Por isso parou de dar as aulas. Seguiu usando o casarão apenas para ensaios do carnaval — explica a proprietária do imóvel.
O espaço com dois andares e 15 cômodos, fora os banheiros, seguiu ocioso por um longo período. Analimar, então, após se desligar do cargo de presidente da escola mirim Herdeiros da Vila, em maio passado, teve a ideia de destinar o local a atividades culturais e educativas.
— Sempre tive muitos amigos e professores de atividades artísticas que não tinham um lugar para dar aula. Foi aí que pensei em movimentar a casa, transformá-la em um espaço multifuncional, vivo culturalmente. E, em junho, comecei outra reforma — diz.
Ela conta que pensou em demolir a edificação, construindo uma nova estrutura. Mas foi desaconselhada, por conta do valor histórico do imóvel.
— Conversei com um arquiteto, que me disse: “Não faça isso. Essa construção é uma preciosidade!”. A casa foi comprada de uma família antiga de Vila Isabel, que a registrou em 1938. Mas creio que o casarão tenha por volta de 100 anos — calcula Analimar.
Analimar e os instrumentos do Bloco Kizomba – Analice Paron / Agência O Globo
A palavra kizomba, em suas definições agregadoras e de celebração, caiu como uma luva na hora de batizar o projeto. Além disso, o material do bloco carnavalesco homônimo ficava guardado no lugar há algum tempo, o que lhe conferia o apelido de “casarão do Kizomba”, dado pelos próprios foliões.
— Cheguei a pensar no nome “Fábrica de ideias”. Mas acabou ficando “Kizomba” por tudo que o termo significa. É até difícil de explicar o que estamos fazendo aqui. É algo amplo. O casarão é um lugar que transmitirá cultura — explica Analimar.
LOCAL ABRIGA MÚLTIPLAS ATIVIDADES
Músico e professor de línguas Guilherme Salgueiro dá aulas de cavaquinho, tamborim e violão – Analice Paron / Agência O Globo
Entre as várias aulas oferecidas no Kasarão Kizomba, que funciona de segunda a sábado, estão as de canto, capoeira, cavaquinho, dança de salão, desenho, forró, hip-hop, percussão, samba no pé, stiletto, tamborim, teatro e violão. Este mês a casa passa a abrigar, inclusive, uma colônia de férias artística, para crianças de 6 a 12 anos. A programação da primeira semana termina amanhã, mas uma nova turma está programada para iniciar as atividades de segunda a sexta da semana que vem, das 13h às 17h (R$ 80 por aluno).
Também a partir de segunda o casarão realiza a Semana de Portas Abertas, com encontros gratuitos.
— A ideia é que as pessoas possam vir e conhecer o espaço — diz Analimar.
As reservas podem ser feitas pelos telefones 4124-9207 ou 98004-6814 (WhatsApp).
Entre as aulas disponíveis estão as ministradas pelo músico e professor de Língua Portuguesa Guilherme Salgueiro. Morador de Vila Isabel, ele ensina os alunos do Kizomba a tocar cavaquinho, tamborim e violão.
— Além disso, pretendo dar aulas de bateria para escolas de samba, e redação e oficinas de composição com foco em samba-enredo — comenta Salgueiro, que por cinco anos disputou sambas nas eliminatórias da Vila Isabel.
Também morador do bairro, o assistente de coreografia da Beija-Flor Fabricio Ligiero faz parte da Trupe do Experimento, que encena espetáculos infantojuvenis.
— Começamos a ensaiar na casa um pouco antes da inauguração. Fomos acolhidos pela Analimar. E esta semana começamos a ministrar aulas de teatro — relata Ligiero. — O legal do Kizomba é a ideia de abraçar essa classe que está tão sem espaço, pois as coisas estão cada vez mais inviáveis. Tentamos, por exemplo, montar uma sede no Boulevard Vinte e Oito de Setembro, mas, depois de dois anos, tivemos que desistir, por conta do alto preço do aluguel.
Analimar explica que a ideia é ampliar o leque de opções de atividades, já que o espaço passará a contar com outras quatro salas, que estão sendo preparadas para funcionar na casa.
— Tenho muitas ideias. Em agosto, pretendo realizar um workshop de xekerê (instrumento) com a Mart’nália. Penso em algum evento com o meu pai. Mas precisa ser algo muito bem planejado. Até porque aqui é para quem precisa de divulgação e espaço, o que não é o caso dele — comenta a proprietária.
Outro herdeiro da arte de Martinho e irmão de Analimar, o cantor Tunico da Vila lançará no local, em agosto, o EP “O velho de Oiá”, que inclui uma versão da música “Meu laiaraiá”, composta pelo pai, em formato de salsa.
— No evento quero reunir amigos, a imprensa e formadores de opinião, para discutirmos o projeto que estou preparando, em CD e DVD, para comemorar os 80 anos de vida e os 50 de carreira do meu pai — revela Tunico.
Para ele, o casarão se revela democrátido num momento conturbado para a cidade, onde há escassez de espaços para a classe artística.
— Assim como foi o ideal do Grupo Kizomba, fundado pelo meu pai. É o legado dele — define o músico.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo