Após título da Unesco, Cais do Valongo atrai visitantes

O reconhecimento do Cais do Valongo, na Gamboa, como Patrimônio Mundial Cultural, atraiu a curiosidade de cariocas e turistas que transformaram o local em novo ponto de visitação na cidade. Com celulares em punho, faziam selfies e fotos do sítio arquelógico, que passou décadas escondido por sucessivos aterramentos e foi revelado em 2011 durante as obras do Porto Maravilha. Muitos, no entanto, criticaram a falta de policiamento, de sinalização e até mesmo de um guia para dar orientações.

Da limpeza, não havia do que se queixar neste domingo (16). Uma equipe da Comlurb cuidava do local entre o fim da manhã e o início da tarde. Porém, no mesmo período não foi vista nenhuma equipe da Polícia Militar ou da Guarda Municipal. O advogado Almir Chaves, de 47 anos, disse que a segurança é fundamental para incentivar a visitação. Morador de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, ele já conhecia o antigo cais, mas fez questão de levar a filha Valentina, de 2 anos, e a sobrinha Isabela, de 7, para aprender um pouco mais sobre a história da escravidão no Brasil.

— O reconhecimento como patrimônio é um resgate da nossa história. O Brasil não cuida muito da sua memória. Quando acontece um fato desse, deve ser prestigiado. O problema é que não tem segurança nenhuma e ela é importante para estimular a visitação, até porque é um espaço cercado por comunidades. Só durante a semana é que a gente vê viatura da polícia, ainda assim, em frente ao Hospital dos Servidores do Estado, que é um pouco longe daqui — disse.

O engenheiro Elífio dos Santos Júnior, de 43 anos, morador de Jacarepaguá, também aproveitou o domingo para levar a família para conhecer o mais novo Patrimônio da Unesco. Acompanhado da mulher Suzane Ferreira, uma sobrinha e duas tias, fez várias fotos dos parentes e das pedras expostas, que contam um pouco do sofrimento dos milhares de negros africanos que desembarcaram no antigo porto para serem escravizados no país. O visitante também se queixou da falta de patrulhamento.

A quilombola Marilucia Luzia, que vende livros, artesanato e quitutes – Guito Moreto / Agência O Globo
— Essa área é um lugar onde as pessoas sentiam medo. Está mais tranquilo, depois da revitalização, mas não quer dizer que é seguro. Podia, pelo menos, ter um guarda municipal por aqui — sugere.

SEM PLACAS DE INDICAÇÃO

As primas paulistas Virgínia Duailibi, de 63 anos, e Nora Chap Chap, de 64 anos, aproveitaram o fim de semana de visita ao Rio para conhecer o local. As duas contaram que tiveram dificuldade para encontrar o sítio arqueológico por falta de sinalização. As turistas disseram ainda que recorreram à ajuda de um funcionário do Museu do Amanhã, na Praça Mauá, onde estiveram antes, mas no caminho não encontraram qualquer placa com indicação do antigo porto.

— Falta informação sobre a localização. Não vi placa nenhuma indicando o caminho. Isso é triste, porque esse local é muito importante para nossa cultura. E uma pedaço da nossa história que está registrado — afirmou Nora, que é economista aposentada.

Outro turista paulista, José Roberto da Silva, de 50 anos, saiu bastante impressionado do local, que resolveu conhecer depois de tomar conhecimento do reconhecimento pela Unesco no último dia 9. Mas ficou um pouco decepcionado com a falta de informações detalhadas sobre o lugar. Segundo ele, as placas que existem exibem poucos dados.

— Deveria ter um guia para orientar e informar melhor os visitantes sobre a história deste local e como era originalmente. Eu tenho muitas dúvidas e vou sair daqui com elas. Seria um atrativo a mais, principalmente para as crianças — criticou o turista, que também reclamou da falta de segurança.

As amigas aposentadas Nilza Mary de Souza, de 82 anos, e Helena Hammond, de 79 anos, moradoras da Tijuca, já conheciam o cais, mas, estimuladas pelo título da Unesco, resolveram retornar. Para as duas, a visita valeu a pena, mesmo não sendo uma novidade.

— Numa cidade que destrói sua memória em nome do progresso, é importante preservar um passado que veio à tona — afirma Nilza.

Professora do Departamento de História da Uni-Rio, Keila Grinberg desenvolveu com as colegas Hebe Mattos e Martha Abreu, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o projeto “Passados presentes”, que mapeia a herança da cultura negra no estado. A iniciativa inclui o aplicativo gratuito Pequena África, com informações sobre a região. Para Keila, o reconhecimento do Cais do Valongo como patrimônio é essencial para cultura negra.

— O Valongo tem tudo para se transformar no principal destino turístico do Brasil. É o lugar onde nossa história pode ser compreendida, junto com o Cemitério dos Pretos Novos, onde eram enterrados os que não sobreviviam à viagem da África para cá, e o Quilombo da Pedra do Sal, um símbolo da cultura e resistência negra.

A quilombola Marilucia Luzia, de 58 anos, que mora na Pedra do Sal, aproveitou o movimento para divulgar a cultura negra. Montou uma barraca no Cais do Valongo para vender livros, artesanato e quitutes.

— Queremos difundir a gastronomia quilombola. Temos aqui angu, frango com quiabo e baião de dois.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta junior
foto:Guito Moreto / Agência O Globo