Após fazer mais um sobrevoo pela Região Metropolitana do Rio, o biológo Mario Moscatelli desabafa: ‘ A sensação é de frustração’. Mestre em ecologia com foco na área de gerenciamento e recuperação de ecossistemas costeiros, ele cruza, há exatos 20 anos, os céus do estado para denunciar a degradação de matas, encostas, mangues, rios, lagoas e baías. Com uma câmera fotográfica, registra, do alto, tudo o que encontra pela frente. O cenário, no entanto, é muitas vezes desolador. Nesta segunda-feira, em mais um sobrevoo (das centenas que já fez), viu gigogas tomarem o canal das Taxas, na Barra, lixões funcionando clandestinamente em Vargem Grande e Duque de Caxias e esgoto sendo jorrado em vários pontos da cidade, principalmente em rios. Apesar de comemorar duas décadas de voos com o projeto de Olho Verde, Moscatelli também está preocupado com sua sobrevivência. Segundo ele, a empresa responsável pelo financiamento do projeto já sinalizou que não deve renovar o contrato em agosto devido à crise financeira.
— É um projeto que algumas vezes é polêmico, porque põe o dedo na ferida, mas é fundamental. É a nossa última linha de defesa ambiental que inúmeras vezes serviu para alertar as autoridades a respeito de passivos ambientais que estavam acontecendo. É um sistema de alerta que tenta se antecipar aos problemas ambientais que a gente tem visto. Através do trabalho junto com a imprensa, a gente expõe situações que a maioria das pessoas nunca saberia que estivesse acontecendo — explica.
O custo de um voo uma vez por mês na Região Metropolitana é de R$ 3,5 mil. Com o dobro do valor, dá para sobrevoar a Costa Verde fluminense até a Ilha Grande. Na tentativa de salvar o projeto, Moscatelli pretende lançar nesta semana um projeto de crowdfunding (financiamento coletivo) para custear a iniciativa.
— Foi até engraçado como o projeto surgiu. Eu estava deitado. Minha esposa estava grávida na época, esperando minha primeira filha. Eu encontrava de tudo dentro dos manguezais e queria saber de onde vinham. Pensei: ‘Vou sobrevoar a Baixada de Jacarepaguá’. Era de noite, acordei minha mulher, que só pediu para não ficar viúva, mãe de uma filha sem pai. Comecei voando de ultraleve. Depois, passar a usar helicóptero, o que aumentou minha zona de atuação — lembra Moscatelli.
Mesmo com tantas denúncias, o biólogo diz que tem poucos motivos para comemorar nestes 20 anos de projeto. Afirma que, em termos ambientais, o Rio vem piorando ao longo dos anos, mas garante ser possível recuperar áreas já degradadas. Segundo ele, basta ter força de vontade, vide os manguezais que ajuda a plantar na Baía de Guanabara, Baixada de Jacarepaguá e Lagoa Rodrigo de Freitas.
— Dá para fazer. Não foi por falta de dinheiro. Só na Olimpíada do Rio, foram gastos R$ 40 bilhões. Só no Maracanã, R$ 1,3 bilhões. O tempo passa, e não melhora. Os crimes são os mesmos. Os delinquentes, geralmente, são os mesmos. E não vemos Justiça Ambiental — critica.
Na segunda-feira, perto do esgoto proveniente do emissário submarino perto da Ilha das Cagarras, dezenas de golfinhos nadavam pelo oceano (‘Fui ver sujeira, vi golfinho’, brincou). Provas vivas da resistência, apesar de tanta sujeira.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto:Custódio Coimbra / Agência O Globo