Dia Mundial do Refugiado é celebrado com série de eventos no Rio

Formado em engenharia de telecomunicações, o sírio Anas Abdulrjab deixou seu país há dois anos para não morrer. Graças a iniciativas de entidades como a Cáritas, da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que acolhe refugiados no Brasil, ele foi inserido na vida carioca com um visto de residência temporária, ingressou no mestrado pela UFF e passou a cozinhar para amigos em Botafogo, bairro onde mora no Rio. Desses encontros, ele descobriu uma nova vocação e hoje, aos 31 anos, ocupa lugar de destaque entre chefs que vieram em situação de refúgio.
– Depois de um tempo cozinhando entre amigos, eles tiveram a ideia de vender minha comida num pequeno café (o então Café & Prosa), em Botafogo, aos sábados. Daí em diante, ampliei o cardápio e passei a atuar em eventos particulares e feiras que reúnem outros refugiados – conta Anas, que veio sozinho, em busca de proteção. – O Brasil é o único país onde é possível entrar legalmente e com visto para trabalhar. Os brasileiros recebem refugiados sorrindo.

Relatório divulgado ontem pelo ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) diz que, só em 2016, o número de refugiados, no mundo, passou de 65 milhões (mais de 300 mil em relação ao ano anterior), o maior desde 1945. Por essas e outras razões, o Dia Mundial do Refugiado, celebrado hoje, ganha uma agenda cheia de ações culturais e, claro, gourmets, no Rio ao longo da semana.

Uma delas será o jantar executado por Anas Abdulrjab e outros cinco refugiados junto com chefs da cidade no Museu do Amanhã (Praça Mauá) nesta quinta-feira. Ele e o chef carioca Elia Schramm (ex-Laguiole) assinam um dos pratos principais da noite: arroz de cordeiro assado com especiarias, coalhada de hortelã e cebola crocante.

– A gastronomia aproxima culturas. O cordeiro foi escolhido porque é muito consumido em meu país – diz o sírio, que ainda dividirá o fogão com Maria Elias El Warrack (Venezuela), Lateefat Hassan (Nigéria), Ramón Andrés Valdês (Cuba), Louise Berthe (Camarões) e Nelly Camacho (Colômbia).

Da delegação brasileira, participam também os chefs Katia Hannequim, Teresa Corção (Navegador), Katia Barbosa (Aconchego Carioca), Ricardo Lapeyere, Frederic de Maeyer, Pablo Ferreyra e João Diamante. Os ingressos podem ser comprados pelo e-mail jantartemperosemfronteiras@gmail.com a R$ 180, por pessoa.

– O objetivo é encurtar distâncias; mostrar que estamos todos no mesmo barco e precisamos nos ajudar. Além disso, mostra como é sempre bom estarmos abertos a conhecer novas culturas, com seus sabores, aromas e sons – diz a jornalista Luciana Neiva, que idealizou o jantar com a produção de Lou Bittencourt.

TEATRO, CINEMA, DEBATE E FEIRA GASTRONÔMICA

Uma oportunidade para refletir sobre a garra e a perseverança das pessoas que foram forçadas a deixar suas casas e seus países, o Oi Futuro Flamengo (Rua Dois de Dezembro 63) exibe, hoje, às 19h, o documentário “Estou com a esposa”, de Antonio Augugliaro, Gabriele Del Grande e Khaled Soliman Al Nassiry, na mostra semanal “Olhares sobre o refúgio”, em parceria com a ONU (#WithRefugees).

Realizado em 2014, o filme, projetado num telão a céu aberto, mostra como um poeta palestino e um jornalista italiano ajudaram um grupo de sírios e palestinos a seguirem em sua jornada até a Suécia. A entrada é gratuita, e as senhas serão distribuídas 30 minutos antes da sessão.

Guerras, violência, violações dos direitos humanos, perseguições e fome são os principais motivos que levam tanta gente a se deslocar – afirma Diogo Félix, um dos voluntários da Cáritas, ao comentar sobre a tão esperada e necessária reformulação da lei migratória no Brasil, sansionada este ano.

– Ela substitui a anterior, do regime militar, que enxergava o refugiado como uma ameaça. Trata de garantir o direito à justiça, educação, saúde, programas sociais, previdência social e serviços básicos, como a bancarização – informa.

O impacto da Nova Lei de Migração Brasileira sobre o refúgio no país é tema de debate gratuito promovido na Fundação Casa de Rui Barbosa (Rua São Clemente 134, Botafogo) na sexta, das 14h às 18h.

– O Brasil é muito peculiar neste sentido, pois, ao mesmo tempo que aprova esta lei acolhedora – diferente de muitos países europeus que hostilizam o refugiado – e não oferece dificuldades em relação a vistos, vive uma crise econômica e política que, invariavelmente, reflete no dia a dia do refugiado. A maioria deles que é dentista ou dona de restaurante em seu país de origem, aqui, não chegam nem a garçom – afirma Luciara Motta, coordenadora do programa Chega Junto, criada há quase dois anos para contemplar a gastronomia feita por refugiados e famílias de imigrantes na capital fluminense.

Já conhecida na agenda carioca, a feira Chega Junto, que ocorre mensalmente no mesmo espaço da Junta Local, reúne 20 barracas de comidinhas de 15 países, entre eles a Síria, representada por (olha ele aí!) Anas Abdulrjab, que vende kibes (três por R$ 10) e pequenas porções de pratos como fatteh (berinjela assada no melado de romã com carne a R$ 15) e cuscuz líbio (R$ 15).

Totalmente sustentável, a Chega Junto vai ganhar uma edição especial, ampliada e inédita no Parque das Ruínas (Santa Teresa) no próximo sábado. Trata-se da Rio Refugia que, além das comidinhas variadas, terá debates (a partir das 13h30m), recreação infantil (oficinas de culinária e mandalas) e atrações musicais. Um grupo de congoleses, sem nome, se apresenta às 15h, e, nos intervalos, o haitiano Bob Martinar assume as picapes com ritmos caribenhos.

– Esta será uma edição especial em função da data, mas também em acordo com o que pretendemos para o projeto daqui para frente: integrar e não rotular: refugiados, celebrando o encontro e a troca cultural. O público será diferente do da feira na Zona Sul, vamos levar famílias de refugiados que moram mais distantes, por exemplo, para provarem das comidas feitas por outros refugiados e, assim, sentirem-se representados.

Ainda segundo o relatório emitido ontem pela ONU, o número total de solicitações de refúgio no Brasil cresceu quase 3.000% entre os anos de 2010 e 2015, passando de 960 solicitações para 28.700. A tendência é de que esta quantia aumente. O primeiro desafio do refugiado, como destaca o tradutor Marcelo Lino, é a língua e depois o desemprego.

– São situações diferentes das dos avós que vieram para o Brasil. Já chegam de uma forma vulnerável. Tem muitas histórias interessantes e aterradoras também. Infelizmente fala-se pouco principalmente dos refugiados que não são do Oriente Médio. Os africanos e sul-americanos são maioria no Rio e nada conhecemos deles nem dos motivos de seus refúgios – alerta o tradutor.

A questão do refúgio tem ganhado a cada vez mais significado na produção cênica brasileira, como pode ser conferido no palco do teatro Candido Mendes (Joana Angélica 63, Ipanema), onde voltou a cartaz a peça “Brimas”, dirigida por Luiz Antônio Rocha. Inspiradas em suas avós, as autoras e atrizes Beth Zalcman e Simone Kalil encenam as histórias reais de suas famílias, vindas do Egito e Líbano.

A Alemanha e os EUA são os países que mais recebem pedidos (solicitações de asilo), seguidos da Itália e Turquia. Entretanto, são os países em desenvolvimento que mais recebem refugiados.

Entre os que mais recebem, Turquia, Paquistão, Líbano, Irã e Brasil, nesta ordem. No Brasil, em 2016, chegaram 9689 refugiados, dos 35.464 pedidos.

Os países de origem que têm mais refugiados são Síria (5,5 milhões), Afeganistão (2,5 milhões), Sudão do Sul (1,4 milhão) e Somália (1 milhão).

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Divulgação