Cervejas da Zona Sul apostam em moda e eventos culturais

Com um público cada vez mais exigente e a concorrência que cresce a cada dia, uma nova geração de marcas de cervejas especiais criadas na Zona Sul vem investindo em muito mais do que apenas na qualidade da bebida em si. A aposta é também na construção de identidades conceituais que unem moda e cultura, além de agitar o calendário da cidade com uma série de eventos (boa parte deles gratuita). As empresas têm em comum o fato de terem sido criadas por amigos, que, além de apaixonados por cerveja, não abrem mão de uma boa confraternização.

Um dos expoentes desse movimento é a Jeffrey, marca criada em 2012 por quatro companheiros de infância:

— Nunca quisemos ser apenas uma marca de cerveja, mas uma linha de produtos para momentos especiais. Nosso negócio é lidar com a memória afetiva do cliente. Quando criamos a marca, imaginamos situações como um músico compondo um grande sucesso e tomando a Jeffrey ou um casal brindando o noivado com a cerveja — conta Gilson Val, sócio ao lado dos amigos Eduardo Brand, Renato Monteiro e Raphael Bloise.

Há três anos, a empresa abriu uma loja-conceito na Rua Tubira, no Leblon. O espaço foi o pontapé inicial para a criação de um polo gastronômico cultural na região, antes ocupada basicamente por oficinais mecânicas. Além de exposições de arte mensais, a Jeffrey Store vem promovendo uma série de eventos gratuitos na rua. O último foi a festa de aniversário de três anos da loja, em maio, que reuniu shows e food trucks durante todo o dia.

— A ideia era ter na loja tudo aquilo que mais gostamos para poder compartilhar com o público. No segundo andar, fica o laboratório experimental, onde criamos cervejas ao lado de convidados especiais. Já participaram nomes como os chefs Roberta Sudbrack, Thomas Troisgros, Pedro de Artagão, o ator Rafael Cardoso e o artista plástico Carlos Vergara — comenta Val.

A marca conta hoje com três unidades fabris e é vendida em 15 estados brasileiros. A produção mensal gira em torno de 450 mil garrafas, divididas entre os tipos Jeffrey Niña e Jeffrey Red Pilsen.

Outra cerveja nascida na Zona Sul que vem conquistando uma legião de fãs é a Praya. A ideia original foi do surfista Marcos Sifu, que transformou a sua cozinha no Leblon num laboratório experimental para a criação da bebida.

— Estava em uma festa na Califórnia e soube que a cerveja servida era fabricada em casa. Eu não fazia ideia de que isso era possível. Voltei para o Brasil decidido a me aventurar — lembra Sifu.

Durante o processo de aprendizado e experimentações, outros amigos foram dando sugestões para que ele aprimorasse a fórmula. O resultado deu tão certo que o que era apenas um hobbie virou projeto de vida. Ao lado dos amigos Tunico Almeida, Duda Gaspar e Paulo de Castro (o conhecido DJ ZehPretim), o negócio tomou forma e a Praya teve seu primeiro lote vendido em janeiro de 2016.

— Em apenas um ano, a produção caseira, que girava em torno dos 20 litros, cresceu para 15 mil litros e atualmente é distribuída em mais de 600 pontos do Rio de Janeiro, com apenas um rótulo. A previsão é que, até o fim do ano, nossa produção chegue a 50 mil litros por mês — conta Almeida.

A marca também investe em eventos como campeonatos de surfe e exposição fotográfica com imagens da orla da cidade batizada de “Um olhar da Praya”. E desde o início deste mês, é possível comprar produtos como chaveiros, bonés, porta-copos, ecobags, placas decorativas e kits com garrafa de cerveja e taças na loja virtual da Praya.

PRODUÇÃO DIVERSIFICA RÓTULOS

Já vendida no Rio, em São Paulo e em Brasília, e iniciando operações na Bahia e em Belo Horizonte, a Three Monkeys é uma iniciativa de jovens que compartilham desde a adolescência as paixões por viagem e cerveja. Um deles, Leo Gil, morou por alguns anos na França, onde uma de suas maiores diversões era encontrar os amigos num bar belga para tomar cervejas especiais.

— Quando voltei para o Rio, tinha muita dificuldade para encontrar bebidas de qualidade. Foi quando decidimos entrar num curso para aprender a produzir a nossa própria cerveja. Fomos melhorando a receita durante mais de um ano e pedindo para outros conhecidos degustarem. Mas chegou um ponto em que a demanda cresceu demais e vimos que era hora de abrir um negócio — afirma Gil, sócio ao lado de Filipe Oliveira, Bernardo Costa, Luiz Felipe Fernandes e Antônio Pedro Pedroso.

Lançada em 2013 com uma festa no Teto Solar, em Botafogo, a marca já conta com dez rótulos em bares e mercados, e lança nesta quinta-feira (8), em evento na Tijuca, a sua décima primeira cerveja: a Milky Way Ipa, uma novidade que leva lactose e baunilha.

Entre as opções, há a linha Jam Sesssion, composta por três cervejas: Wheat Coast Jazz, Indie Pale Ale e Rock Shout. Elas foram lançadas em dezembro do ano passado na primeira edição do festival Monkey’s Music Festival, evento gratuito que atraiu cerca de três mil pessoas na Lagoa Rodrigo de Freitas, com atrações de rock e jazz.

— Quando começamos, estavam sendo organizados muitos eventos cervejeiros na cidade. Participamos de todos eles, e, naturalmente, surgiu a ideia de fazer os nossos próprios rótulos. O objetivo é que o festival seja anual e se torne parte do calendário cultural da cidade — conta Gil.

A produção mensal da Three Monkeys gira em torno de dez mil litros, e, de acordo com os sócios, há um calendário com novos lançamentos programados até o fim do ano, o que fará com que a produção cresça. A marca é, também, uma das pioneiras na venda de camisas, bonés e copos personalizados por meio da loja virtual.

— Isso é muito comum no exterior. As pessoas querem não só tomar o produto, mas vestir a marca, seja com bonés e camisas ou um copo especial. Isso faz parte da experiência e é algo que trouxemos desde o nosso lançamento — conclui Gil.

Já a 3Cariocas, com sede no espaço de co-working Templo, na Gávea, surgiu a partir de um blog criado pelos amigos Eduardo Diehl e João Gabriel Reis sobre cervejas especiais. Cada vez mais populares na rede e imersos nesse universo, eles chamaram outro amigo, João Filipe de Souza Rangel, e decidiram abrir a própria cervejaria, que entrou no mercado em 2014. Hoje, a marca conta com 11 opções de bebidas, sendo seis de linha (com produção contínua), três sazonais (produzidas em média de três em três meses) e duas da linha 3Carioca Reserva, que são cervejas envelhecidas. Por mês, eles produzem entre oito mil e dez mil litros da bebida.

— Fazemos eventos mensais no Templo. No dia próximo dia 1º, por exemplo, será a nossa festa junina, a partir do meio-dia, com entrada gratuita — conta Rangel.

Marca 3corações surgiu a partir de um blog entre amigos – Divulgação/Renata Vaz
Em Copacabana, há dez meses a Seu Vidal ocupa uma loja na Rua Ronald Carvalho com sanduíches variados, uma pizza feita com massa de pão de queijo e cerveja própria própria no estilo kristallweiss, com malte de trigo levemente frutado, lembrando banana e cravo. A receita é assinada pelo beer sommelier José Raimundo Padilha.

— A marca nasceu com a ideia de ter uma cerveja própria. Como também somos uma sanduicheria, a cerveja não poderia ser pesada e encorpada, pois a ideia é harmonizar a bebida com a comida — conta Pedro Vidal, um dos sócios, ressaltando que a produção atual gira em torno de 1.500 litros.

O projeto tem por trás, além de muita amizade, laços de sangue. Comandada pela família Vidal, a marca ganhou o nome como uma homenagem ao patriarca, Silvério. Na loja, os clientes também podem comprar camisas e ecobags personalizadas. A marca se prepara, ainda, para realizar em agosto sua primeira festa, chamada “Seu Vidal — O poder do bigode”. O local e os detalhes ainda não foram confirmados.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo