O som da viola ao fundo anuncia que mais um sucesso vai ser ouvido. Difícil é encontrar alguém que não acompanhe a letra da música, provavelmente um hit de Maiara e Maraísa, Jorge e Mateus ou outro nome consagrado no mercado musical. A cena se repete cada vez mais em bares, quiosques, restaurantes e boates da Barra da Tijuca que têm o ritmo como carro-chefe ou uma de suas atrações principais. A reabertura do Padano, agora com o aposto Sertanejo e Bar, faz do bairro, definitivamente, a melhor rota para os fãs da sofrência. Os profissionais da noite confirmam: sim, a Barra é sertaneja. Aproveitando o ensejo, vale dizer que nos próximos dias tem Henrique e Juliano no Barra Music (quinta-feira, dia 25) Zezé di Camargo & Luciano na Ribalta (sexta-feira, dia 26) e Maiara e Maraísa no Metropolitan (sábado, dia 27).
No restaurante Dom Hélio já é tradição: às sextas e aos sábados, a atenção dos clientes fica dividida entre a vitrine de carnes e a dupla Adriano e Mateus. O palco, que fica na área externa, recebe atrações musicais em todos os dias de funcionamento, mas a casa fica cheia mesmo quando toca o som do sertão.
— Costumamos fazer reserva nos outros dias da semana, mas na sexta-feira não dá, porque a casa fica muito concorrida. À medida que vai se aproximando o fim da noite, os clientes começam a se levantar de suas mesas e o restaurante vira praticamente uma pista de dança. Dá para ver que todos gostam muito — conta o proprietário, Hélio Borba.
Uma das frequentadoras assíduas é a advogada Michele Coelho dos Santos. Ela conta que é raro não iniciar o fim de semana ouvindo o estilo:
— Todas as sextas eu estou no Dom Hélio; às vezes venho mais de uma vez por semana. É tudo o que a gente quer: sertanejo e um bom vinho ou cerveja, porque esse estilo combina com tudo. É meu ritmo preferido — afirma a moradora da Barra, que também gosta de aproveitar os sucessos de artistas como Marília Mendonça e Wesley Safadão quando está na balada. — Outro lugar que eu frequento é o Vitrinni Lounge Beer, que tem uma festa sertaneja todas as sextas.
O recém-inaugurado Padano Sertanejo e Bar engrossa a lista de lugares para se ouvir música com energia interiorana. O estabelecimento, decorado para agradar a quem quer se sentir como um boiadeiro em plena capital fluminense, funciona de quarta a domingo e é dedicado exclusivamente ao gênero. Há inclusive uma noite do karaokê, às quintas, para os que gostam de soltar a voz. A ideia de transformar o restaurante num pub caipira foi do produtor Carlos Alberto de Castro, um dos sócios na nova gestão. Ele conta que percebeu uma lacuna no mercado, e achou que o ambiente do antigo restaurante já estava pronto para acolher o tema.
Carlos Alberto de Castro é um dos sócios do Padano Sertanejo e Bar – Marcelo Theobald / Agência O Globo
— Essa é a primeira casa 100% sertaneja do Rio de Janeiro, algo que a cidade estava querendo há muito tempo. Nós sabíamos disso, e, quando vi a decoração rústica do Padano, tive certeza de que era esse o seu destino. O fato de termos capacidade para 300 pessoas e estarmos lotando direto comprova que o entretenimento carioca carecia de um espaço assim — observa.
Outro ponto destacado por ele como razão do sucesso é a localização:
— Não acredito que um bar assim funcionaria tão bem em outro bairro da cidade. A Barra tem um estilo próprio, que abraça muito bem o circuito sertanejo.
Quem concorda com ele é a funcionária pública Patrícia Azevedo, que escolheu o Quiosque Pesqueiro Eco Gourmet para comemorar seu aniversário com parentes vindos da Bahia especialmente para a data. A carioca conta que, antes de apresentar seus convidados à Lapa, um dos pontos turísticos mais famosos do Rio quando o assunto é noitada, fez questão de levá-los ao bar à beira-mar.
Há cinco anos, o quiosque na Reserva apresenta shows de duplas sertanejas às sextas-feiras. Segundo o gerente Daniel Souza, é o dia da semana com o maior número de clientes.
UM GÊNERO QUE ACOLHE OS OUTROS
O Spotify, um dos principais serviços de música em streaming do mundo, anunciou: em 2016, quatro dos artistas mais reproduzidos por brasileiros na plataforma eram do segmento sertanejo. Apesar de a lista apresentar nomes capazes de arrastar multidões, como o da dupla Henrique e Juliano, o público fiel ao gênero é receptivo também a quem está começando. O mercado de entretenimento carioca acompanha esse movimento e é visto como promissor por talentos de todas as partes do país.
O cantor Nando Luiz já está acostumado com os gritos dos fãs quando sobe ao palco, mas nem sempre foi assim. Primeiro, a atração principal de todas as sextas-feiras do Padano Sertanejo e Bar, teve de deixar sua cidade natal, Ibirarema, no interior de São Paulo, um dos berços da música caipira.
— Um produtor musical me disse que o sertanejo estava indo bem no Rio. Embora ele seja muito forte no interior de São Paulo, é difícil sobreviver de música por lá. Decidi vir e ficar um mês para ver como seria a recepção da cidade, e só voltei à casa dos meus pais para avisar que estava me mudando em definitivo para cá. A cidade me abraçou e encontrei espaço para crescer — revela o cantor, que faz uma média de cinco shows por semana. — A Barra é 100% sertaneja; todas as grandes boates têm o estilo na sua programação.
Parte da dupla que toca no Dom Hélio, Mateus Bastos também viu no mercado carioca uma oportunidade de mudança radical. Roqueiro de carreira, ele foi apresentado ao ritmo roceiro e trocou, sem preconceito, a guitarra por uma viola e a camisa de flanela.
— Sempre fui músico de rock, mas conheci o Adriano e ele me colocou na vida sertaneja. Foi uma mudança muito positiva, cresci musicalmente e como ouvinte também. O sertanejo tomou conta do país, e é um estilo que aceita diferentes gêneros — define.
Assim como Mateus, o músico e produtor Betin, voz e violão que abre todas as noites do Padano Sertanejo e Bar, também transita entre outros estilos musicais com apresentações em diferentes casas noturnas. Mas é no universo caipira que vê as maiores oportunidades:
— No Rio de Janeiro, o sertanejo é muito forte e isso está ficando ainda maior. Muitos artistas grandes querem fazer show aqui.
Figura carimbada no bar onde Nando Luiz se apresenta, a ex-paquita Cátia Paganote tem parte da sua renda gerada por apresentações temáticas inspiradas nos embalos da década de 1980, mas, na hora de se divertir, assume que a escolha é outra:
— Acredito que existia uma resistência no carioca em abraçar novos ritmos, mas hoje não existe mais. Eu sou como a maioria dos brasileiros, e me entreguei de vez ao sertanejo. Acho que sua característica mais marcante é ser democrático.
Assim como a ex-companheira de Xuxa, a funkeira Andressa Soares, conhecida como Mulher Melancia, também vê em outro estilo musical uma opção para ganhar a vida, mas, nos momentos de lazer, opta pelas músicas de sofrência e garante sua mesa no Quiosque Pesqueiro. Como ela, as amigas Milena Gigante e Karine Mekyse marcam presença no local às sextas-feiras, e não economizam voz quando ouvem canções do repertório de Henrique e Juliano.
— Eu adoro noites sertaneja, este é sem dúvida um bom motivo para frequentar bares — comenta Karine.
Outro local que garante farra ao melhor estilo sertanejo é a boate All In, sede da festa Sertanejo Top todas as quinta-feiras. Segundo um dos produtores da festa João Monteiro, há duas marcas que contam positivamente para o estilo ganhar cada vez mais espaço:
— O estilo sertanejo se tornou eclético, agrupando diferentes ritmos. Em uma festa temática, há espaço para misturar bastante. Sem contar que, em geral, o fã de sertanejo é muito tranquilo e só quer sentir a energia da música. O objetivo é sempre se divertir, não há espaço para brigões —ressalta Monteiro.
Devido ao sucesso, ele planeja levar a festa Sertanejo Top para fora da boate em uma edição especial, que terá shows de grandes nomes do gênero.
ALL IN
Avenida Armando Lombardi 483, Barra. Tel.: 2493-5578. A boate sedia a festa Top Sertaneja às quintas, a partir das 23h. Com nome na lista do site, até meia-noite mulheres entram de graça e homens pagam R$ 30; depois, elas pagam R$ 20, e eles, R$ 50. Sem nome na lista, os preços são R$ 40 (mulheres) e R$ 80 (homens).
DOM HÉLIO
taúna Shopping, Avenida das Américas 11.391, Barra. Tels.: 2499-5766 e 2499-5781. – Adriano e Mateus se apresentam às sextas e aos sábados, a partir das 20h30m. O couvert artístico é opcional e custa R$ 5.
PADANO SERTANEJO BAR
Avenida Erico Verissimo 821, Barra. Tel.: 96947-0018. De quarta a sábado, das 18h às 2h; e domingos, das 15h à 1h. Couvert artístico a R$ 10.
QUIOSQUE PESQUEIRO ECO GOURMET
Avenida Lucio Costa, ilha 25, Reserva. Tel.: 3128-0762. Promove noites sertanejas às sextas, a partir das 22h. O couvert artístico é opcional e custa R$ 10.
VITRINNI SERTANEJA
Avenida Armando Lombardi 421, Barra. Tel.:3939-4245. Tem festa sertaneja todas as sextas, a partir das 22h. Com nome na lista do site até meia-noite, mulheres pagam R$ 30, e homens, R$ 60. Depois desse horário, os preços são R$ 40 (mulheres) e R$ 80 (homens). Sem nome na lista, mulheres pagam R$ 50, e homens, R$ 100.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo