Quadros com cores fortes enfeitam as paredes do apartamento de Dalton Sampaio, na Barra. As 11 telas com obras de Vincent Van Gogh podem parecer meras reproduções se os olhos não correrem a tela em busca da assinatura. Próximo à margem, o observador atento encontrará o nome do aposentado, que se define como um admirador, acima de tudo, da arte do pintor holandês.
Recriar as telas, conta Sampaio, foi umas formas que ele encontrou de passar o tempo quando se aposentou, em 2005, após passar 36 anos numa empresa multinacional, onde, entre outros cargos, ocupou o de diretor de marketing. O desenho era uma paixão de infância, nunca aperfeiçoada em cursos ou aulas. Mesmo assim, Sampaio, de 79 anos, só precisa ver o quadro — em miniatura mesmo, estampado numa capa de agenda, por exemplo — para reproduzi-lo:
— O que eu preciso é estar com vontade de pintar. Quando faço os quadros, fico aqui na varanda, à noite, sozinho. Tenho o dom de desenhar. Eu queria ser engenheiro para fazer casas, vivia desenhando. Minha primeira formação é em estatística, porque amo matemática. Em alguma medida, conceitos como perspectiva e ampliação devem me ajudar hoje.
O aprimoramento, diz ele, vem por meio de leituras sobre cores e técnicas, da aplicação de camadas de tinta à adaptação do tamanho. O passatempo deu a Sampaio o apelido de Van Dalton entre a família e os amigos, alguns poucos, presenteados com as pinturas. Enquanto Van Gogh é conhecido por não ter feito sucesso em vida, tendo vendido somente um quadro, Sampaio se mantém fora do mercado por pura opção. Ele garante que não quer expor ou botar as telas à venda:
— Eu olho para a foto de alguns quadros que pintei e me pergunto para onde eles foram. Eu gosto de saber onde estão. Não sei se é a razão pela qual eu não os vendo. Não sei explicar.
As paredes da casa têm obras como “A colheita”, “O café à noite”, “Les alyscamps” e “A Ponte de Langlois em Arles”, cada uma feita em menos de três meses. Sampaio chegou a consultar um amigo advogado para saber se teria problemas em vendê-las. Por assinar o próprio nome e se permitir modificações, como “consertar a perspectiva” do quadro “Quarto em Arles”, pintado por Van Gogh em 1888, as releituras, por mais perfeitas que sejam, não seriam consideradas falsificações, explicou-lhe o especialista. Mas Sampaio encontra outro motivo para resistir à venda: o valor emocional.
— Faço os quadros pelo prazer de pintar. Como se cobra talento? — questiona.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Carolina Callegari