Sem barca social de Charitas para o Rio, motoristas ficam engarrafados na hora do rush

O Relatório de Impacto Ambiental (Rima) feito antes do início das obras da Transoceânica alertava: sem redução do valor da tarifa dos catamarãs (ou barcas) que ligam Charitas à Praça Quinze, tornando economicamente viável a integração do modal com o corredor exclusivo para ônibus, o projeto da nova estrutura viária apenas alteraria o ponto de saturação do trânsito. É o que tem acontecido desde segunda-feira, primeiro dia útil de funcionamento do túnel Charitas-Cafubá, na hora do rush da manhã. O congestionamento que antes começava a partir da Avenida Presidente Franklin Roosevelt, em São Francisco, em direção ao túnel que liga o bairro a Icaraí, agora virou um engarrafamento que se estende até as avenidas Quintino Bocaiúva e Prefeito Sílvio Picanço, transformando o cenário na orla de São Francisco e Charitas. A prefeitura anunciou que colocará mais 15 agentes na região e instalará, nas próximas semanas, sinais inteligentes no trecho que liga os dois túneis e na Avenida Franklin Rooselvelt. Especialistas ouvidos pelo GLOBO-Niterói dizem que a única solução definitiva para o novo gargalo é a integração de barcas com ônibus.

— O sistema de transporte não foi implantado como um todo. Só com as barcas operando de forma integrada com os ônibus, com tarifa acessível, será possível acabar com o engarrafamento — atesta Ronaldo Balassiano, engenheiro de transportes e professor da Coppe/UFRJ.

O prefeito Rodrigo Neves ressalta que o túnel não resolve os problemas de mobilidade de Niterói e diz que o saldo da primeira semana é positivo, minimizando os transtornos ocorridos pela manhã:

— A funcionalidade (do túnel) no horário da tarde se cumpriu. As pessoas levaram 25 minutos do Centro até a Região Oceânica, ganharam uma hora por dia, um impacto significativo na vida delas.

Na ida para o trabalho — o maior fluxo ocorre entre as 7h40m e as 9h —, o auditor contábil Fernando Martins, morador de Itaipu, reforça que não houve mudança no tempo do trajeto:

— O tempo que eu perdia no gargalo do Parque da Colina, agora perco na orla de São Francisco. Desde segunda-feira tem sido assim, todos os dias, até hoje (ontem).

Na segunda-feira, O GLOBO-Niterói fez um teste para avaliar o impacto da nova via na vida dos motoristas. O ponto de partida de quatro repórteres foi o Itaipu Multicenter. Às 8h25m, dois saíram de carro em direção à esquina das avenidas Presidente Roosevelt com Quintino Bocaiúva, próximo ao Mc Donald’s, em São Francisco — um fez a rota Pendotiba-Largo da Batalha e outro foi pelo Cafubá, via túnel. O percurso durou quase o mesmo tempo; dois minutos a menos para o que foi pelo caminho antigo (55 minutos, chegando às 9h10m). O que seguiu pelo túnel levou 57 minutos, chegando às 9h12m, devido ao congestionamento na Quintino Bocaiúva. O trânsito dentro da galeria estava livre.

A Avenida Prefeito Sílvio Picanço passou a receber muitos veículos diariamente com destino ao Centro – Analice Paron / Agência O Globo
Outros dois repórteres, às 8h20m, embarcaram em ônibus no ponto em frente ao shopping — um na linha 46 (via Largo da Batalha) e o segundo no 39B (via túnel). Este precisou pegar outro ônibus até o ponto de encontro. Ambos chegaram no mesmo horário, às 9h15m, 55 minutos depois.

Walber Paschoal da Silva, doutor em engenharia de transportes e professor da UFF, diz que a principal falha do projeto foi não ter priorizado o transporte coletivo:

— Está se dando uma prioridade grande ao veículo de passeio, com túnel e o estacionamento subterrâneo (que será inaugurado mês que vem em Charitas). A única solução são barcas com tarifa acessível, é um transporte coletivo, de massa, que, se tiver qualidade, mais pessoas vão usar.

Rodrigo Neves diz que o corredor BHS da Transoceânica (previsto para ser inaugurado no primeiro trimestre de 2018) privilegia o transporte público. Para agora, ele anunciou a criação de uma nova linha de ônibus, de Pendotiba a Charitas, e a intenção de estender o trajeto das linhas 38B e 39B (via túnel) até o Centro.

— Vamos aperfeiçoando o sistema. A última segunda-feira de manhã já não foi a mesma (das outras manhãs de segunda), na terça (o trânsito) foi melhor e na quarta também. Na próxima semana vai melhorar ainda mais — aposta o prefeito.

ALERJ DISCUTE REDUÇÃO DE TARIFA

Na Alerj, continua a discussão para reduzir por força de lei a tarifa do catamarã de Charitas, hoje estipulada em R$ 16,50. De autoria dos deputados Comte Bittencourt (PPS), Flávio Serafini (PSOL), Gilberto Palmares (PT) e Waldeck Carneiro (PT), o Projeto de Lei 2.555/2017 foi protocolado na casa em 4 de abril. O texto propõe que a tarifa de livre fixação pela concessionária do serviço não ultrapasse o dobro da tarifa social (hoje de R$ 5,80). Caso a lei estivesse valendo hoje, portanto, a tarifa de Charitas seria, no máximo, R$ 11,80.

Se for aprovada, a mudança só valerá quando a próxima concessionária assumir o serviço (um novo modelo de licitação está sendo elaborado pela Secretaria Estadual de Transportes). Desde o ano passado, a CCR Barcas, atual administradora, manifestou desejo de abandonar a operação do transporte aquaviário, alegando prejuízos.

Rodrigo Neves considera “inexorável” a redução da tarifa:

— Estamos reivindicando junto ao estado uma tarifa mais acessível, entre R$ 9,50 e R$ 10. É algo que vai mudar a vida de muita gente. (Colaboraram Fábio Teixeira, Igor Mello e Renan Almeida)

TRÂNSITO PESADO EM RUAS INTERNAS

Bairros que passaram a receber os veículos que vêm da Região Oceânica, pelo novo túnel, em direção ao Centro, tiveram sua dinâmica alterada esta semana com a abertura das galerias. As ruas internas de São Francisco e Charitas, estreitas e, até então, pouco movimentadas, agora absorvem, pela manhã, um fluxo de carros a que não estavam habituadas. Para lá vão motoristas que tentam desviar do congestionamento das avenidas Silvio Picanço e Quintino Bocaiúva. A Rua Goitacazes, paralela à orla de São Francisco, passou a funcionar como uma espécie de via binária.

A mudança surpreendeu os moradores, que reclamam do impacto causado pelo tráfego.

— As ruas Goitacazes e Timbiras têm engarrafado diariamente. O trânsito de manhã está igual ao das ruas internas de Icaraí e Santa Rosa. A qualidade de vida dos moradores do bairro piorou com esse impacto, que causa mais poluição do ar e sonora. É necessário organizar o trânsito em São Francisco e em Charitas, já que essa região, desde a inauguração do túnel, tornou-se de passagem — avalia a vice-presidente do Centro Comunitário de São Francisco, Marinice Machado.

Doutor em engenharia de transportes e professor da UFF, Walber Paschoal da Silva diz que as ruas internas dos dois bairros não estão preparadas para o movimento intenso iniciado esta semana.

— Foi gerado um tráfego de passagem para as vias locais que tinham apenas a função de servir aos moradores dali. Se é via local, ela não pode ser tráfego de passagem, até porque o uso do solo previsto paras elas não foi direcionado para tráfego de passagem. Nesse caso, até o pavimento tem que ser diferente; (o fluxo intenso) desgasta a infraestrutura urbana — aponta o especialista.

Na reunião da última quarta-feira, entre o secretário municipal de Urbanismo e Mobilidade, Renato Barandier, e síndicos e comerciantes de São Francisco e Charitas foram discutidas as providências que serão tomadas para diminuir o impacto do funcionamento do túnel. No encontro, Barandier pediu calma para ajustar a circulação viária e garantiu que até a semana que vem a situação estará normalizada com o reforço de agentes de trânsito e a conclusão dos testes nos sinais luminosos inteligentes que já estão instalados nas avenidas Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa e Silvio Picanço. Ele sugeriu ao vereador Leandro Portugal, que também participava da reunião, fazer uma solicitação na Câmara para instalação de fiscalização eletrônica de velocidade nas ruas internas de Charitas.

Barandier relacionou os engarrafamentos ocorridos segunda e terça-feira à dificuldade de acesso à Ponte Rio-Niterói. Ele adiantou que está sendo feita contagem de tráfego em todas as vias de acesso à Ponte para se chegar a uma conclusão mais sólida e mitigar os problemas.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo