O aumento da violência tem mudado a rotina de estudantes e professores de Niterói. Na UFF, os calouros até recebem dos veteranos uma espécie de manual de instrução de como lidar com a insegurança no caminho para as aulas. Na última segunda-feira, um grupo de estudantes foi roubado na calçada próxima ao campus do Valonguinho. No Barreto, professores da Escola Técnica Henrique Lage, da Faetec, passaram a bloquear portas com pedaços de madeira para evitar que voltem a ocorrer invasões como a de janeiro, quando materiais de informática foram roubados. Na unidade, a segurança é afetada ainda mais pela crise do Estado: parte dos vigias, com salários atrasados, não está trabalhando.
— A crise está afetando toda a rede da Faetec, mas, no campus Niterói, o problema da violência é mais grave. A escola foi invadida, e arrombaram todas as salas de informática. Não tem segurança alguma no campus, que está completamente deserto. Tudo está sendo fechado, e estamos tentando bloquear as portas de acesso para preservarmos o que ainda existe. O Centro Cultural está com as trancas reforçadas — contou um professor, que pediu para não ser identificado.
Sem dar detalhes, a direção da Faetec do Barreto disse que parte do que foi levado pelos bandidos em janeiro já foi recuperada. A escola confirma que na ocasião não havia segurança, mas garante que, desde o mês passado, vigias de patrimônio trabalham “na unidade nos dois turnos”.
Na Escola Técnica Henrique Lage, da Faetec, invadida por ladrões, porta é travada com tora de madeira – Foto do leitor
A Rua Guimarães Júnior, onde fica o Henrique Lage, é deserta, e andar pelo local é considerado uma aventura perigosa pelos alunos. Estudante de edificações, Luiz Arthur Barbosa diz que só passa por ali em grupo e que a circulação estudantes no trajeto até as ruas Doutor March e General Castrioto atrai a atenção dos criminosos.
— Desde o ano passado pararam de servir almoço na escola, e temos que sair para comer e voltar nos dias em que temos aulas nos dois turnos. Na quarta-feira passada (dia 29), três amigos meus foram roubados na esquina do parquinho (na interseção com a Rua Luiz Palmier). Dois bandidos de moto os abordaram e levaram seus celulares — conta o jovem, que mostra dois aparelhos, um smartphone e outro de antiga geração, segundo ele, para entregar ao bandido caso sofra um assalto.
Entre os estudantes da UFF, as práticas para fugir dos assaltos são passadas aos calouros logo que eles ingressam na universidade. A aluna Beatriz Fernandes, que cursa Produção Cultural no Instituto de Arte e Comunicação Social (Iacs), na Rua Professor Lara Vilela, em São Domingos, conta que as recomendações vão desde o melhor caminho a ser feito de um campus a outro até orientações de pontos de ônibus mais seguros para esperar a condução.
— Temos um grupo de WhatsApp que usamos para trocar as informações e nos reunirmos, para estarmos sempre em grupo — diz ela, que relatou à reportagem ter visto um assalto a um grupo de estudantes há duas semanas, na Rua Professor Lara Vilela. — A sensação é de impotência. Vi e não pude fazer nada, porque iam perceber a minha presença e me roubar também.
Na última terça-feira, O GLOBO-Niterói acompanhou o movimento de entrada e saída dos alunos nos campus da UFF de Gragoatá, Valonguinho e Praia Vermelha, nos turnos da tarde e da noite. Não havia policiamento na região, assim como na saída do turno da manhã, na Faetec.
Segundo o comando do 12º BPM, o patrulhamento é feito de forma dinâmica, “através de rondas em viaturas e baseamento em pontos estrategicamente definidos e alinhados de acordo com o horário de maior incidência de ocorrências para coibir ações criminosas na área, além de motos, ações preventivas no Ingá, no Centro e no Barreto”.
Há ainda, no entorno da UFF e da Faetec, “operações periódicas de acordo com dados da mancha criminal”, diz, em nota, a PM. Segundo a direção da Faetec, o 12º BPM criou um conselho de segurança escolar para ouvir as reclamações de segurança e atuar conforme a demanda. A UFF foi procurada, mas não quis comentar a ocorrência de assaltos no entorno dos campus.
EM SÃO GONÇALO, ESTUDANTE É PEGO COM ARMA DE BRINQUEDO
Um estudante de 14 anos assustou professores e alunos da Escola Municipal Alberto Torres, em São Gonçalo, ao sacar da mochila uma réplica de pistola. Incapaz de disparar uma bala, o objeto acertou em cheio uma discussão antiga dos professores: a violência escolar. São Gonçalo não tem, hoje, um cadastro de cada ato de violência, mas ela impacta a rotina a ponto de uma unidade, no Anaia Pequeno, estar fechada por conta da criminalidade.
— Vemos a educação como ação preventiva, mas como fazer isso se os professores não podem chegar à escola? — indaga a professora Maria Verônica Peres, superintendente de orientação educacional da Secretaria de Educação. — E ações desse tipo devem aumentar por conta da precarização que vemos desde o fim do governo Dilma.
Maria se refere aos cortes de programas como o Mais Educação. Em São Gonçalo, o projeto que mantinha os alunos nas escolas pelo dobro do tempo encolheu de 106 para 68 escolas.
Professora da escola Marcílio Dias, no Complexo do Salgueiro, a superintendente garante que a saída para a educação passa pelo acolhimento da comunidade:
— Não temos coisas assim na Marcílio. Nem sempre ações violentas acontecem nas escolas que ficam nos locais violentos.
No caso da Alberto Torres, no Mutondo, à beira da Avenida Maricá, a lógica faz sentido. Levado à delegacia, o adolescente disse que encontrou a arma numa rua na Chumbada.
Uma boa relação com a comunidade não resolve quando a violência das ruas invade as aulas. A escola do Anaia Pequeno ficou sem professores, porque, ameaçados por bandidos, muitos pediram transferência. Os temporários, que mantinham o local, não tiveram seus contratos renovados. Mesmo na Marcílio Dias, um professor abandonou o posto na semana passada, depois de um intenso tiroteio.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo