Com 20 anos, Música no Museu é afetado pela crise e pode acabar

Museus são espaços para preservação, análise e admiração de peças históricas e obras de arte valiosas. No Rio, há 20 anos eles também são locais para assistir a grandes concertos gratuitos com artistas renomados. Isso ocorre graças ao projeto Música no Museu, que, no mesmo momento em que comemora duas décadas de existência, corre sérios riscos de ter que encerrar suas atividades por falta de dinheiro. Recentemente, a Light, um dos principais patrocinadores — a parceria já durava dez anos —, deixou de colaborar com o projeto, que tem um custo mensal de R$ 50 mil.

— A crise econômica do país nos atingiu em cheio. Perdemos praticamente todos os patrocínios que tínhamos e, como não cobramos ingresso, sem eles o projeto vem se tornando inviável. Estamos em busca ferrenha por alguma empresa que esteja disposta a impedir que um projeto tão bonito, que vem levando música de concerto a pessoas que normalmente não têm acesso, chegue ao fim — diz Sérgio da Costa e Silva, idealizador e diretor do Música no Museu, que também sobrevive graças a subsídios pontuais.

Ele não é músico. A ideia de criar o projeto surgiu quando ocupava um cargo no antigo Banco Nacional da Habitação (BNH) e, durante visitas a diversos países, encantou-se com a prática de apresentações musicais em museus.

— Assisti a concertos pagos em museus na Alemanha, nos Estados Unidos e na França. E tive a ideia de trazer o formato para o Brasil, mas de forma gratuita, como uma maneira de popularizar o segmento. O primeiro local a receber uma apresentação foi o Museu Nacional de Belas Artes, no Centro, com um show do violonista Turíbio Santos, em 1997. Desde então, não paramos mais — lembra Costa e Silva.

Com o passar do tempo, o projeto expandiu seus horizontes e promoveu apresentações em cerca de 80 instituições por todo o Brasil e, a partir de 2006, por países em todos os continentes. No Rio, 42 locais — museus, centros culturais, palácios, bibliotecas e igrejas — fazem parte da programação mensal. Entre eles, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Centro Cultural Justiça Federal, o Forte de Copacabana (Museu do Exército), o Museu de Arte Moderna e o Iate Clube.

Costa e Silva calcula que cerca de 700 mil pessoas já assistiram às apresentações do projeto. São cerca de 500 concertos anuais envolvendo uma média de 2.500 músicos.

— Inovamos ao promover apresentações de janeiro a dezembro. Música clássica em pleno verão foi uma grande novidade que iniciamos em 2002 e que prossegue até os dias de hoje — frisa.

Como as apresentações ocorrem em diferentes horários, como 12h30m ou 15h, o público apresenta um perfil variado.

Um dos frequentadores assíduos é o médico Airton da Costa Soares.

— Trata-se de uma alternativa cultural de excelência em que grandes nomes da música apresentam-se ao lado de jovens talentos — diz Soares.

A programação de março presta homenagem às mulheres, com apresentações apenas de musicistas tocando obras preferencialmente compostas por mulheres ou músicas com nomes de mulheres. A agenda completa pode ser conferida na página do projeto.

FORMAÇÃO DE PLATEIA E TALENTOS

Durante sua programação anual, o Música no Museu promove festivais temáticos para celebrar instrumentos específicos. Um dos mais tradicionais é o RioWindsFestival — focado em instrumentos de sopro —, que, este ano, caso o projeto consiga seguir em atividade, completará uma década de existência.

À sua frente está o oboísta americano Harold Emert, radicado no Brasil há 43 anos, que viu de perto a popularização dos instrumentos de sopro no país.

— Vim para o Brasil para ser o primeiro oboísta da Orquestra Sinfônica Brasileira. Na época, os instrumentos de sopro eram muito menos populares do que o violão e o piano no país. Hoje, eles estão por todas as partes, com jovens músicos muito talentosos. Tenho certeza de que o Música no Museu tem uma pequena parcela de responsabilidade nessa guinada — afirma Emert.

Já a pianista Licia Lucas acompanha o projeto desde o seu início como musicista e espectadora.

— Conheci Sérgio Costa e Silva uma semana antes do primeiro concerto da Série Música no Museu. Ele era um entusiasmo só, e me falou sobre o projeto — conta Licia. — A partir daí, acompanhei toda a sua trajetória, participando ativamente de muitos dos 500 concertos anuais no Brasil e no exterior.

Ela acredita que o sucesso do pograma se deve a uma lacuna na programação de concertos, que Costa e Silva se dispôs a preencher com uma visão empresarial.

— O resultado foi a formação de uma plateia ampla e fiel — opina a musicista.

O pianista Arthur Moreira Lima, um dos mais importantes do país, é outro entusiasta do projeto. Ele torce para que a recessão não acabe interrompendo as suas atividades:

— Vamos festejar os 20 anos de Música no Museu. Mesmo em tempo de crise, o projeto consegue manter vivo o interesse pela boa música. Ele já faz parte da vida cultural do carioca e agora se expande também pelo resto do Brasil e do mundo.

Apesar dos ventos desfavoráveis, existe esperança. O Música no Museu ganhou edital do Centro Cultural Banco do Brasil e, assim, conseguiu garantir o Festival de Harpas, que será realizado em maio.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto:Fabio Rossi / Agência O Globo