Conheça os ‘fazedores’, que estão agitando a cena criativa no Rio

O campo ocupação, sempre requisitado em fichas de hotel, ficou pequeno para o fazedor. Evolução desapegada do empreendedor, com forte influência da cultura maker, o novo jovem carioca tem carreira hifenada. Pode ser palestrante-escritor-músico-produtor-pesquisador-articulador de territórios. Ou dançarina-produtora-pesquisadora-assistente social-relações-públicas-performer. Ou qualquer definição que que não caiba dentro de uma caixinha.
— O fazedor é, pelo menos, seis coisas. É a junção do realizar o que gosta, de transformar a cidade e a necessidade de fechar as contas do mês. Tudo isso resulta nessa pessoa híbrida — analisa a pesquisadora Amnah Asad, sócia de Lara Azevedo na Noix, empresa que acabou de lançar a plataforma Fazedores, com objetivo de mapear esse movimento.
Lara completa:
— É um lifeaholic, na medida que faz muito, mas também se diverte muito.
A geração fazedores (nas páginas seguintes, trazemos oito perfis) vai dar as caras no festival #DáPraFazer, da Rider, que nos dois últimos fins de semanas deste mês e nos dois primeiros de abril vai ocupar os quatro cantos do Rio com shows, cineclube, exposições e palestras.

Designers, estilistas, costureiras, modelos, produtoras e DJs, Camila Vaz, 23 anos e cabelos cor de abóbora, e Juliana Araújo, 25 e cabelo descolorido, fazem e acontecem. Amigas de adolescência, nascidas e crescidas na Taquara, Zona Oeste da cidade, as duas descobriram juntas que queriam trabalhar com moda.

— Fazer moda, ou música, nunca foi uma realidade na Taquara, as áreas criativas não eram entendidas como profissões para nós. Na época do vestibular, me questionaram: “Por que você vai fazer Moda?”. Eu sempre retruquei: “Por que não?” — completa Juliana.

As duas entraram, praticamente juntas, para a faculdade. Estão terminando Design de Moda na PUC-Rio.

— Hoje eu ia sair de sapato de pelúcia, mas minha mãe avisou que ia chover… E se eu precisar correr? Trabalhamos a moda como uma questão de resistência. Preciso de um tênis que me ajude a transitar pela cidade, de uma blusa que me proteja caso o ar-condicionado do BRT esteja forte — conta Juliana.

Ela é sócia da marca masculina RMA-3:

— Sempre admirei a forma de se vestir do meu pai, ex-piloto da aeronáutica. Mas sempre achei a roupa masculina muito restrita a um padrão. A nossa marca mostra possibilidades de ser masculino fora desse padrão.

Por sua vez, Camila já levou peças da grife feminina que leva seu nome para São Paulo e para Paris. Assim como Juliana, desenha, modela, costura, se vira.

— Fui descobrindo novas formas de trabalhar, novos processos. Nenhuma peça da minha atual coleção tem costura, uso materiais líquidos — conta. — Quando você não tem dinheiro, precisa aprender a fazer tudo se quer começar alguma coisa.

Dioclau Serrano: músico, LED Maker, chef

Dioclau Serrano, 38 anos – Leo Martins / Agência O Globo
Dioclau Serrano levou muito choque desde que resolveu aprender a trabalhar com iluminação, na marra. Além de músico (toca na banda Biltre, indicada entre as melhores de 2016 pelo canal BIS) e técnico de som (da Orquestra Voadora), ele é, entre outras ocupações, LED maker. Traduzindo, comanda oficinas de LEDwear, onde ensina curiosos a iluminar tênis, camisas, pochetes, óculos.

— Para trabalhar com LED é preciso ter noções básicas de solda e elétrica. Mas, se der errado, não pega fogo, pois as voltagens são baixas — minimiza.

As oficinas começaram pequenas, para ajudar na montação dos integrantes do bloco Minha Luz é de LED (criado pelo próprio). O cortejo é puxado pela Bananobike, soundsystem sobre rodas criado pelo fazedor inveterado em 2011. O triciclo continua dando suporte ao bloco e sendo o palco móvel dos shows da Biltre, mas também é contratado para embalar festinhas de marcas como Farm e Melissa com o seu tecnopop.

— A noite carioca começa depois das 22h, mas a partir desse horário é proibido fazer barulho. O.k., então todo mundo pega o celular, põe o fone e entra na minha rádio, a Bananotech, para curtir em silêncio. É o jeito — explica, em tom crítico. — A nossa política pública ainda é muito repressora. Quem cria as leis não dialoga com quem faz. O triciclo é um símbolo do trabalho informal na cidade, tanto que na Olimpíada cada delegação era representada por um. É uma dicotomia.

Nascido em Marabá, na Transamazônica, o paraense de 38 anos, radicado no Rio há pelo menos duas décadas, não se cansa de fazer:

— Meus amigos de colégio são uma coisa só. Quando me perguntam o que faço, explico que sou várias coisas… Também sou chef de cozinha paraense, sabia?

Gessica Justino: dançarina, relações-públicas

Gessica Justino, 28 anos – Leo Martins / Agência O Globo
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Na noite de segunda-feira passada, ao chegar ao estúdio do GLOBO, onde os foram fotografados os oito personagens desta reportagem, Gessica Justino, que completa 29 anos no próximo dia 26, entra no debate sobre o termo fazedor:

— Sabe qual é a nossa vantagem? Em alguns países que visitei, as pessoas têm uma profissão e ponto. Já a gente não corre o risco de passar necessidade em nenhum lugar do mundo. Na verdade, acho que a gente sabe fazer tudo por uma questão de sobrevivência…

Nascida em Niterói e “debandada” para o Rio desde os 18 anos, Gessica é formada em Dança pela UFRJ.

— A dança foi o meu ponto de partida para o mundo, me fez questionar o real significado do corpo. Não só o corpo cênico, mas o corpo que está todos os dias na rua, que nos ajuda a entender o comportamento local — ela explica.

Além de dançarina, Gessica é produtora cultural, pesquisadora, assistente social, relações-públicas, performer. Em meio a tantas funções e projetos, ela tem um xodó, o “Barbeiragem”, documentário que idealizou e retrata o dia a dia de barbearias de comunidades cariocas, com direção de Yasmin Thayná, a mesma do curta “Kbela”. As filmagens com os barbeiros Papinho e Mineiro começaram em dezembro. No próximo dia 18, será lançado um piloto do que Gessica prefere chamar de “experiência audiovisual”.

A relação afetiva com os barbeiros nasceu quando ela resolveu raspar longas tranças e foi mal recebida em vários salões de beleza. “Você vai ficar horrorosa” foi uma das críticas mais leves que recebeu.

— Circulo bastante na cidade e, certo dia, passando pela Mangueira, vi uma barbearia lotada. Quando entrei, voltei para o quintal da minha avó. Entendi que esses salões são lares.

Djoser Botelho: MC, videomaker

Djoser Botelho, 25 anos – Leo Martins / Agência O Globo
Djoser Botelho, de 25 anos, é cofundador do Circuito Carioca de Ritmo e Poesia, que surgiu de 2009 para 2010, para suprir a falta dos duelos de rappers Batalha do Real e Batalha do Conhecimento. Hoje, 130 rodas acontecem toda semana na cidade.

— A cena do rap era focada na Lapa, e naquele momento, comecei um movimento de ocupação do espaço público em Botafogo — lembra Djoser.

— Três meses depois, pessoas de diferentes territórios vieram pedir ajuda para criar rodas e, assim, fui motivando os outros a fazerem também.

Djoser acabou indo trabalhar no gabinete do prefeito Eduardo Paes, ao lado de outros jovens entendidos de ocupação urbana. Foi o seu único trabalho “formal”, dentro de escritório.

— Passei a focar na narrativa do “no amor”, termo que a gente usa quando não tem grana. Fazendo trabalhos “no amor”, as possibilidades se ampliam, as redes se ampliam e você consegue fechar o mês mais tranquilo — conta ele, que vai transformar as rodas de rima em um programa na web. — Quero botar pessoas que não estejam em destaque no holofote, falar sobre os últimos dez anos e pensar os próximos dez. E conseguir com essas histórias motivar mais fazedores, acredito que essa onda tem forte poder de influência na juventude.

Djoser optou por não fazer uma faculdade e mostra outro olhar sobre o que chamam de geração “nem-nem”, que não estuda nem trabalha.

— Muitos que são chamados de “nem-nem” são fazedores que estão mudando a cidade, alterando a política pública, gerando renda para a própria família. Só que eles ainda não estão dentro das estatísticas.

Dando de Antares: palestrante, músico, escritor

Dando de Antares, 33 anos – Leo Martins / Agência O Globo
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Dando de Antares, de 33 anos, comandou uma revolução digital na Favela de Antares, comunidade onde nasceu e foi criado, lá na penúltima estação de trem, Zona Oeste da cidade. No início dos anos 2000, começo da popularização da internet por aqui, ele montou a primeira lan house na favela. Quando seus vizinhos começaram a desejar ter um computador em casa, ele passou a montar as máquinas (“Virei micreiro”). Autodidata, pegava o trem para o Centro, comprava monitores, placas, processadores, memória, embarcava de volta no trem e passava a noite trabalhando nas encomendas.

— Sabia de cor os seriais do Windows, de tanto que instalava — lembra, rindo.

Dando montou mais de 400 computadores, ainda informatizou o boteco da esquina com uma planilha de Excel e ajudou a implementar pedidos de pizza por MSN. Ele contou essas e outras para uma plateia lotada no TEDxLaçador, realizado ano passado, em Porto Alegre.

Além de ser palestrante, escritor, produtor e pesquisador, Dando é músico. Entre um compromisso e outro, ele sempre arruma tempo para atuar na noite, cantando e tocando percussão, do samba ao pop.

— Levar informação e trocar experiências são o meu alvo de vida. Tem uma galera que faz coisas legais e não sabe como divulgar, como voar. Hoje eu falo que compro sonhos. O que você quer fazer? Vamos embora — diz Dando, animadíssimo.

Mês que vem, ele começa a gravar o programa “Deixa eu cantar”.

— Vamos rodar o Brasil procurando quem sempre quis cantar e, por mil motivos, não aconteceu. Esta semana mesmo eu estava conversando com o Wagner Moura e ele me falou que o sonho dele é ser cantor.

Leo Justi e Ana Paulino: músico e empresária

Leo Justi e Ana Paula Paulino, 30 e 27 anos – Leo Martins / Agência O Globo
Filho de pai oboísta e de mãe pianista, Leo Justi cresceu cercado por música. Nos anos 1990, no colégio Bennett, no Flamengo, ele foi apresentado ao funk — e amou. Mas acabou reprimido por um vizinho roqueiro.

— Neguei o funk por muito tempo — conta o idealizador do Heavy Baile, festa-sensação que faz um mashup entre funk e diversos estilos de música eletrônica emergente.

Leo se fez na internet:

— Se você tem energia para meter a cara, você ferra a sua coluna, mas consegue ficar horas no computador, obsessivamente. Você tem que ser fissurado para fazer a parada andar e isso tende a desequilibrar a vida. Eu me perdi durante muito tempo.

O Heavy Baile atualmente é, além de festa, uma banda e também um selo. Já rodou o Brasil, parando inclusive em Belo Horizonte, onde Leo conheceu Ana Paula Paulino — produtora executiva da festa, sócia do selo e sua namorada há dois anos. Formada em Comunicação Social, ela era gerente de marketing de uma grande empresa quando eles se conheceram.

— Cresci achando que tinha que fazer concurso público. Mas com o Leo eu conheci um lado do mundo que eu não sabia que existia — lembra.

Atualmente, Ana Paula é empresária

da MC Carol, da Tati Quebra-Barraco e das meninas do grupo A Bronkka.

— Quando você trabalha com cultura no Rio, vai se conectando com pessoas o tempo todo, uma engrenagem. É preciso investir tempo — observa ela.

— Inclusive a gente tem que ir embora agora — avisa ele, conferindo a hora.

O casal não ficou para a foto em grupo, que abre a reportagem, por dois motivos: ela tinha o lançamento de um documentário feminista e ele, capoeira:

— Preciso salvar a minha coluna.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Leo Martins / Agência O Globo