Cariocas elegem as versões do Rio ‘nutella’ e ‘raiz’

De um lado estão as kombis dos “podrões”, vendendo cachorros-quentes turbinados com ovos de codorna e passas, alimentando boêmios de madrugada; do outro, food trucks com design, que servem comidinhas assinadas por chefs e satisfazem paladares mais “diferenciados”. Há ainda as barbearias tradicionais, onde no máximo o cliente bebe um cafezinho de garrafa térmica antes de encarar a navalha, em contraponto com as barbearias retrô, onde a clientela toma cerveja enquanto apara os cabelos. Sem falar no clássico embate entre o calórico pão na chapa e o fitness sanduíche com pão sem glúten.

A exemplo do famoso meme que anda circulando pelas redes sociais, o Rio de Janeiro também tem sua versão “raiz” (tradicional, retrô ou simplória) e seu quê “nutella” (moderninha, gourmetizada e mais rebuscada) e da Zona Norte a Zona Sul não faltam exemplos que se encaixam nos dois diferentes perfis da cidade.

Se fosse ganhar um quadrinho ilustrativo, parecido com os que andam sendo compartilhados e curtidos no Facebook, o Rio Raiz teria em sua lista “serve mate de galão na areia da praia”, defende o compositor Moacyr Luz, para quem o sabor inesquecível da mistura da bebida com um “choro” do suco de limão representa a versão raiz do carioca, enquanto os badalados drinkolés (sacolés com misturas de bebidas) mostram um Rio para lá de lambuzado na “Nutella”.

— O mesmo vale para o Rio onde se anda com taxista que sabe o caminho, que é raiz, e o Rio que pega carro com aplicativo que não sabe chegar no Maracanã, que é nutella — diz.

Para Luz, esta “nutellização’’ de costumes e gírias é resultado do uso excessivo das redes sociais.

Raiz
• Tem cachorro quente podrão na madrugada, com direito a ovo de codorna, passas, e muita maionese
• Tem barbearia sem regalia e normalmente tem um barbeiro careca e barrigudo
• Vende mate de galão (para misturar com limão) na praia
• Tem barracas de churrasquinho de rua, com queijo coalho e salsichão com farinha
• Ser feliz é comer média com pão na chapa do Centro
• Programa bom é ir até o Parque de Madureira, saindo de trem da Central

Nutella
• Tem food truck com design bacaninha e cardápio assinado por um chef
• Tem barbearias com chope e barbeiros com visual hipster
• Vende drinkolés na praia
• Tem quiosque de brigadeiro gourmet em shopping center
• Chique é comer pão sem glútem com suco verde em padaria da Zona Sul
• Programa in é ficar em casa no ar condicionado vendo Netflix e TV a Cabo

— O que aconte hoje em dia é que com, a globalização, os hábitos de toda as cidades estão sendo compartilhados e curtidos nas redes sociais e está tudo ficando muito igual. Antigamente, no Rio raiz, a gente tinha a domingueira, agora o carioca fala que está indo para a balada. Isso é palavra de paulista. E, cá para nós, este negócio de tudo ter versão nutella é muito brega — ri.

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O Rio é uma cidade de contrastes, em que a onda do subúrbio passa longe da modinha da Zona Sul e que nem tudo que brilha em Madureia reluz na Barra da Tijuca. Por isso, o produtor cultural Leo Feijó acredita que tambem é possível dividir os programas entre de raiz e com sabor nutella:

— Rio Raiz é o Baixo Garage, na Rua Ceará e arredores da Vila Mimosa, na Praça da Bandeira, com bares como Porto Pirata, Duck Walk Pub, Heavy Duty e o novo O Pecado Mora ao lado (mora mesmo!). Rio Nutella é comer no Outback e frequentar o circuito de shoppings na cidade nos fins de semana. Rio Raiz é conhecer o Semente e o Triboz na Lapa, que oferecem música ao vivo brasileira, bossa, jazz e instrumental. Rio Nutella é ficar em casa assistindo Netflix ou shows na TV a cabo; raiz é ir até o Parque Madureira de trem, partindo da Central — compara Leo Feijó, autor do livro “Rio cultura da noite”.

A lógica do meme, destaca a produtora e atriz Cacau Gondomar, depende do ponto de vista. Nem sempre é possível associar as coisas de raiz ao bom e as versões nutellas ao lado mau da historia:

— Tem coisa que era de raiz e que mudou para melhor, não dá para generalizar. Um exemplo é que no passado eu e meus amigos íamos à praia de van, muito Rio Raiz para nós, e hoje vamos de Uber, quase um Uber Tour. Antes sofríamos com o calor, com van cheia. Agora tem mais conforto, vamos parando nas casas e com ar condicionado. Mas o que acontece é que as pessoas têm saudade do sabor do passado. Eu, por exemplo, tenho vontade de matar quem toma café gourmetizado, que é o Rio nutella. Adoro o café coado, vendido na padaria com média, que é muito Rio raiz — defende ela.

A empresária Ana Luiza Faria, sócia da cachaça Magnífica, acha que a tradução do Rio Raiz é a combinação “corrida na praia, água de coco e mergulho no mar”. Já sua versão nutella pode ser vista nas academias, com “corrida na esteira, isotônico e ar condicionado.” O DJ DJ Zeh Pretim tem um tratado sobre estes dois lados do Rio:

— O Rio raiz vai de bermuda para a praia e com prancha (de surfe) debaixo do braço, faz amigos de diferentes regiões, classes sociais, opções sexuais etc. Conhece a pessoa no mesmo dia e vira melhor amigo, sabe qual é a boa do final de semana por ali mesmo. O Rio nutella é convidado para evento no Facebook ou Spam no Whatsapp, chega na festa e encontra camarote, cercadinhos e áreas tão demarcadas que fica até difícil circular… E as pessoas esquecem de aproveitar porque estão preocupadas em fazer snapgram — define o DJ.

Se fosse um bloco de Carnaval, brinca Cynthia howlett, o Rio raiz seria o Cordão do Bola Preta, que este ano comemora 99 carnavais e sai na Avenida Presidente Vargas, enquanto o Rio Nutella, seria o Bloco da Favorita, que atrai beldades e sai na Avenida Atlântica. Como a maioria das pessoas que já viu e curtiu um dos memes, Cintia também não sabe de onde surgiu a brincadeira, mas arrisca uma definição.
— Raiz me lembra tradição, algo do povo, já nutella, me remete a zoação, prazer, bagunça — resume a nutricionista.

A comida do Rio raiz, aponta a atriz Alessandra Verny, certamente seria de rua, daquelas servidas em barraquinhas. Já a do Rio nutella, só é encontrada em ambientes climatizados. De preferência em shoppings da Zona Sul ou da Barra.

— Nada mais raiz que comer queijo coalho e churrasquinho em barraquinhas rua Uruguaiana. Já comer os brigadeiros gourmê, recheados com pistache, nozes e macadâmia e são vendidos em quiosques de shopping é totalmente Rio Nutella — brinca a atriz Alessandra Verny, que é gaúcha, mas vive no Rio de Janeiro há 20 anos.

Fonte: O Globo
Postado: Raul Motta Junior
Foto: Guito Moreto 16-01-2014 / Agência O Globo