Folia teve blocos com crítica social e espetáculo na Sapucaí

A festa nas ruas e na Sapucaí teve momentos de grande alegria, mas, desta vez, com um inegável rastro de cinzas. Com a cidade lotada, com cerca de 1,1 milhão de turistas, superando os números dos últimos oito anos, os blocos repetiram o sucesso de sempre e dobraram a aposta: cortejos e cordões gigantes cresceram ainda mais, e alguns dobraram de tamanho. A Riotur promete mudar as regras para organizar tamanha animação. Um cenário de beleza que, de negativo, teve a ala do xixi, sempre bem representada e ensaiada, apesar da multa mais pesada. Já na Sapucaí, foram dois acidentes com carros alegóricos e um baleado na madrugada de sábado para domingo.

Paes chega ao Sambódromo para desfilar pela Portela’O ex-prefeito está aqui, então está tudo certo’, diz Paes em desfile da Portela
Desfile das Campeãs:sexta colocada, Beija-Flor de Nilópolis, foi a primeira escola a entrar na Sapucaí. Vice-campeã do Carnaval, Mocidade anima o público na Sapucaí
NA ALEGRIA…

Antes de pendurar as fantasias e espanar a purpurina para o ano começar de verdade, o que só acontece depois do carnaval, o domingo foi dia de saideira — e à altura da alegria exigida pelo calendário. Um dos maiores da folia de rua, o Monobloco arrastou cerca de 400 mil pessoas pela manhã, no Centro. Rainha da bateria, a cantora e atriz Emanuelle Araújo subiu ao trio e cantou junto a 180 ritmistas.

— Estou completamente plena. A minha carne é de carnaval — disse.

Uma festa superlativa em todos os sentidos. Pelos números oficiais da Riotur, 451 blocos agitaram multidões. Isso sem contar os “secretos”, que também se multiplicaram.

Os blocos cada vez ganham mais espaço, esbanjando irreverência, mas também jogando na roda de samba temas sociais e crítica política. Este foi o ano em que o discurso feminista e questões sobre respeito a diferenças de gênero falaram mais alto. Homens fantasiados de mulher e mulheres de peito aberto — seios de fora foram um hit, ora pintados, ora purpurinados — ganharam os cordões cariocas. Ponto para o carnaval que soube crescer na adversidade depois de um início sob a polêmica das marchinhas politicamente incorretas, como “Cabeleireira do Zezé”.

— A crítica ao machismo está ficando cada vez mais forte. Há blocos formados só por mulheres, outros com nomes que exaltam a identidade feminina — observa a antropóloga Alba Zaluar, lembrando que resgata um passado da precursora Chiquinha Gonzaga, compositora de “Abre-alas que eu quero passar”.

No Sambódromo, outro palco sagrado do carnaval carioca, a criatividade garantiu magia de sobra para suavizar noites marcadas por incidentes que não estavam no roteiro do espetáculo. Com a ajuda de técnicas de ilusionismo, a Mocidade fez um destaque, vestido Aladim, voar. Ele foi substituído por uma réplica movimentada por um aeromodelo. Surpreso, o público pareceu ter acreditado na mágica por alguns segundos, suficientes para aliviar a tristeza deixada pelas imagens do carro alegórico da Unidos da Tijuca que desmoronou pouco antes. Outro momento inesquecível foi a baiana Ivete Sangalo que reinou integrada à comissão de frente da Grande Rio, que a homenageou. Brilhou em dose dupla. Correndo pelos bastidores da Sapucaí, ela voltou à Avenida para encerrar a apresentação da escola de Caxias. Esbanjou axé.

O carnaval, após tantos atropelos, teve um final caudaloso no Sambódromo. Depois de 33 anos de jejum, a tradicionalíssima Portela saiu vencedora com seu “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar”, inspirado em Paulinho da Viola. Ele e Marisa Monte, também portelense, foram abençoar o título no Desfile das Campeãs, sábado. Para prestigiar a azul e branco de Madureira, o ex-prefeito Eduardo Paes deixou Nova York, onde passa ano sabático, e desembarcou na Passarela:

Porta-estandarte, Isadora Tanus brilha no Monobloco que, mais uma vez, arrastou uma multidão: 400 mil pessoas no Centro – Fabiano Rocha / Agência O Globo
— O ex-prefeito está aqui, então está tudo certo — ironizou ao responder sobre o que pensava sobre a ausência de seu sucessor, Marcelo Crivella, na Sapucaí.

… E NA TRISTEZA

Em um carnaval atípico na Sapucaí, o Desfile das Campeãs, no sábado, teve, durante o show da festejada Portela, uma troca de tiros que deixou um ferido em plena avenida. Foi o final de um carnaval que deixou tristezas. Antes, dois acidentes já tinham entrado para a história da Sapucaí. Durante a apresentação das escolas do Grupo Especial, um carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, no domingo, atropelou 20 pessoas, e um outro, da Unidos da Tijuca, desmoronou, no segundo dia, deixando 15 feridos. Os dois casos estão sendo investigados pela polícia.

Desgovernado, carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, que levou para a Avenida as cores do tropicalismo, imprensou pessoas contra as grades da Sapucaí, deixando 20 feridos no primeiro dia de desfiles no Sambódromo – Marcelo Theobald / Agência O Globo
Ontem, quando se imaginava que o pior já havia passado, durante o desfile da Portela, o diretor de esporte da São Clemente, Júlio Azevedo, foi baleado. O dia amanhecia, e as primeiras informações eram que o disparo tinha sido feito durante uma briga. A vítima, que estava no Setor 11 do Sambódromo, foi ferida abaixo da cintura, perto da virilha.

Durante um bate-boca, um homem, que seria da Portela, disparou contra Júlio. A polícia investiga a razão da discussão. O agressor, segundo testemunhas, sangrava pela boca na hora do disparo. O baleado foi levado para o Hospital Souza Aguiar e não teve qualquer órgão vital atingido pela bala, que ficou alojada, segundo a Secretaria municipal de Saúde. O paciente deverá ser submetido a uma cirurgia para a retirada do projétil.

Além dos incidentes nos desfiles e da questão da segurança, o desfile das grandes do carnaval teve mais uma surpresa no final. Considerada uma das mais bonitas criações que a Mangueira levou para a Sapucaí, a alegoria “Santo e Orixá”, que representa o Cristo em ascensão, acabou não indo para o Desfile das Campeãs, em respeito a um pedido da Igreja, de acordo com a Liga.

ALEGORIA ABANDONADA

A imagem garantia um dos momentos mais emocionantes da verde e rosa, cujo enredo deste ano era “Com a ajuda do santo”. O sincretismo religioso era uma das mensagens da escultura, montada em um tripé, que trazia o Cristo de um lado e Oxalá do outro. Carnavalesco da escola, Leandro Vieira, que chegou a postar em redes sociais uma foto melancólica da alegoria abandonada dentro do barracão, não escondeu a contrariedade. Ele vestia uma camiseta branca que tinha escrito “Oxalá”.

— A decisão de não trazer foi do presidente da Mangueira. Ele vai para o céu. Eu não iria — ironizou, acrescentando que foi sorte a Arquidiocese, que já havia visitado o barracão da escola, não ter visto a escultura antes porque ela não teria sequer sido levada para o primeiro desfile na Sapucaí.

A Arquidiocese disse, no entanto, não ter feito qualquer proibição. O presidente da escola, Chiquinho da Mangueira, afirmou que “houve um entendimento” com a Igreja.

— Não foi imposição — garantiu Chiquinho.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo