A bordo de um saveiro de madeira escura e cobertura grená batizado de Pirata, Francisco Gaspar, de 4 anos, entope a tripulação de perguntas e exclamações: “Olha, o avião passou por cima do navio”; “ Pra onde as gaivotas voam?”; “Mamãe, tá balançando”; “O barco vai afundar?”; “Tá chovendo?”; “Tá chegando?”. Caçula de um grupo de 30 pessoas, o pequeno oscila entre momentos de tensão e descontração, como o que toca uma guitarra de brinquedo e canta músicas improvisadas. As icônicas Ilhas Cagarras são o destino do primeiro passeio de barco da vida do menino e da maioria dos cariocas que o acompanham.
— Gosto de levá-lo para conhecer lugares diferentes. Ano passado, fomos para Paquetá. Mas numa barca grande, o tamanho não tem comparação — comenta a mãe, a turismóloga Larissa Gaspar, de 38.
Depois de uma hora e meia navegando, enfim, o arquipélago, formado pelas ilhas Cagarras, Palmas, Comprida, Filhote e Redonda. Quem olha para frente, avista o exuberante conjunto. Para trás, enxerga as silhuetas do Morro Dois Irmãos, da Pedra da Gávea e do Pão de Açúcar ao avesso. O marinheiro Marcílio Alves, de 48, ancora o barco e dá sinal verde para que todos se joguem dentro d’água e flutuem agarrados a macarrões.
— Minha casa é o mar, meu quintal é o tempo — filosofa o marinheiro, que não mergulhou.
O “tibum” nas Cagarras é apenas uma das atrações do Bhakti Boat — Prana Party”, como foi chamado o passeio de barco realizado no final de semana passado, idealizado pelas instrutoras de ioga e de meditação Cecy Franco, de 27, e Gabi Menezes, de 32. Serviço de comes e bebes com churrasco vegetariano, salada de frutas e bebidas (sucos e sacolés) não alcoólicas, trilha sonora low profile e uma prática de meditação ao final do encontro — em terra firme, para evitar a falta de concentração com a marola das ondas — deram o tom do evento.
— Já fiz alguns passeios de barco e me senti desconfortável com a música, a galera ou o cardápio. É difícil agradar a todos. Criamos, então, um encontro em que a ideia é juntar pessoas com interesses em comum. Por mais que o barco seja aberto ao público, conseguimos selecionar um grupo que preza por um estilo de vida mais saudável, que pratica exercícios e é adepto da alimentação vegetariana — resume Gabi, que pretende repetir a dose.
No dia do passeio de barco zen, quem estava dentro e fora da embarcação não encontrou exatamente paz. O frenesi causado pelo vaivém de lanchas, veleiros, saveiros, caiaques, pranchas de stand up paddle e jet skis reforça a teoria de que o mar está para as Cagarras: neste verão, o programa virou “obrigatório” para qualquer carioca que se preze. Segundo a Marinha do Brasil, de fato, as águas limpas e claras fazem a visitação se intensificar na estação, principalmente por aqueles que praticam mergulho esportivo.
Nova onda por lá, acredite, são as travessias de SUP — que duram uma eternidade, diga-se. Surfista e instrutor do esporte na empresa Rio Stand Up Paddle, Fabiano Passos promove a chamada “Missão Cagarras”, na qual reúne turmas de três a seis pessoas, sagazes, no posto 12 no Leblon, para remar até as ilhas (como referência, da Praia de Ipanema para lá são cinco quilômetros).
— É muito legal pelo exercício e pelo desafio — propõe Fabiano. — O tempo de remada é relativo, depende de cada um. Mas eu só aconselho ir quem tem preparo físico atlético. Tem que ter muita disposição.
Para não correr o risco de virar um pimentão, ele marca a partida para as 6h e promete que antes de meio-dia já estão de volta. Roupa com filtro solar e um kit nutritivo com banana, barrinha de cereal, isotônico e água também são aconselháveis. Durante a semana toda que antecede a travessia, Fabiano checa as condições meteorológicas.
— Só vou com o mar flat, sem nenhuma onda, e sem nenhum vento — diz.
Até abril do ano passado com acesso reservado a donos de embarcações, a Marina da Glória agora também funciona como uma espécie de binóculo para observar o trânsito marítimo. Fim de semana passado, num intervalo de 20 minutos, três saveiros recheados de mergulhadores paramentados (o primeiro), japoneses munidos de câmeras (o segundo) e um grupo fantasiado (o terceiro) se lançaram na Baía de Guanabara. E cruzaram com tantos outros atracados como os Lady Laura III e IV, do Rei Roberto Carlos.
— O passeio para as Ilhas Cagarras é um sonho de consumo. Tradicionalmente, o carioca vai à praia, mas não necessariamente vai ao mar. Acho que essa relação está mudando. Juntar um grupo, dividir o preço do aluguel do barco (veleiros a partir de R$ 1.500 e lanchas a partir de R$ 3.500, ambos para 12 pessoas) e passar o dia navegando é uma excelente opção — sugere Marcos Soares, medalha de ouro a bordo de um veleiro nos Jogos Olímpicos de 1980, que hoje opera uma empresa de barcos privados na Marina.
Outro ponto de partida para o arquipélago é o Bar Urca. Foi lá que a designer Isabel Goulart, de 32 anos, marcou de encontrar 20 amigos para comemorar seu aniversário (com cerveja, vinho branco e belisquetes mil) em alto mar.
— Essa foi a primeira edição. Agora, vou fazer todo ano — promete ela.
Assim que todos embarcaram, o marinheiro Marcos Rosauro, uniformizado com bermuda de linho, camisa de botão e topsider, fez uma apresentação do Velho Marinheiro II, num microfone. O saveiro de madeira levou nove meses para ser construído por um carpinteiro naval (“função em extinção”, ele ressalta) no Farol de São Tomé e aquela era uma de suas primeiras viagens.
— O Velho Marinheiro II é equipado com bar, vestiário e solário (terraço), em que só podem subir 15 pessoas quando o barco estiver parado — orienta Marcos, presidente da Liga Marítima do Brasil.
No meio do caminho, uma surpresa: em vez de ir para as Cagarras, o grupo foi parar em Itaipu, Niterói. O imprevisto acontece com frequência. Às vezes, o desvio é feito porque a equipe de comando não quer ir para longe. Mas em muitas outras é questão de segurança. Na dúvida? Melhor confiar.
No mesmo dia, os produtores e convidados da festa Arca Is The New Boat, uma parceria entre o coletivo de eventos Arca de Noé com a empresa de entretenimento náutico 360 Sports, percorreram trajeto idêntico.
— Saímos em dois saveiros, um com 145 e outro com 150 pessoas. A festa era open bar e a ideia inicial era que o mesmo DJ tocasse nos dois barcos. Mas acabou que vários amigos colocaram um som para rolar e deu certo — conta Leo Aquino, de 28, um dos idealizadores da Arca de Noé.
Já a equipe encarregada de instalar um parque aquático dentro d’água chegou a Itaipu três horas antes.
— Precisamos desse tempo para armar o circo — diverte-se Thiago Caldas, de 29, sócio da 360 Sports.
A estrutura era formada por nada menos que uma catapulta humana, um flyboard, jet skis, caiaques e pranchas de SUP. Traduzindo a primeira atração, o time encheu de ar uma boia de seis metros de comprimento por três de largura, em que a ideia é que uma pessoa pule do barco em cima dela, a boia, e arremesse uma outra que estaria na ponta inversa do equipamento.
— A gente calculou que umas 20 pessoas fossem brincar. Mas fez muito sucesso, foram mais de cem — contabiliza Thiago, que tem uma equipe treinada com certificado de primeiros socorros.
Formada em Administração e Marketing, Ligia Deschamps, de 25, estava entre as convidadas do evento.
— O legal foi que quando o barco parou, várias pessoas trocaram de barco e foram para o outro. A gente usou uma pulseirinha para não perder o controle — lembra.
O turista desavisado que visita algumas ilhas cariocas não encontra um manual de instruções sobre como se comportar. Nem placas esclarecedoras de sinalização. No trânsito em saveiros, veleiros ou lanchas, uma pergunta consenso entre os tripulantes é se é permitido subir nas pedras. A resposta é positiva, desde que o sujeito não moleste o meio ambiente. Criado em 2010, o Monumento Natural das Ilhas Cagarras, vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, tem como atividades a proteção e a conservação do arquipélago e sua encosta num raio de dez metros.
— Não é permitido realizar nenhuma atividade que gere impacto à natureza do entorno. As Ilhas Cagarras são um ponto de observação, por isso se chama monumento natural, ele é contemplativo, é voltado para a beleza cênica — define Aline Aguiar, atual diretora do Instituto Mar Adentro e coordenadora do Projeto Ilhas do Rio, que fez um mapeamento das Cagarras entre 2011 e 2015.
Na pesquisa, que originou dois livros, foram identificadas 600 espécies. São: 50 algas, 135 peixes e mais de 150 invertebrados. Outra curiosidade que talvez explique o fato de as ilhas serem manchadas de branco, pense bem, é a presença de mais de cinco mil fragatas. Apesar de raros, ainda é possível ser surpreendido com baleias e golfinhos por lá.
— A região é como se fosse uma rota de passagem para a baleia jubarte seguir em direção à Bahia para a Costa das Baleias. No meio do ano passado, foram encontradas algumas — lembra José Lailson Brito, coordenador do Laboratório de Mamíferos Aquáticos da Faculdade de Oceanografia da Uerj.
Entre idas e vindas às Cagarras, Aline Aguiar se deu conta de que conhecia melhor Fernando de Noronha do que o nosso “quintal”, como chama carinhosamente o arquipélago.
— É um refúgio da natureza muito próximo da cidade — romantiza.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto:O Globo