Ela se olhava no espelho e achava-se feia, queria ser magra como uma modelo europeia, mas não conseguia. Era infeliz até começar a sambar. Quando a russa Juliana Titaeva, 26 anos, viu a animação “Rio”, num cinema de Moscou, a vida começou a mudar. A aventura da arara Blu no sambódromo a marcou, e logo começou a fazer aulas de samba com uma baiana que vivia na cidade, ainda em 2011. Ano passado, o primeiro sonho realizado: ver o carnaval na Marquês de Sapucaí.
— Quando voltei a Moscou, fiquei uma semana sem saber o que fazer, me perguntando “e agora?”. Decidi que queria ser passista da Portela. Eu já tinha ouvido um dos sambas-enredo e fiquei apaixonada. Foi tudo muito rápido.
Começou a estudar português com a tradutora de Dilma Rousseff — compreende razoavelmente bem, mas ainda fala pouco — e, com a ajuda de um amigo, mandou vídeos mostrando seu samba no pé para a agremiação de Madureira. A escola apostou na russa, formada em análise de investimentos e sósia de uma pequena agência de relações públicas em sua terra natal. Incentivada pela mãe, Juliana voltou ao Rio em julho para um teste presencial com Nilce Fran, coordenadora da ala das passistas. O resultado já se sabe.
— Fui muito bem recebida pelas outras passistas. Metade já me convidou para passar a noite na casa delas, depois dos ensaios em Madureira. A gente se fala pelo WhatsApp, são todas muito amigas, como uma grande família. O melhor é que sou tratada como uma igual. É emocionante — afirma.
A russa gosta tanto de sambar que criou como hobby, com mais cinco amigas, o grupo Rio Angels, que se apresenta em festas culturais de Moscou e Berlim, vestidas com fantasias típicas do carnaval carioca.
No dia 15 de fevereiro, a poucos dias do desfile da Portela, Juliana completará 27 anos. Já sabe como comemorar. Quer fazer um churrasco em Madureira e convidar sua nova família: as passistas de Madureira.
E quando o carnaval acabar? Ela ainda não sabe como isso seria possível, mas pensa em se mudar para o Rio, talvez vivendo metade do ano aqui, a outra metade lá.
— Aprendi sambando que toda mulher é uma rainha. Passei a gostar de mim mesma e a aceitar meu corpo como ele é. O samba mudou minha vida.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo