Todos os dias, o jornaleiro Armando Gomes via um casal de equatorianos estender um tecido ao lado de sua banca, na calçada da Rua Voluntários da Pátria, e ali expor roupas e peças de artesanato. Com eles, estava sempre o pequeno Hostin. No começo, o menino acompanhava os pais num carrinho. Hoje, com 4 anos, ele anda e brinca por todos os lados daquele pedaço de Botafogo.
— Eles ficavam aqui, vendendo suas coisas, sempre de forma muito educada. Acontece que não conseguia ver a criança daquele jeito, passando o dia inteiro na calçada. Fiquei sensibilizado — conta o jornaleiro, que recebeu da mãe um pedido de ajuda: ela queria matricular Hostin numa escola, mas não sabia como fazê-lo.
A história do pequeno imigrante acabou mobilizando moradores de Botafogo. Primeiro, o jornaleiro e seu filho tentaram matricular Hostin na rede pública de ensino pela internet. Não conseguiram, e, em seguida, começaram a visitar escolas da região, também sem sucesso. Os pais do menino, Luís Júnior, de 24 anos, e Evelina Estefania, de 25, cogitaram mandá-lo de volta ao Equador, para que não ficasse sem estudar. Eles, que estão em processo de legalização de documentos para permanecer no Brasil, desembarcaram no Rio há dois anos e meio, vindos de um pequeno povoado na região de Otavalo. Lá, trabalhavam com produção artesanal de roupas de lã, vendidas numa feira a turistas. Mas a difícil situação econômica do vilarejo levou os dois à decisão de partir.
Luís e Evelina buscavam uma solução para a educação de Hostin quando a jornalista Patrícia Melo ficou sabendo da história. Ela passa diariamente passa pela banca de seu Armando.
— Vendo o Hostin, eu me lembrava do meu filho. Acompanhei seu crescimento e já me perguntava quando ele iria para a escola. Foi aí que decidi ajudar seu Armando, tornando sua busca algo do conhecimento de todos — disse Patrícia.
A jornalista divulgou na segunda-feira o caso no grupo do Facebook “Pais e mães de Botafogo e Humaitá”. O post tocou moradores do bairro. Com a ajuda de uma amiga, Patrícia conseguiu inscrever o menino no Ciep Presidente Tancredo Neves, no Catete. Só que a melhor solução seria ver a criança estudando em Botafogo, perto do trabalho dos pais.
Foi então que Nina Almeida, diretora da escola Quintal das Artes, localizada no bairro, entrou em contato com Patrícia e ofereceu uma vaga. Ela destaca que não fez uma caridade:
— Nós não estamos fazendo favor nem assistencialismo, estamos apenas dando a chance do Hostin ser o Hostin. A escola tem um histórico de alunos especiais.
Uma mãe que fala espanhol já recebeu os pais de Hostin na escola, onde o menino participará de grupos com poucos colegas para se adaptar à nova cultura. Se for preciso, ele terá a ajuda de um fonoaudiólogo. A instituição vai auxiliar a família, que vive no Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, no processo de legalização de documentos. Agora, a mãe, Evelina, esbanja alegria e gratidão:
— Gosto muito daqui, principalmente das pessoas.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo