Os traços de Haruyoshi Ono que ainda ganham forma pelo Rio

Haruyoshi Ono herdou de Roberto Burle Marx o dom de entender um jardim não só como paisagem, mas também como uma obra de arte. E o Rio é, felizmente, uma grande galeria a céu aberto desses dois mestres do paisagismo brasileiro. Mesmo com sua morte no último domingo, Haru, como era chamado pelos amigos, continua deixando sua marca: além de suas formas orgânicas fazerem parte da essência do escritório Burle Marx & Cia Ltda, que seguirá pelas mãos de seus discípulos, há projetos do paisagista em andamento. Um deles é o da esplanada da Marina da Glória, que será integrada ao Parque do Flamengo. Haru começou a trabalhar com Burle Marx na época das obras do parque e é autor das esculturas de pedras próximas ao Museu de Arte Moderna (MAM).

Ele e sua equipe desenvolveram canteiros protegendo a ciclovia e caminhos sinuosos de ligação entre a Marina e o parque para a livre circulação dos pedestres — respeitando as espécies vegetais que integram a área. O Parque do Flamengo sempre foi a menina dos olhos tanto de Roberto quanto de Haru, filho de japoneses que só perdia em parte a calma quando observava o abandono de todo esse espaço.

DESENHOS COM O MESMO DNA

Outro trabalho do maior aluno de Burle Marx, que será aberto à população, é o parque de 72 mil metros quadrados na Vila dos Atletas, na Barra. Todos os detalhes foram desenhados à mão pelo paisagista, sobre a prancheta do escritório da Rua Alice, em Laranjeiras, onde só trabalhava ao som de música clássica. O projeto incorpora movimentos de terreno e variações topográficas: quem passear pelo espaço encontrará diferentes perspectivas e uma variação de ambientes, que incluem nove lagos e espelhos d’água e oito quadras esportivas.

Isabela Ono, filha de Haru, diz que todos os desenhos do pai carregam o mesmo DNA:

— Ele está no olhar cuidadoso e artístico, que compreende o jardim como paisagem e arte. Há uma sensibilidade para integrar painéis, pisos, esculturas e composições, alinhando os elementos naturais: água, pedras, palmeiras, arbustos. Roberto nos ensinou a entender tudo isso como arte.

Na Barra, está em construção o novo Museu Casa do Pontal, que também contará com paisagismo de Haru e seus discípulos: os filhos Julio e Isabela Ono, Gustavo Leivas e Fátima Gomes, viúva do paisagista. No museu, que será aberto no ano que vem, traçados orgânicos e retilíneos que são uma marca do escritório serão associados à vegetação nativa da região, dialogando com os bosques de restinga, as lagoas e a arquitetura.

Haru ingressou no escritório Burle Marx e Cia Ltda em 1965, como estagiário, e lá permaneceu, como sócio, até a sua morte. Participou de diversas criações importantes ao lado do mentor, como o redesenho do Calçadão de Copacabana, de 1970. – Haru trabalhou a quatro mãos com Roberto no projeto do calçadão – diz Gustavo Leivas, sócio do escritório.

É difícil quantificar os projetos que levam as formas de Haru e Roberto pelo mundo. Os dois trabalharam juntos em ícones como o calçadão de Copacabana. Mais recentemente, Haru cuidou do paisagismo do Museu do Amanhã, do Museu de Arte do Rio (MAR) e do Museu da Imagem e do Som (MIS), este ainda em obra. Ainda atuou no restauro dos jardins do Palácio Capanema. No fim do ano, voltaram a brilhar pelas suas mãos os jardins do terraço do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), no Centro. Nos 450 anos do Rio, ele deu de presente à prefeitura todo um trabalho para a Enseada de Botafogo, que continua no papel. No exterior, Haru comandava a revitalização e a ampliação do Parque Kuala Lumpur City Centre, cujo desenho original é de sua equipe.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Divulgação