“Fomos das grades para a galeria”. Essa é a frase que a tatuadora Hélida Yama costuma usar para retratar a transformação do mercado da tatuagem no Rio de Janeiro. Com 16 anos de profissão, ela viu o setor sair de um nicho tido como marginal por boa parte da sociedade para se transformar num lucrativo negócio que, mesmo em tempos de crise, continua em expansão. Além de estúdios tradicionais, como o King7 Tattoo, que ampliou o seu espaço no ano passado, novas opções surgem com frequência, como a Bang Rio Tattoo, aberta há cinco meses no Leblon.
— O Rio, hoje, não fica devendo a nenhuma outra cidade quando o assunto é tatuagem. Esse cenário é fruto da luta de um grupo de pessoas que, assim como eu, vem batalhando desde o início para divulgar e quebrar os paradigmas relacionadas ao segmento — diz Hélida, que também é empresária e abriu há poucos meses um novo estúdio em Ipanema, o Mega Wartz Ipanema Ink, além de ser uma das organizadoras da Rio Tattoo Week, cuja a quinta edição começa amanhã.
A feira, um dos maiores eventos voltados para a tatuagem na América Latina, segue até domingo no Centro de Convenções Sul América, na Cidade Nova. Haverá 220 estandes, por onde devem passar mais de mil profissionais. O público estimado para os três dias é de dez mil pessoas. Desde que surgiu, em 2013, já recebeu cerca de 80 mil visitantes e quatro mil profissionais de diversos países.
— A edição carioca surgiu como um desdobramento da Tattoo Week São Paulo, que, na época, já tinha duas edições. No Rio, o evento ganhou uma característica especial, que foi agregar outras culturas próximas da tatuagem, como o skate, a música e o cinema — frisa a organizadora.
Quem for ao encontro deste ano vai conferir as principais tendências estilísticas do mercado, conhecer os nomes importantes do mundo das tatuagens, comprar acessórios, ver filmes, assistir a palestras e shows e acompanhar um concurso de tatuagens disputado em 25 categorias.
Outra atração de destaque, segundo Hélida, é o concurso Miss Tattoo, que será realizado no sábado, às 17h, e tem como principal objetivo a valorização da mulher, quebrando os paradigmas quanto aos padrões de beleza e as expressões estéticas, que muitas vezes ditam estilos de vida. As candidatas apresentarão uma performance em três categorias: “PinUp”, “Body modification” e “Beach”:
— Em parceria com a Delegacia Especializada em Atendimento a Mulher (Deam), o concurso vem enfatizar a questão de defesa dos direitos civis da mulher. Teremos, inclusive, palestras abordando essa questão — destaca a tatuadora.
Uma novidade que também promete chamar a atenção é a “Galeria mãos da obra”. Com inspiração na calçada da fama, os organizadores convidaram grandes nomes da tatuagem brasileira para eternizarem suas mãos moldado-as num quadro de cimento que ficará exposto na entrada e depois seguirá em caráter itinerante por outros eventos ao redor do país.
A edição deste ano intensificou, também, o intercâmbio entre artistas de diversas partes do mundo, vindos de países como Uruguai, Argentina, Chile, Peru, México, Estados Unidos, Portugal, Suiça, Espanha, Alemanha e Japão.
— Nesse processo de expansão e visibilidade internacional da Tattoo Week, recebemos ao longo do ano contatos de diversos artistas que desejam vir, mas o processo seletivo e questões de orçamento nem sempre permitem trazermos todos os interessados — explica Ganso Galvão, organizador responsável pelo contato com os artistas estrangeiros.
O empresário Harry Grossmann, morador do Leblon e dono de um estúdio na Tijuca, ressalta que a troca de experiências é o grande barato do evento:
— É uma espécie de encontro para a galera do meio, com os profissionais mais antigos. Tem também a parte da competição, porém isso é mais para os clientes, que brincam: “Ah, eu me tatuei com aquele que ganhou”. Para nós, o importante é apresentar o nosso trabalho.
Ele acrescenta que sua loja já é considerada tradicional no mercado.
— Teremos um estande grande, em que atuarão os tatuadores Limão, Otto Drummond e Yuri. Devemos competir em duas ou três categorias, mas ainda não definimos — completa Grossmann.
De acordo com Esther Gawendo, uma das fundadoras da marca Tattoo Week, o evento foi criado para receber toda a família:
— Os visitantes terão mais de duas mil vagas de estacionamento e praça de alimentação. E os pais acompanhados de filhos terão à disposição lojas especializadas em artigos infantis e espaço para recreação.
UM MERCADO SEM TRAÇOS DE TURBULÊNCIA
Quatro amigos com trabalhos fixos resolvem se unir para abrir um negócio próprio como forma de ganhar uma renda extra. Preocupados com a crise, eles decidem, antes de qualquer coisa, fazer uma extensa pesquisa em busca de um segmento que, mesmo nos momentos difíceis, mantenha fôlego para continuar de pé e até crescer. Foi assim que, há cinco meses, surgiu a Bang Rio Tattoo, um dos novos estúdios de tatuagem do Leblon.
— Depois de muita conversa e pesquisa chegamos à conclusão que, mesmo em tempos de arrocho financeiro, as pessoas sempre guardam um dinheirinho para fazer uma tatuagem. Num primeiro momento, pode parecer algo supérfluo, mas está longe de ser isso. É uma cultura cada vez mais forte e promissora — diz André Luiz Bloise, gerente de banco e um dos sócios da Bang Rio Tattoo.
O estúdio fica no subsolo de uma galeria na Avenida Ataulfo de Paiva e, só pela vitrine, dá para perceber que cada detalhe foi pensado com toda a atenção para atrair os clientes. Decorada com elementos que remetem à cultura pop — pôsteres de filmes e bandas, uma guitarra decorativa e um frigobar imitando um amplificador elétrico —, a ideia é que a pessoa se sinta confortável desde o primeiro momento em que pisar no estúdio.
— Fazer uma tatuagem é um momento muito importante para qualquer pessoa. Quem faz esta opção com certeza prefere estar num local agradável, limpo e com um clima bacana entre os profissionais. Esses são pontos que fazemos questão de oferecer de forma impecável — afirma Bloise.
A preocupação com o ambiente para receber os clientes também motivou uma grande reforma na King7 Tattoo, em Copacabana, um dos estúdios mais tradicionais da Zona Sul, com 15 anos de existência. O projeto foi assinado pelo arquiteto André Piva.
De acordo com o gerente, Anderson Oliveira, o “Orelha”, depois da intervenção, o estúdio passou a contar com sete estações para tatuagem e uma área usada exclusivamente para a criação dos desenhos.
— Por estarmos em Copacabana, temos uma grande movimentação de turistas também. Muitos deles são estrangeiros e, geralmente, querem fazer uma tatuagem com alguma referência ao Rio, como as linhas do calçadão, do Cristo ou do Pão de Açúcar — salienta o gerente do estúdio.
Um dos veteranos no ramo, Daniel Tucci, sócio e criador da King7 Tattoo, conta que há 15 anos havia cinco estúdios de tatuagem na Zona Sul. Hoje, são pelo menos 50.
— Aumentou muito a concorrência, mas cresceu também a demanda. Para quem já está estabelecido no mercado e tem um nome, a crise não é um problema. Ampliamos o nosso espaço recentemente justamente para podermos receber melhor os clientes, já que a procura continua grande — conta Tucci.
Com mais de 20 anos de experiência — ele participou de todas as edições da Rio Tattoo Week —, Tucci vive cercado por aprendizes do ofício no estúdio. A eles, diz que uma das regras para se tornar um bom tatuador é não parar de querer aprender e se enxergar de fato como um artista.
— A tatuagem é apenas uma técnica a mais, assim como a pintura com aquarela ou tinta a óleo. Quem quer ser um bom tatuador deve estudar arte a fundo e não parar nunca — aconselha Tucci.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo