Não se sabe ao certo se foi com a ajuda do padroeiro São Sebastião ou se foi obra do acaso, mas, no Rio de Janeiro, aconteceu o impossível — o homem conseguiu melhorar o irretocável. Diante de uma paisagem arrebatadora, não se intimidou. Plantou uma estátua no alto de um morro de 710 metros de altura, uniu duas pedras através de um improvável bondinho voador, construiu prédios e sonhos entre o mar e a montanha. Acertou em cheio. Tanto que conseguiu que a Unesco, numa decisão inédita, concedesse ao Rio, em 2012, o título de Patrimônio Mundial na categoria Paisagem Cultural Urbana, até então dado apenas a jardins históricos ou sistemas agrícolas tradicionais, nunca a uma cidade. Nesta terça-feira, a honraria será enfim sacramentada: o certificado que inclui o Rio na Lista de Patrimônio Mundial será entregue pela organização numa cerimônia aos pés do Cristo Redentor.
O lugar não poderia ser mais emblemático, segundo o diretor do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Washington Fajardo:
— O título mostra a genialidade do brasileiro na hora de construir uma cidade. Imagine alguém construir uma estátua de 40 metros de altura no alto de um morro de 700 metros. A gente fez isso. O Parque do Flamengo é outra obra de arte urbana — diz.
DEMORA POR CAUSA DE EXIGÊNCIAS
O certificado oficial demorou quatro anos para ser entregue ao Rio porque, após a vitória da candidatura da cidade, foi preciso que as autoridades fizessem o dever de casa e apresentassem um relatório detalhado mostrando como o patrimônio será preservado.
— Tivemos que explicar como será o monitoramento dos sítios, estabelecer indicadores. O documento foi entregue em fevereiro de 2014, mas a Unesco só o avaliou no ano seguinte. Como ele foi aprovado ano passado, só agora está tudo oficializado — explica Marcelo Brito, diretor do Departamento de Articulação e Fomento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
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No documento entregue em 2014, o Rio de Janeiro se comprometia a, entre outros itens, recuperar monumentos do Parque Nacional da Tijuca, como fontes, bicas e capela, e reformar os postos de salvamento da orla de Copacabana.
— Os maiores desafios são o Parque do Flamengo e a orla de Copacabana. Os quiosques têm um padrão definido, e temos que fiscalizar isso. Não pode ter puxadinho, não pode ter antenas de celular nos postes do Parque do Flamengo. A Unesco é muito rigorosa — diz Fajardo, lembrando que o título pode ser cassado se a paisagem for alterada de forma significativa.
Caberá ao Comitê Gestor do Sítio Patrimônio Mundial — que será apresentado hoje e incluirá representantes do Iphan, dos ministérios da Defesa e do Meio Ambiente, da prefeitura, da Unesco e de ONGs — zelar pela preservação. Há, segundo Brito, bastante trabalho pela frente. De agora em diante, será preciso enviar documentos anualmente à Unesco, que fará visitas periódicas à cidade para saber se não houve modificações na paisagem.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Custódio Coimbra